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A Divina ComédiaInferno · Canto VII
InfernoVII

PAPE Satan, pape Satan, aleppe

130 versos · 7 de 100


Pluto, que está de guarda à entrada do quarto círculo, tenta amedrontar a Dante com palavras irosas. Mas Virgílio o faz calar-se, e conduz o discípulo a ver a pena dos pródigos e dos avarentos, que são condenados a rolar com os peitos grandes pesos e trocarem-se injúrias. Os Poetas discorrem sobre a Fortuna, e, depois, descem ao quinto círculo e vão margeando o Estiges, onde estão mergulhados os irascíveis e os acidiosos.

  1. PAPE Satan, pape Satan, aleppe:
  2. Pluto com rouca voz, ao ver-nos brada.
  3. Para que eu do conforto não discrepe,
  1. Virgílio, em tudo sábio: — “Da aterrada
  2. Mente” — me diz — “se desvaneça o susto!
  3. Poder Pluto não tem, que tolha a entrada”.
  1. E, se volvendo ao vulto, de ira adusto,
  2. Lhe grita: — “Cal’-te, ó lobo abominoso!
  3. Em ti consome esse furor injusto!
  1. “Se ao abismo descemos tenebroso,
  2. A lei se cumpre do alto, onde, em castigo,
  3. Suplantara Miguel bando orgulhoso”. —
  1. Como o mastro, abatendo, traz consigo
  2. Velas, que o vento de feição tendia,
  3. Baqueou-se por terra o monstro imigo.
  1. E, pois que o quarto círculo se abria,
  2. Mais penetramos pela estância horrenda,
  3. A que todo seu mal o mundo envia.
  1. Ah! justiça de Deus! Que lei tremenda,
  2. Dores, penas, quais vi, tanto amontoa?
  3. Por que da culpa nos obceca a venda?
  1. Como em Caribde a vaga que ressoa
  2. Embate noutra, e quebram-se espumantes:
  3. Assim turba com turba se abalroa.
  1. Almas em cópia, nunca vista de antes,
  2. Fardos de um lado e de outro, em grita ingente,
  3. Rolavam com seus peitos ofegantes.
  1. Batiam-se encontrando rijamente,
  2. E gritavam depois, atrás voltando:
  3. “Por que tens?” “Por que empurras loucamente?”
  1. Assim no tetro círc’lo volteando
  2. Iam de toda parte ao ponto oposto,
  3. Por injúria o estribilho apregoando.
  1. Nos semicírc’lo novamente rosto
  2. Faziam, té o embate reiterarem.
  3. Eu, me sentindo à compaixão disposto,
  1. — “Quem são? Que razão há para aqui estarem?”
  2. Ao Mestre disse — “À esquerda os colocados
  3. Clérigos são para tonsura usarem?”
  1. — “Da mente sendo vesgos, transviados”
  2. — Tornou — “andaram na primeira vida,
  3. Sempre os bens aplicando desregrados.
  1. “Quem seus clamores ouve não duvida:
  2. Levantam grita aos termos dois chegados,
  3. Onde oposta os separa a culpa havida:
  1. “Os que então de cabelos despojados
  2. Clérigos, papas, cardeais hão sido,
  3. Pela nímia avareza subjugados”. —
  1. — “Entre eles” — respondi — “Mestre querido,
  2. Muitos serão, por certo, que eu conheça,
  3. Imundos desse mal aborrecido”. —
  1. — “Te enganas, quando assim — diz — “te pareça:
  2. Da sua ignóbil vida a oscuridade
  3. Vestígio não deixou, que ora apareça:
  1. “Eles se hão de embater na eternidade:
  2. Ressurgindo, uns terão as mãos fechadas,
  3. Os outros de cabelos pouquidade.
  1. “Por dar mal, por mal ter, viram cerradas
  2. Do céu as portas; penam nesta lida,
  3. Com mágoas, que não podem ser contadas.
  1. “Vês quanto é de vaidade iludida
  2. A ambição, em que os homens a porfiam,
  3. Da Fortuna anelando os bens na vida.
  1. “Todo o ouro, que as entranhas conteriam
  2. Da terra, não pudera dar repouso
  3. A um dos que em fadiga se cruciam”. —
  1. — “Quem é Mestre” — falei — “o portentoso
  2. Ser, que chamas Fortuna, que à vontade
  3. Bens distribui ao mundo cobiçoso?” —
  1. Responde o Vate: — “Ó cega humanidade,
  2. Quanta ignorância a mente vos ofende.
  3. Do meu pensar direi toda a verdade.
  1. “Quem pelo seu saber tudo transcende,
  2. Os céus criando, guias elegeu-lhes;
  3. E toda parte a toda parte esplende,
  1. “Pela luz que igualmente concedeu-lhes.
  2. Assim fez aos mundanos esplendores,
  3. Geral ministra e diretora deu-lhes,
  1. “Que em tempo os bens mudasse enganadores
  2. De nação a nação, de raça a raça
  3. Contra esforços de humanos sabedores.
  1. “A pujança de um povo é grande ou escassa
  2. Segundo o seu querer, que, se escondendo
  3. Qual serpe em erva triunfante passa.
  1. “Contra ela o saber vosso não valendo,
  2. No seu reino ela tem poder e mando,
  3. Como os outros o seu, estão regendo.
  1. “Mudanças incessante efetuando,
  2. Se apressa por fatal necessidade,
  3. E assim tantas no mundo vai formando.
  1. “Tal é Fortuna, a quem por má vontade
  2. Insulta o que louvá-la deveria,
  3. Censurando-a com dura iniqüidade.
  1. “Mas, feliz, não escuta a vozeria,
  2. E entre iguais criaturas primitivas,
  3. Volvendo a esfera, em paz goza alegria.
  1. “Desçamos ora a dores mais esquivas;
  2. Estrelas baixam, que ao partir surgiram;
  3. Demoras são defesas, são nocivas”. —
  1. Os nossos passos através seguiram
  2. Do círculo até fonte, que, fervendo,
  3. As águas brota, que torrente abriram,
  1. A cor mais negra do que persa tendo.
  2. Ao longo do seu curso nós baixamos,
  3. Por caminho diverso nos movendo.
  1. Lagoa, dita Stígia, deparamos,
  2. Junto à encosta maligna produzida
  3. Pelo triste ribeiro, que notamos.
  1. Eu, que tinha a atenção toda embebida,
  2. Vi sombras, nesse pântano, lodosas,
  3. Desnudas, de face enfurecida.
  1. Não só co’as mãos batiam-se raivosas;
  2. Peitos, cabeças, pés armas lhes sendo,
  3. Com dentes laceravam-se espantosas.
  1. — “As almas, filho meu, que ora estás vendo
  2. São dos que” — disse o mestre — “venceu ira.
  3. Como certo também fica sabendo
  1. “Que sob as águas multidão suspira,
  2. E em borbulhões as águas entumece
  3. Por toda essa extensão, que vista gira”. —
  1. — “Nos doces ares, a que o sol aquece”
  2. — No ceno imersas dizem — “tristes fomos:
  3. Dentro em nós fumo túrbido recresce.
  1. “Ora no lodo inda mais triste somos”. —
  2. Com voz cortada assim gargarejavam,
  3. De palavras somente havendo assomos.
  1. “Os passos, em grande arco, nos levavam.
  2. Do paul sobre a borda seca; o bando,
  3. Tendo à vista, que assim lodo tragavam,
  1. E junto de uma torre alfim chegando.
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