QUANDO o setentrião do céu primeiro
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Acolhida festivamente pelos anjos e pelos bem-aventurados, desce do Céu, Beatriz (a divina sabedoria) e pousa no carro. Nisto Virgílio (a humana sabedoria) desaparece. Ela dirige-se a Dante e lhe exprobra os seus desvios. Dante chora; e os anjos se compadecem dele. Beatriz, dirigindo-se a eles, expõe mais particularmente quais foram as suas faltas depois da sua morte.
- QUANDO o setentrião do céu primeiro,
- Que, jamais tendo ocaso, nem nascente,
- Da culpa só nublou-se em nevoeiro,
- E ali fazia cada qual ciente
- Do dever seu, bem como o deste mundo
- Do nauta ao porto é guia permanente,
- Parou, a santa grei, que ia em segundo
- Lugar antes do Grifo, dirigia,
- Como à paz sua ao carro olhar profundo.
- Um, que do céu arauto parecia,
- Veni, sponsa de Libano — cantando,
- Três vezes disse, e a turba repetia.
- Como, ao soar o derradeiro bando,
- Hão de os eleitos ressurgir ligeiros,
- Com renovada voz aleluiando,
- Assim, da vida eterna mensageiros,
- Cem anjos, ad vocem tanti senis
- Elevaram-se ao carro sobranceiros.
- Diziam todos: — Benedictus qui venis!
- Modulavam, lançando em torno flores:
- Manibus, oh, date lilia plenis!
- Já vi do dia aos lúcidos albores
- Em parte o céu de rosicler tingido,
- Estando em parte azul e sem vapores,
- E o sol, nascendo em nuvens envolvido,
- Permitir que se encare em seu semblante,
- Entre véus nebulosos escondido:
- Tal, em nuvem de flores odorante,
- Que de angélicas mãos sobe fagueira
- E cai no carro e em torno a cada instante,
- De véu neves cingida e de oliveira,
- Uma dama esguardei com verde manto
- E veste em cor igual à da fogueira.
- E o espírito meu que, tempo tanto
- Havia já, não fora ao seu conspeito,
- Trêmulo, entrando de soçobro e espanto,
- Antes que aos olhos se mostrasse o aspeito,
- Sentiu, por força oculta que desprende,
- Do antigo amor, o poderoso efeito.
- Quando essa alta influência em mim descende,
- Que desde o alvor primeiro da existência
- Da alma as potências me avassala e rende,
- À sestra me voltei com diligência,
- Qual infante da mãe correndo ao seio,
- Se dor ou medo assalta-lhe a inocência,
- Por dizer a Virgílio: — “Neste enleio,
- Meu sangue em cada gota é convulsado,
- De amor na antiga flama eu me incendeio.”
- Mas ai! Virgílio havia-se ausentado,
- Virgílio, o pai dulcíssimo e amoroso,
- Virgílio, a quem, por me salvar, fui dado!
- Quanto perdeu neste lugar formoso
- Eva, não tolhe as lágrimas no rosto,
- Que o rocio me lavara milagroso.
- — “Não haja por Virgílio ir-se, desgosto;
- Não te entregues ao pranto agora, ó Dante;
- Por dor mais viva ao pranto sê disposto.” —
- Como em revista às naus sábio almirante
- Nas manobras feroz a dura gente
- E os corações esforça vigilante,
- Do carro à borda, à esquerda, incontinênti,
- Quando voltei-me ao nome proferido,
- Que por ser dito aqui vem simplesmente,
- A dama vi que tinha aparecido
- Velada em meio da divina festa,
- Tendo, além-rio, o gesto a mim volvido.
- Conquanto o véu, que lhe cingia a testa,
- Que de Minerva fronde coroava,
- A face não deixasse manifesta,
- No régio continente que ostentava
- Desta arte prosseguiu; porém dizendo
- O mais acerto para o fim guardava:
- — “Oh! Sou eu! Sim! Beatriz stás vendo!
- Pois te hás dignado de ascender ao monte
- Ter aqui dita o homem já sabendo?” —
- Os olhos inclinando à pura fonte
- Vi minha imagem; logo os volto a um lado,
- Tanta vergonha me acendia a fronte!
- Qual mãe, que o filho increpa em tom maguado,
- Pareceu-me: porque se torna amara,
- A piedade que pune, ao castigado.
- Calou-se ela e dos anjos a voz clara
- — “In te, Domine, speravi” — de repente
- Entoa, mas em pedes meos pára.
- Da terra italiana em serra ingente
- Da esclavônia por ventos contraída
- Entre as selvas congela a neve algente;
- Depois liquesce e corre derretida
- Ao quente sopro, que do sul procede,
- Como cera de flamas aquecida;
- Tal o soçobro as lágrimas me impede
- Antes de ouvir a angélica toada,
- Que o hino dos eternos orbes mede.
- Mas quando, em seus concentos expressada,
- Compaixão vejo mais do que se houvessem
- Dito: — “Senhora, por que és tanto irada?”,
- No peito meu os gelos se amolecem;
- Dos lábios e dos olhos irrompendo,
- Com lágrimas soluços aparecem.
- Firme no carro, à destra se volvendo,
- Ela aos pios espíritos dizia,
- Do cântico às palavras respondendo:
- — “Vigilantes estais no eterno dia;
- Jamais por noite ou sono distraída,
- Do tempo os passos vossa vista espia.
- “Minha resposta, pois, vai dirigida
- Àquele, que ora ao pranto os olhos solta:
- A culpa seja pela dor medida.
- “Dos céus, não pela ação, na imensa volta,
- Que para um fim conduz cada semente,
- Segundo os astros, que lhe vão na escolta,
- “Se não de graças por divina enchente,
- Que chovem sobre nós dessa eminência,
- A que se alar nem pode a nossa mente,
- “Este homem foi na aurora da existência,
- De tais dotes ornado, que pudera
- Da virtude alcançar toda a excelência.
- “Se, porém, a incultura se apodera
- Ou semente ruim do bom terreno,
- Plantas mali’nas, peçonhentas gera.
- “Conservou-se ante mim puro e sereno:
- Meus olhos, em menina, o conduziram
- Pelo caminho mais seguro e ameno.
- “Tanto que umbrais à vista se me abriram
- Da idade segunda e desta vida,
- Deixou-me; outros enlevos o atraíram.
- “Quando em espírito eu fora convertida
- E beleza e virtude em mim crescera,
- Em menos preço fui por ele havida.
- “Por fraguras fugiu da estrada vera,
- Em fingidas imagens enlevado,
- De que jamais se alcança o que se espera.
- “Inspirações em vão hei-lhe impetrado
- Em sonhos, em vigília o bem mostrando:
- Cego, correu pelo caminho errado.
- “Já todo o esforço meu se malogrando,
- Para salvá-lo do perigo eterno
- Quis que baixasse ao reino miserando.
- “Foi neste empenho que desci ao inferno,
- E à sombra, que de guia lhe há servido,
- Fiz o meu rogo lacrimoso eterno.
- “O preceito de Deus fora infringido,
- Se ele do Letes transcendesse as águas,
- Se lhe fosse prová-las permitido,
- Sem seu preço pagar em pranto e mágoas.” —