ERA o tempo, em que mais saudade sente
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No começo da noite dois anjos descem do Céu para expelir a serpe maligna que quer entrar no vale. Entre as sombras que se aproximam dos Poetas, Dante reconhece Nino Visconti, de Pisa. Conrado Malaspina pede a Dante notícias de Lunigiana, sua pátria; Dante responde elogiando a sua família.
- ERA o tempo, em que mais saudade sente
- Do navegante o coração no dia
- Do adeus a amigos, que relembra ausente;
- E ao novel peregrino amor crucia,
- Distante a voz do campanário ouvindo,
- Que ao dia a morte, flébil, denuncia.
- Não mais ouvia os olhos dirigindo
- Perto um espírito vi que levantado,
- Acenava, que ouvissem-no pedindo.
- E, havendo as duas mãos juntas alçado,
- Parecia, olhos fitos no Oriente,
- A Deus dizer: És todo o meu cuidado!
- Te lucis entoou devotamente
- Com tão suave, tão piedoso canto,
- Que me enlevava em êxtase a mente.
- Com igual devoção e igual encanto,
- Nas supernas esferas engolfados,
- Repetiram os outros o hino santo.
- Leitor, tem da alma os olhos afiados
- Para os véus da verdade penetrares:
- Fácil é, tão sutis são, tão delgados.
- A nobre turba, após os seus cantares,
- Calou-se; então notei que, como à espera,
- Pálida e humilde a vista erguia aos ares.
- E vi sair descendo, da alta esfera
- Anjos dois, empunhando flamejantes
- Gládios a que truncada a ponta era.
- Verdes quais folhas novas vicejantes
- As vestes suas são, as agitando
- As plumas das suas asas viridantes.
- Um acima de nós se colocando,
- Baixara o outro sobre o lado oposto,
- Desta arte as almas de permeio estando.
- A flava coma via-lhes: seu rosto
- Contemplar impossível me seria:
- Confunde a vista o lúcido composto.
- “Do sólio ambos descendem de Maria”
- Sordelo diz — “a do vale por amparo,
- Onde a serpente vai chegar ímpia.”
- Por onde ela viesse estando ignaro
- Em torno olhei e, do terror tomado,
- Busquei refúgio ao pé do amigo caro.
- Sordel prossegue: — “É de falar chegado
- Àqueles grandes spíritos o instante:
- Ledos serão de ver-vos ao seu lado.” —
- Para baixar ao val me foi bastante
- Três passos dar: um spírito fitava
- Perscrutadora vista em meu semblante.
- Já de sombras o ar se carregava;
- Mas aos seus e aos meus olhos embaraço
- Não era para ver-se o que ali stava.
- A mim vem, eu para ele aperto o passo:
- — “Nino exímio juiz quanto me agrada
- Ver-te liberto do infernal regaço!”
- De afeto após a mostra reiterada,
- Inquiriu: — “Por longínquas águas quando
- Chegaste ao pé da altura alcantilada?”
- — “Oh!” — lhe tornei — “esta manhã, passando
- Pela triste mansão: ainda a vida
- Primeiro gozo e a outra vou buscando.” —
- Mal fora esta resposta proferida,
- Nino e Sordel, de pasmo, recuaram;
- Como se fora maravilha ouvida.
- Ao Vate este volveu-se; e se escutaram
- Vozes de Nino a outro: — “Vem, Conrado, —
- De Deus ver o que as leis determinaram!”
- — “Por essa gratidão” — a mim voltado
- Disse — “que ao Ente deves invisível,
- Cuja ação compreender nos é vedado.
- “Te imploro que, em passando o mar temível,
- Digas à filha minha que suplique
- Por mim: Deus à inocência é tão sensível!
- “Não creio que em prol meu a mãe se aplique
- Depois que os brancos véus trocou demente:
- Dor terá infeliz! — que mortifique.
- “Se conhece, por ela, facilmente
- Quanto em mulher de amor fogo perdura
- Se o caminho falece e o olhar freqüente.
- “Não lhe fará tão bela sepultura
- A víbora com que Milão se ostenta,
- Como a fizera o galo de Galura.” —
- Assim dizia Nino. Ainda o alenta
- O justo zelo, que traduz no rosto,
- Que brando ardendo, o ânimo aviventa.
- Ávido os olhos tinha eu no céu posto,
- À parte em que os luzeiros são mais lentos,
- Qual roda onde o seu eixo está disposto.
- E o Mestre: — “Os olhos ao que tens atentos?” —
- Respondi-lhe: — “Aos três astros luminosos,
- Que o pólo acendem, célicos portentos.” —
- — “As quatro estrelas” — me tornou — “formosas,
- Que por manhã já vimos, se ocultaram.
- Aí mesmo estas surgem fulgurosas.” —
- Sordel, quando estas vozes me voaram,
- O tira a si dizendo: — “eis o inimigo!” —
- Os olhos o seu dedo acompanharam.
- Do val na parte exposta ver consigo
- Uma serpe, que a rastos coleava:
- Talvez o pomo deu, de Eva perigo.
- Entre as ervas e flores avançava,
- A um lado e a outro a fronte volteando;
- Lambendo o dorso, a língua dilatava.
- Não pude ver como ao réptil nefando
- Os celestes açores se enviaram;
- Mas atônito os vi ambos pairando.
- O sussurro que as asas no ar formaram,
- Em sentido, fugiu presto a serpente:
- Os anjos logo aos postos seus tornaram.
- A sombra, que viera incontinênti
- Do juizo ao chamado enquanto o assalto
- Durou, me estava olhando atentamente
- — “Tenha o fanal, que te conduz ao alto
- No teu desejo válido alimento!
- De luz para subir não sejas falto!
- “Mas se houveste” — me diz — “conhecimento
- De Valdimagra ou terra que confina,
- Declara: eu de poder lá tive aumento.
- “Chamado fui Conrado Malaspina;
- Não o antigo, porém seu descendente:
- Amor, que tive aos meus aqui se afina.” —
- — “Lá não fui” — respondi-lhe reverente —
- “Mas da Europa em que parte a excelsa fama
- Dos feitos vossos não tem eco ingente?
- “A glória que o solar vosso proclama,
- Honra o domínio, honra os seus senhores
- Quem nunca os viu louvores seus aclama.
- “Juro, e tão certo eu veja os esplendores
- Do céu, que a vossa raça guarda intatos
- Da opulência e bravura altos primores.
- “Por sua índole egrégia, por seus atos,
- Enquanto ao mundo um chefe mau transvia,
- Só ela segue o bem e o prova em fatos.” —
- — “Vai!” — disse — “Antes que o belo astro do dia
- Sete vezes penetre nesse espaço,
- Que o Áries cobre na celeste via,
- “Tão boa opinião com fundo traço
- Melhor será na tua fronte impressa
- Do que de outro por voz a cada passo,
- Se do Sumo Querer ordem não cessa.” —