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A Divina ComédiaPurgatório · Canto XXI
PurgatórioXXI

A SEDE natural, que não sacia

136 versos · 55 de 100


Enquanto os dois Poetas continuam no seu caminho, uma alma se aproxima deles. É o poeta latino Estácio, o qual explica que o abalo do monte que se deu pouco antes foi o sinal de que, purificado dos seus pecados, ele pode subir ao Céu. Sabendo que está falando com Virgílio, Estácio demonstra-lhe o seu afeto.

  1. A SEDE natural, que não sacia
  2. Senão a água, que, súplice, implorava
  3. Ao senhor a mulher de Samaria,
  1. Molestando-me, os passos me apressava
  2. Após meu Guia na impedida estrada,
  3. E do justo castigo o dó me entrava.
  1. Eis, como escreve Lucas na sagrada
  2. História que Jesus aparecera,
  3. Ressurgido, aos dois sócios na jornada,
  1. Uma sombra surgiu; trás nós viera.
  2. Andando aquela turba contemplava:
  3. Dela fé nem o Mestre, nem eu dera.
  1. — “Deus vos dê paz, irmãos!” — assim falava.
  2. Voltamo-nos de súbito, e Virgílio,
  3. Cortês no gesto, a saudação tornava
  1. Logo dizendo: — “Do feliz concílio
  2. Te receba na paz a santa corte,
  3. Que a mim me desterrou no eterno exílio!”
  1. — “Como andais” — respondeu — “com passo forte.
  2. Se Deus no céu vos não permite a entrada?
  3. Quem vos conduz na altura desta sorte?” —
  1. — “Os sinais de que a fronte está marcada
  2. Deste homem por um anjo” — diz meu Guia —
  3. “To mostram di’no da eternal morada,
  1. “Mas, como aquela, que, incessante fia,
  2. Não lhe havia inda a estriga consumido,
  3. Que impõe Cloto ao que a vida principia,
  1. “Subir só não teria ao céu podido
  2. A sua alma, irmã tua, como é minha,
  3. Pois não há, como nós, ver conseguido.
  1. “Do inferno às fauces fui tirado asinha
  2. Para guiá-lo, e o guiarei contente
  3. No que do meu saber não passe a linha.
  1. “Se puderes, me diz, por que o eminente
  2. Monte, há pouco, tremeu, e desde a c’roa
  3. À base retumbou clamor ingente.” —
  1. A pergunta ao desejo tão boa soa,
  2. Que ouvi-la a sede ardente me alivia,
  3. Somente uma esperança mitigou-a.
  1. — “Quanto hás notado” — a sombra respondia —
  2. “Em nada os ritos da montanha altera:
  3. De estranheza motivo não seria.
  1. “Mudança aqui supor se não pudera:
  2. Subindo ao céu quem pertencer-lhe deve,
  3. A causa dá-se que esse efeito opera.
  1. “Nunca saraiva, chuva, orvalho ou neve
  2. Nesta montanha cai, passando a altura
  3. Dos três degraus que estão na escada breve.
  1. “Aqui não vê-se nuvem clara ou escura,
  2. Relâmpago não luz, nem de Taumante
  3. Mostra-se a filha, que tão pouco dura.
  1. “Jamais daqueles três degraus avante,
  2. Em que de Pedro o sucessor domina,
  3. Seco vapor se eleva um só instante.
  1. “Tremor talvez a sua base inclina;
  2. Mas não atua no alto oculto vento,
  3. Que não sei como dentro se amotina.
  1. “Quando já de estar puro o sentimento
  2. Uma alma tem e se ala ao céu, que a chama,
  3. Segue o tremor e o grito ao movimento.
  1. “Seu querer a pureza lhe proclama,
  2. Prova que tem de alçar-se a liberdade
  3. Por força do desejo, em que se inflama.
  1. “Antes o tem; mas contra essa vontade
