A SEDE natural, que não sacia
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Enquanto os dois Poetas continuam no seu caminho, uma alma se aproxima deles. É o poeta latino Estácio, o qual explica que o abalo do monte que se deu pouco antes foi o sinal de que, purificado dos seus pecados, ele pode subir ao Céu. Sabendo que está falando com Virgílio, Estácio demonstra-lhe o seu afeto.
- A SEDE natural, que não sacia
- Senão a água, que, súplice, implorava
- Ao senhor a mulher de Samaria,
- Molestando-me, os passos me apressava
- Após meu Guia na impedida estrada,
- E do justo castigo o dó me entrava.
- Eis, como escreve Lucas na sagrada
- História que Jesus aparecera,
- Ressurgido, aos dois sócios na jornada,
- Uma sombra surgiu; trás nós viera.
- Andando aquela turba contemplava:
- Dela fé nem o Mestre, nem eu dera.
- — “Deus vos dê paz, irmãos!” — assim falava.
- Voltamo-nos de súbito, e Virgílio,
- Cortês no gesto, a saudação tornava
- Logo dizendo: — “Do feliz concílio
- Te receba na paz a santa corte,
- Que a mim me desterrou no eterno exílio!”
- — “Como andais” — respondeu — “com passo forte.
- Se Deus no céu vos não permite a entrada?
- Quem vos conduz na altura desta sorte?” —
- — “Os sinais de que a fronte está marcada
- Deste homem por um anjo” — diz meu Guia —
- “To mostram di’no da eternal morada,
- “Mas, como aquela, que, incessante fia,
- Não lhe havia inda a estriga consumido,
- Que impõe Cloto ao que a vida principia,
- “Subir só não teria ao céu podido
- A sua alma, irmã tua, como é minha,
- Pois não há, como nós, ver conseguido.
- “Do inferno às fauces fui tirado asinha
- Para guiá-lo, e o guiarei contente
- No que do meu saber não passe a linha.
- “Se puderes, me diz, por que o eminente
- Monte, há pouco, tremeu, e desde a c’roa
- À base retumbou clamor ingente.” —
- A pergunta ao desejo tão boa soa,
- Que ouvi-la a sede ardente me alivia,
- Somente uma esperança mitigou-a.
- — “Quanto hás notado” — a sombra respondia —
- “Em nada os ritos da montanha altera:
- De estranheza motivo não seria.
- “Mudança aqui supor se não pudera:
- Subindo ao céu quem pertencer-lhe deve,
- A causa dá-se que esse efeito opera.
- “Nunca saraiva, chuva, orvalho ou neve
- Nesta montanha cai, passando a altura
- Dos três degraus que estão na escada breve.
- “Aqui não vê-se nuvem clara ou escura,
- Relâmpago não luz, nem de Taumante
- Mostra-se a filha, que tão pouco dura.
- “Jamais daqueles três degraus avante,
- Em que de Pedro o sucessor domina,
- Seco vapor se eleva um só instante.
- “Tremor talvez a sua base inclina;
- Mas não atua no alto oculto vento,
- Que não sei como dentro se amotina.
- “Quando já de estar puro o sentimento
- Uma alma tem e se ala ao céu, que a chama,
- Segue o tremor e o grito ao movimento.
- “Seu querer a pureza lhe proclama,
- Prova que tem de alçar-se a liberdade
- Por força do desejo, em que se inflama.
- “Antes o tem; mas contra essa vontade
- A divina justiça ardor lhe inspira
- Por pena, como o teve por maldade.
- “Eu que em martírio decorridos vira
- Anos quinhentos, à melhor morada,
- Momentos poucos há, pus livre a mira.
- “Eis do tremor a causa declarada!
- Do Senhor eis por que, louvor cantando,
- Rogou cada alma em breve ser chamada!” —
- Calou-se. E como, a tanto mais gozando
- Está quem bebe, quanto é mor a sede,
- Indizível prazer tive escutando.
- — “Vejo” — disse Virgílio — “agora a rede,
- Que vos prende e depois dá liberdade,
- Donde o tremor e o júbilo procede.
- “Explicar-me te praza ainda, em verdade,
- Quem tu foste e a razão por que hás jazido
- Séc’los tantos em tanta asperidade.” —
- — “No tempo em que o bom Tito, protegido
- Por Deus, vingou as chagas que verteram
- Sangue, por Judas” — replicou — “vendido,
- “Na terra o nobre título me deram,
- Que mais honra perdura, e fui famoso:
- Inda os lumes da fé me não vieram.
- “Dos meus cantos o som foi tão donoso,
- Que de Tolosa a si me atraiu Roma:
- C’roas me deu de mirto glorioso.
- “De Estácio o nome ainda o tempo doma;
- Tebas cantei e Aquiles esforçado:
- Este das forças me exauriu a soma.
- “Do vivo ardor, que a mente me há tomado,
- Na flama divinal a causa estava,
- Que em milhares de engenhos há brilhado.
- “Mãe e nutriz a Eneida me alentava;
- Estro bebi caudal no seio puro;
- Quanto vali da Eneida derivava.
- “Para viver no tempo (te asseguro)
- Em que existiu Virgílio, mais um ano
- Passara no, que deixo, exílio duro.” —
- Estas vozes ouvindo, o Mantuano
- Olhou-me. — Cala-te! — sem falar dizia;
- Mas a vontade está sujeita a engano.
- Ou no pranto ou no riso se anuncia
- Tão rápida a paixão, quando se acende,
- Que o querer nos sinceros prende e lia.
- Sorri-me, como que sagaz, compreende.
- Calou-se o esp’rito; e me encarava atento
- Nos olhos onde a mente mais se entende.
- — “Sejas” — disse — “feliz no excelso intento!
- Explica-me, porém, por que em teu rosto
- Lampejar vi sorriso de momento.” —
- Entre os extremos dois estava eu posto:
- Um diz — silêncio! — outro a falar me instiga.
- Suspiro, e o Mestre atenta em meu desgosto.
- Responde, que ao silêncio nada obriga,
- “Fique” — disse — “a verdade bem patente,
- O que anela saber ele consiga.” —
- — “Maravilha causou provavelmente” —
- Tornei-lhe — “antigo espírito, o meu riso;
- Maior será me ouvindo, certamente.
- “Virgílio é quem me guia ao Paraíso:
- Para deuses e heróis cantar tiveste
- Por ele o esforço que lhe foi preciso.
- “Se outra causa em meu riso supuseste,
- Te enganaste: o motivo declarado
- Nas palavras está que lhe disseste.” —
- Quer os pés abraçar do Mestre amado,
- E o Mestre: — “Irmão, que fazes?” — lhe dizia —
- “Vê que és sombra e de sombra estás ao lado!”
- Erguendo-se ele: — “Tanto me extasia
- O amor” — disse — “em que por ti me acendo,
- Que da nossa vaidade me esquecia,
- Tratar sombras, quais corpos, pretendendo.” —