ACRESCENTAR eu devo, prosseguindo
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Flégias corre com a sua barca para os dois Poetas serem conduzidos, passando à lagoa, à cidade de Dite. No trajeto encontram a Filipe Argenti, florentino, que discute com Dante. Chegando às portas de Dite, os demônios não o querem deixar entrar. Virgílio, porém, diz a Dante que não lhe falte a coragem, pois vencerão a prova e que não há de estar longe quem os socorra.
- ACRESCENTAR eu devo, prosseguindo,
- Que da torre inda estávamos distantes,
- Quando os olhos ao cimo dirigindo,
- Dois fanais brilhar vemos vacilantes,
- A que outro de tão longe respondia,
- Que mal se avistam seus clarões tremantes.
- E eu de todo o saber ao mar dizia:
- — “Os lumes dois por que? Por que o terceiro?
- Para acendê-los quem razão teria?” —
- — “Pela onda impura” — me tornou — “ligeiro
- Quem se aguarda já vês, se não te empece
- A vista do paul o nevoeiro”. —
- Qual seta, que pelo ar veloz corresse
- Da corda arremessada, discernimos
- Tênue batel, que vir pra nós parece.
- A regê-lo um arrais distinguimos:
- — “Alfim chegaste, espírito execrando!”
- Em retumbante grita nós lhe ouvimos,
- — “Flégias, Flégias, estás em vão bradando!” —
- Disse-lhe o Mestre — “nos terás somente
- Enquanto formos o paul passando.” —
- Como quem reconhece, e pesar sente,
- Um grande engano, que se lhe há tecido,
- Flégias assim na sua ira ardente.
- Tendo Virgílio à barca descendido,
- Eu segui-o: somente aos meus pesados
- Passos mostrou ter carga recebido.
- Em sendo o Mestre e eu no lenho entrados,
- O lago foi cortando a antiga proa
- Com sulcos mais que de antes profundados,
- Enquanto assim corremos, eis me soa
- De lutulenta sombra voz que exclama:
- — “Quem és que em vida vens para a lagoa?”
- — “Sim, venho, mas não fico nesta lama.
- E tu quem és que imundo te hás tornado?” —
- — “Bem vês: um sou que lágrimas derrama.”
- E eu então: — “Fica em lodo mergulhado.
- Em dor, em pranto, espírito maldito!
- Sei quem és, se bem stás desfigurado”. —
- Tendeu à barca as mãos aquele aflito,
- Mas por Virgílio, que o repele presto
- — “Com teus iguais vai, cão, te unir!” — foi dito.
- Abraçando-me então com ledo gesto
- Me oscula e diz: — “Abençoado seja,
- Quem tão altivo te gerou e honesto!
- “Essa alma, que de orgulho inda esbraveja,
- Avessa ao bem, de raiva possuída,
- Deixou em si memória, que negreja.
- Quantos reis, grandes na terrena vida,
- Virão, quais cerdos, se atascar no lodo,
- Fama de si deixando poluída!” —
- — “Mestre, grato me fora sobremodo
- Vê-lo no ceno mergulhar profundo,
- Antes de eu ter daqui saído em todo”. —
- — “Antes que a margem — respondeu jocundo —
- Avistes, gozarás dessa alegria,
- Verás penar o espírito iracundo”. —
- E logo ao pecador, como à porfia,
- Tanta aflição causou a imunda gente,
- Que ainda louvo a Deus, que o permitia.
- Gritavam todos: — “A Filipe Argenti!” —
- E a florentina sombra, se volvendo
- Contra si, se mordia insanamente:
- Lá o deixei, não mais nele entendendo.
- Súbito, ouvindo um lamentar amaro,
- Os olhos fitos para além e atendo.
- E o bom Mestre me disse: — “Ó filho caro,
- Stá perto Dite, de Satã cidade,
- Que há povo infindo para o bem avaro”. —
- — “Lá do vale no fundo em quantidade
- Mesquitas” — respondi — “rubras discerno
- De flama, creio, pela intensidade”. —
- E o Mestre a mim: — “As faz o fogo eterno
- Vermelhas, que lá dentro está lavrando
- Como tens visto neste baixo inferno”. —
- Já nos profundos fossos penetrando
- De que o triste alcáçar é circundado,
- Me estavam ferro os muros semelhando.
- Mas, após grande giro, hemos tocado
- Na parte, onde o barqueiro com voz forte
- — “Saí” — gritou — “à entrada haveis chegado!”
- À porta vi daqueles grã coorte
- Que o céu choveu; bramiam de despeito:
- “Este quem é que, antecipando a morte,
- “Tem dos mortos no reino sido aceito?” —
- Meu sábio Mestre então lhes fez aceno
- Para, em secreto, expor-lhe seu conceito.
- Contendo um pouco às sanhas o veneno
- Disseram: — “Vem tu só; vá-se o imprudente,
- Que neste reino entrou, de audácia pleno;
- “Só deixe a empresa em que embarcou demente;
- Tente-o, se sabe; ficarás no entanto;
- Pois és seu guia à região nocente”. —
- Imagina, ó leitor, qual fosse o espanto
- Meu escutando a horrífica ameaça:
- Não deixar a mansão temi do pranto.
- “Ó Mestre meu, que tanta vez a graça
- Fizeste de alentar-me o peito aflito
- No perigo iminente e atroz desgraça,
- “Não me deixes” — disse eu — “neste conflito!
- E, se avante passar é defendido,
- Ambos voltemos do lugar maldito!” —
- Quem tão longe me havia conduzido
- — “Não temas” — diz — “não pode ser vedado
- O passo, que por Deus foi permitido.
- “Aqui me espera e o ânimo prostrado
- Fortalece e alimenta de esperança:
- Não hás de ser no inferno abandonado”. —
- O doce pai se afasta e à porta avança.
- Ficando assim na dúvida e incerteza,
- No pró, no contra a mente se abalança.
- Não pude o que propôs ouvir; na empresa
- Curta há sido a detença: de repente
- Esquivam-se os precitos com presteza.
- De roldão cerra a porta a imiga gente
- Do Mestre à face, que, ficando fora,
- A mim se restitui mui lentamente.
- De olhos baixos, faltava-lhe a de outrora
- Afouteza, e dizia suspirando:
- “Quem me tolhe da dor a estância agora?” —
- E logo a minha alteração notando
- “Não te aflijas; que os óbices te digo
- Hei de vencer que a entrada estão vedando.
- “Não é nova esta audácia do inimigo;
- Em mais patente porta há já mostrado,
- Que sem ferrolho está: viste-a comigo,
- “E a lúgubre inscrição lhe hás contemplado.
- Deixou atrás e desce a penedia,
- Pelos círc’los passando não guiado,
- Abrir quem pode esta cidade ímpia”. —