O QUE hei visto e refiro quem deseja
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O Poeta descreve a dança das duas coroas de espíritos celestes. S. Tomás resolve a segunda dúvida de Dante. Adão e Jesus Cristo são seres perfeitíssimos, por serem obra imediata de Deus. Mas ele não pode ser comparado nem a Adão nem a Jesus Cristo. Conclui o Santo advertindo do perigo dos juízos precipitados, e de quanto é sujeito a enganar-se quem julga das coisas pelas aparências.
- O QUE hei visto e refiro quem deseja
- Entender, imagine, (e bem sculpida,
- Como em rocha, na mente a imagem seja)
- Quinze estrelas, que luz tanta espargida
- Tem por celestes regiões dif’rentes,
- Que é do ar a espessura esclarecida,
- Da carroça imagine as refulgentes
- Rodas, sempre girando, noite e dia,
- Pelos espaços do céu nosso ingentes;
- Da trompa a boca mostre a fantasia,
- Que lá no extremo do axe, ao qual a esfera
- Primeira contorneia, principia.
- Se em signos dois tais astros considera,
- Iguais à c’roa que no céu fulgura,
- Dês que Ariadne à morte se rendera;
- E, os raios misturando da luz pura,
- Para lados contrários se movendo
- Aqueles círc’los dois na etérea altura:
- Imagine, mas quase a sombra tendo
- Dos versos astros, dessa dupla dança,
- Que em torno a nós estava se volvendo.
- Que a verdade essa imagem tanto alcança,
- Quanto a Chiana a rapidez imita
- Do céu, que a todos os mais céus se avança.
- Nem Pean cantam, nem de Baco a grita;
- Mas Três Pessoas com divina essência
- E numa o humano ser, que a Deus se adita.
- Os hinos tendo e a dança intermitência
- Em nós os santos lumes se fitaram;
- Compraz-lhes dos cuidados a seqüência.
- O silêncio que os coros dois formaram,
- As vozes rompem, que a espantosa vida
- Do mendigo de Deus me recontaram.
- — “Quando a palha é do trigo dividida,
- Quando a colheita fica enceleirada,
- A bater outra doce Amor convida.
- “Crês que ao peito onde a costa foi tirada
- Para a boca gentil formar motivo
- Da pena ao mundo inteiro fulminada,
- “E ao da aguda lança o golpe esquivo
- Padeceu e a balança, em morte e vida,
- Da culpa alçou com peso decisivo,
- “Quanta ciência aos homens permitida
- Ser poderia pela mão divina,
- Que um e outro criou, fora infundida.
- “Tua mente, pois, a dúvidas se inclina
- Me ouvindo que em ciência sem segundo
- Subira quem a luz quinta domina.
- “Olhos abre à razão, em que me fundo:
- Como teu crer confundida tens de vê-la
- Na verdade, qual centro num rotundo.
- “O que não morre, o que por morte gela
- É só splendor da Idéia, que, nascendo
- Do Senhor nosso, o seu amor revela;
- “Por quanto essa luz viva, procedendo
- Do foco seu, do qual se não desune,
- Nem do Amor, que o terceiro fica sendo,
- “Só por Bondade sua, o fulgor une,
- Como em spêlho, em céus nove, e o concentrando,
- Tem a unidade eternalmente imune.
- “As últimas potências se abaixando,
- Já de ato em ato enfraquecida fica,
- As breves contigências vai formando.
- “Contigências palavra é que te indica
- Essas cousas, que o céu, no movimento,
- Com semente ou sem ela multiplica.
- “Não mostra arte ou substância um só intento
- E modo, mais ou menos transluzindo
- O selo do Supremo Entendimento.
- “Vê-se, pois, a mesma arv’re produzindo,
- Segundo a espécie, ou bons ou ruins frutos;
- E vós à luz com várias manhas vindo.
- “Brilhava o selo inteiro nos produtos,
- Se a cera em ponto apropriado fora,
- E os influxos do céu nunca interruptos;
- “Porém natura as impressões desdoura,
- Procedendo, assim como faz o artista:
- Treme-lhe a mão que é da arte sabedora.
- “E, pois, se ardente amor a clara vista
- Da virtude primeira imprime e adapta,
- A perfeição aqui toda se aquista.
- “Assim a argila foi condigna e apta
- A toda perfeição da criatura,
- E concebeu a Virgem pura, intacta.
- “Segues, portanto opinião segura:
- Como nos dois jamais tão alta há sido,
- Nem jamais há de ser vossa natura.
- “Se eu porventura houvesse concluído,
- Com razão me tiveras perguntado:
- — Como disseste — igual não tem subido?
- “Da verdade por seres informado,
- No que era pensa e à sua escolha atende,
- Quando — Pede — por Deus foi-lhe ordenado.
- “Claro falei, tua mente bem comprende
- Que foi Rei quem pediu sabedoria
- Para fazer o que o bom Rei pretende.
- “Não quis saber qual número seria
- Dos motores ao céu, nem se necesse
- Com contigente um seu igual faria.
- “Non si est dare primum motum esse,
- Ou se um triâng’lo sem ter âng’lo reto
- Traçar em simicírc’lo se pudesse.
- “E pois, o dizer meu que ora completo,
- Quando falava na sem par ciência,
- A prudência real ia direto.
- “Dando ao — “Subiu” — devida inteligência,
- Hás de ver que somente aos Reis se aplica,
- Muitos na soma, poucos na excelência.
- “E feita a distinção que exposta fica,
- Meu dizer à tua fé no pai primeiro
- E em nosso Redentor não contra-indica.
- “Prende assim chumbo ao pé sempre; ligeiro
- Não vás, imita o caminhante lasso;
- Ao não ao sim não corre aventureiro.
- “Mostra ser dos estultos o mais crasso
- Quem afirma, quem nega leviano
- Sem distinção ou num ou noutro passo.
- “Daí vem muitas vezes por seu dano,
- Que o juízo do vulgo se transvia
- E o entendimento enleia afeto insano.
- “Mais do que em vão do porto se desvia:
- Incólume não volta da jornada
- Quem pós verdade da arte não seguia.
- “A prova dão, por fatos confirmada
- Parmênides, Melisso, Brisso e quantos
- Partiram sem saber o rumo e a estrada.
- “Assim Ário fez, Sabélio e tantos,
- Que, como espadas, deram na Escritura,
- Mutilando o sentido aos textos santos.
- “Quem no julgar as cousas se apressura
- Imita aquele, que estimasse o trigo,
- Quando a seara inda não stá madura.
- “No inverno hei visto espinho dar castigo
- Ao que imprudente as ramas lhe tocara;
- Rosas depois oferecia amigo.
- “E nau vi, que segura navegara,
- Em viagem feliz, o salso argento,
- Soçobrar, quando o posto já tomara.
- “De Deus antecipar-se ao julgamento
- Não queiram Dona Berta e Dom Martinho:
- Se um rouba e é outro às oblações atento,
- Pode um se erguer, cair outro em caminho.” —