NAQUELA parte do ano incipiente
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Encaminham-se os Poetas pelo rochedo e chegam ao sétimo compartimento no qual estão os ladrões, os quais, picados por serpentes horríveis, inflamam-se e, depois, ressurgem das cinzas. Entre eles Dante reconhece Vanni Fucci, o qual por desafogar o despeito de ser colhido em tal vergonha e miséria, prediz-lhe a derrota dos Brancos.
- NAQUELA parte do ano incipiente,
- Em que as comas do sol se fortalecem
- No Aquário, e a noite iguala o dia ausente,
- Quando as geadas matinais parecem
- Da alva irmã figurar a imagem pura,
- Mas tais feições em breve se esvaecem.
- Campino, que a indigência já tortura,
- Ergue-se, e vendo o prado embranquecido.
- No coração calar sente a amargura.
- Torna ao tugúrio e carpe-se abatido,
- Como quem toda a esp’rança já perdera;
- Mas vendo em breve o campo estar despido
- Do triste manto, o alento recupera.
- Revigorado então, corre ao cajado
- E as ovelhas ao pascigo acelera.
- De temor me senti, dessa arte, entrado
- Do mestre merencóreo ante o semblante;
- Mas logo ao mal foi bálsamo aplicado.
- À ruína chegamos: nesse instante
- Virgílio volve àquele doce gesto,
- Que eu da colina ao pé vira ofegante.
- Reflete um pouco, o estado manifesto
- Da rocha examinando: eis-me, estendendo
- Os braços, resoluto ergueu-me presto.
- Como aquele que uma obra entre mãos tendo.
- Logo noutra tarefa põe o intento,
- Num rochedo Virgílio me sustendo,
- Já de outro acima me avisava atento.
- “Mais alto agora sobe” — me dizia —
- “Vê se a rocha está firme! Toma tento!”
- De capa ali ninguém transitaria;
- Pois nós, leves e eu sempre transportado,
- Subíamos a custo a penedia.
- Se mais alto o declive do outro lado
- Não fora do que esse outro, em que ora estamos,
- — Dele não sei — ficara eu lá prostrado.
- Que Malebolge inclina-se notamos
- À boca enorme do profundo poço;
- As encostas, são tais — expr’imentamos —
- Que uma é baixa, outra excelsa em cada fosso.
- Vimos, enfim, do topo à roca extrema,
- Dessa ruína ao último destroço.
- Lá chegado, afã tanto o peito prema,
- Que avante um passo dar eu mais não pude;
- Sentei-me então na inanição suprema.
- “Eia! toda a fraqueza em ti se mude!
- Em ócio” — disse o Mestre — “ou sobre a pluma
- Prêmios ninguém conquista da virtude.
- “Aquele que a existência assim consuma,
- Tal vestígio de si deixa na terra,
- Como o fumo no ar e na água a espuma.
- “Ergue-te, pois! Torpor de ti desterra!
- Recobra o esforço que os perigos vence!
- Impere alma no corpo em que se encerra!
- “Que vais subir muito alto a mente pense;
- Desse abismo não basta haver saído.
- Será teu prol, se a minha voz convence”.
- Alço-me então, mostrando-me impelido
- De alento, que não tinha; e ao Mestre digo:
- “Avante! Forte já me sinto e ardido!”
- Pela rocha asperíssima prossigo
- Mais estreita, inda menos acessível
- Que a outra: os passos de Virgílio sigo.
- Por provar-me às fadigas insensível
- Falando andava. Eis ouço de outra cava
- Ressoar voz bem pouco perceptível.
- O que disse não sei, posto me achava
- Da ponte sobre a parte culminante;
- Mais parecia iroso quem falava.
- Curvei-me para ver no fosso hiante,
- Mas alcançar não pude o fundo escuro.
- Ao Mestre disse então. “Se apraz-te, avante
- Passando, desceremos deste muro;
- Daqui ouço uma voz, mas não a entendo;
- Fito os olhos, mas nada me afiguro”.
- “Respondo aos teus desejos, acedendo;
- Que o pedido discreto assim declaro
- Se cumpre, não falando, mas fazendo”.
- Fomos da ponte à parte, donde é claro
- Que se vai ter à ribanceira oitava:
- Ficou patente a cava ao meu reparo.
- De serpes tal cardume se enroscava,
- Horríficas na infinda variedade,
- Que ao sangue, inda ao lembrar, terror me trava.
- Não tenha a Líbia de criar vaidade,
- De quersos, fares, cencris no seu seio
- E anfisbenas, tamanha quantidade.
- Nem do mar Roxo* em plagas, nem no meio
- Da Etiópia, tropel tão pavoroso
- De flagelos jamais a lume veio:
- Por entre o enxame atroce e temeroso
- Almas corriam nuas e transidas,
- Heliotrópia não sperando ou pouso.
- Atrás as mãos por serpes são tolhidas,
- Que, transpassando os rins, cauda e cabeça,
- Lhes tinham por diante em laços unidas.
- Eis uma de repente se arremessa
- Ao prescito, que perto nos demora:
- Morde-lhe o colo aonde a espádua cessa.
- Um O traçar ou I mais custa agora
- Do que ser o mesquinho incendiado:
- Em cinzas cai o pecador, que chora.
- Stando em terra desta arte derribado,
- Juntando-se a cinza e logo reformou-se,
- Como de antes, o triste condenado.
- Dos sábios na escritura já narrou-se
- Que a Fênix morre e logo após renasce,
- Quando aos anos quinhentos acercou-se.
- Viva, já nunca em cibo ela se pasce,
- Em lágrimas, porém, de incenso e amono;
- De nardo e mirra em ninho extremo apraz-se.
- Como aquele que cai sem saber como,
- Do demônio ao poder, que à terra o tira,
- Ou de outra opilação sentindo o assomo;
- Levantando-se, em torno a si remira,
- Da angústia inda aturdido, que o mordera,
- E, em seu soçobro, pávido suspira:
- Assim parece o pecador, que ardera.
- Contra os pecados na final vingança,
- Ó Justiça de Deus, quanto és severa!
- Quem fora inquire o Mestre, e dele alcança
- Estas vozes: — “Há pouco, da Toscana
- Chovi no abismo, onde ninguém descansa.
- “Vida brutal vivi, não vida humana.
- Chamei-me Vanni Fucci, híbrida besta;
- Pistóia, meu covil, de mim se ufana”.
- Ao Mestre eu disse: — “Referir-nos resta
- O crime, que deu causa à morte sua:
- Sei que em sangue banhara a mão funesta”.
- O pecador, que me ouve, não se amua:
- Volta-me presto a cara, em que a tristeza
- Com sinais de vergonha se insinua
- E diz: — “Sinto da dor mais a aspereza,
- Porque em miséria tanta me vês posto,
- Do que quando da morte hei sido a presa.
- “Ao que exiges respondo com desgosto:
- Por ter roubado alfaias e ornamento
- Da igreja, aqui estou, sendo meu gosto
- “Que pelo crime houvesse outro tormento.
- Se deste antro saíres algum dia,
- Por que não sejas do meu mal contento,
- “Ouve bem o que a voz minha anuncia:
- De si Pistóia os Negros expulsando,
- Povo, modos, Florença então cambia.
- “Vapor de Val de Magra Marte alçando,
- O traz em torvas nuvens envolvido;
- E, enquanto a tempestade está raivando,
- “No campo de Picen será ferido
- Combate; a névoa logo se esvaece;
- Dos Brancos cada qual será batido.
- “Sabe-o, pois: certo, a nova te entristece”.