  2. A divina justiça ardor lhe inspira
  3. Por pena, como o teve por maldade.
  1. “Eu que em martírio decorridos vira
  2. Anos quinhentos, à melhor morada,
  3. Momentos poucos há, pus livre a mira.
  1. “Eis do tremor a causa declarada!
  2. Do Senhor eis por que, louvor cantando,
  3. Rogou cada alma em breve ser chamada!” —
  1. Calou-se. E como, a tanto mais gozando
  2. Está quem bebe, quanto é mor a sede,
  3. Indizível prazer tive escutando.
  1. — “Vejo” — disse Virgílio — “agora a rede,
  2. Que vos prende e depois dá liberdade,
  3. Donde o tremor e o júbilo procede.
  1. “Explicar-me te praza ainda, em verdade,
  2. Quem tu foste e a razão por que hás jazido
  3. Séc’los tantos em tanta asperidade.” —
  1. — “No tempo em que o bom Tito, protegido
  2. Por Deus, vingou as chagas que verteram
  3. Sangue, por Judas” — replicou — “vendido,
  1. “Na terra o nobre título me deram,
  2. Que mais honra perdura, e fui famoso:
  3. Inda os lumes da fé me não vieram.
  1. “Dos meus cantos o som foi tão donoso,
  2. Que de Tolosa a si me atraiu Roma:
  3. C’roas me deu de mirto glorioso.
  1. “De Estácio o nome ainda o tempo doma;
  2. Tebas cantei e Aquiles esforçado:
  3. Este das forças me exauriu a soma.
  1. “Do vivo ardor, que a mente me há tomado,
  2. Na flama divinal a causa estava,
  3. Que em milhares de engenhos há brilhado.
  1. “Mãe e nutriz a Eneida me alentava;
  2. Estro bebi caudal no seio puro;
  3. Quanto vali da Eneida derivava.
  1. “Para viver no tempo (te asseguro)
  2. Em que existiu Virgílio, mais um ano
  3. Passara no, que deixo, exílio duro.” —
  1. Estas vozes ouvindo, o Mantuano
  2. Olhou-me. — Cala-te! — sem falar dizia;
  3. Mas a vontade está sujeita a engano.
  1. Ou no pranto ou no riso se anuncia
  2. Tão rápida a paixão, quando se acende,
  3. Que o querer nos sinceros prende e lia.
  1. Sorri-me, como que sagaz, compreende.
  2. Calou-se o esp’rito; e me encarava atento
  3. Nos olhos onde a mente mais se entende.
  1. — “Sejas” — disse — “feliz no excelso intento!
  2. Explica-me, porém, por que em teu rosto
  3. Lampejar vi sorriso de momento.” —
  1. Entre os extremos dois estava eu posto:
  2. Um diz — silêncio! — outro a falar me instiga.
  3. Suspiro, e o Mestre atenta em meu desgosto.
  1. Responde, que ao silêncio nada obriga,
  2. “Fique” — disse — “a verdade bem patente,
  3. O que anela saber ele consiga.” —
  1. — “Maravilha causou provavelmente” —
  2. Tornei-lhe — “antigo espírito, o meu riso;
  3. Maior será me ouvindo, certamente.
  1. “Virgílio é quem me guia ao Paraíso:
  2. Para deuses e heróis cantar tiveste
  3. Por ele o esforço que lhe foi preciso.
  1. “Se outra causa em meu riso supuseste,
  2. Te enganaste: o motivo declarado
  3. Nas palavras está que lhe disseste.” —
  1. Quer os pés abraçar do Mestre amado,
  2. E o Mestre: — “Irmão, que fazes?” — lhe dizia —
  3. “Vê que és sombra e de sombra estás ao lado!”
  1. Erguendo-se ele: — “Tanto me extasia
  2. O amor” — disse — “em que por ti me acendo,
  3. Que da nossa vaidade me esquecia,
  1. Tratar sombras, quais corpos, pretendendo.” —
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