GLÓRIA ao Pai! Glória ao Filho! ao Espírito Santo!
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S. Pedro exprobra os maus pastores da Igreja; e todos os santos manifestam a sua aprovação às palavras do Apóstolo. Novamente o Poeta contempla a Terra, e, depois, com Beatriz, eleva-se ao Primeiro Móvel.
- GLÓRIA ao Pai! Glória ao Filho! ao Espírito Santo!
- Uníssono entoava o Paraíso:
- Senti-me inebriado ao doce canto.
- Pareceu-me o que eu via um doce riso
- Do universo: tomava-me a ebriedade
- Pelos olhos e ouvidos o juízo.
- Ó júbilo! Ó inefável f’licidade!
- De paz ó vida inteira e de ternura!
- Riqueza certa, isenta de ansiedade!
- Fulgia-me ante os olhos a luz pura
- Dos esplendores quatro; mais brilhante
- O que veio primeiro eis se afigura!
- E tal se me apresenta o seu semblante,
- Qual fora Jove, se, aves ele e Marte,
- A plumagem trocassem rutilante.
- A Providência, que no céu reparte
- Tarefa a cada qual, calar fizera
- O venturoso coro em toda parte,
- Quando lhe ouvi: — “A cor se em mim se altera
- Não o estranhes: enquanto estou falando
- Mudança igual em todos ver espera.
- “Quem, meu lugar na terra ora usurpando,
- Meu lugar, meu lugar, vago em presença
- De Cristo o deixa, converteu nefando
- “Meu cemitério na sentina imensa
- De sangue e podridão, com que o perverso,
- Do céu lançado, frui delícia intensa.” —
- O céu então eu vi todo submerso
- Na cor, que por manhã e à tarde acende
- Sobre as nuvens o sol do lado adverso.
- Qual a dama, que à virtude cultos rende
- E, de si bem segura, se enrubesce,
- Quando torpezas de outra ouve e compreende,
- Beatriz transmudada me parece,
- Ao céu ante a paixão do Onipotente
- Igual eclipse em seio que envolvesse.
- Prosseguiu logo o Apóstolo eminente;
- E tanto a voz lhe estava demudada,
- Que mais não fora o vulto seu rubente.
- — “Com sangue meu a Igreja alimentada
- Não foi, nem Lino e Cleto o seu lhe deram
- De ouro em ganância para ser mudada.
- “Como Calixto e Pio mereceram,
- Urbano e Sixto a sempiterna vida?
- Pós muito pranto o sangue seu verteram.
- “Por nossos sucessores dividida
- Não quisemos a grei — parte chamada
- À destra, parte à esquerda repelida;
- “Nem que das chaves fosse a insígnia usada
- Por estandarte em campo sanguinoso
- Contra cristãos em guerra encarniçada.
- “Nem que, por privilégio mentiroso
- De traficância, em selo eu figurasse
- Quanta vez de pudor me acendo iroso!
- “Com vestes de pastor lobo rapace
- Daqui em cada pascigo se avista:
- Para que não surgiu Deus, que os fulminasse?
- “De Gasconha e Cahors raça malquista
- Beber-nos sangue vem: belo começo,
- O indi’no fim que tens, quanto contrista!
- “Mas Deus que a Roma, do seu mal no excesso,
- De mundo em glória os Cipiões mandava,
- Dará socorro, como foi-me expresso.
- “E tu, que o peso da matéria grava,
- Voltando, ó filho, ao mundo lhe revela
- Quanto eu te digo dessa gente prava.” —
- Como o vapor nos ares se congela,
- E em flocos baixa, quando o sol tocado
- Pelas pontas está da Cabra bela;
- Assim vi eu o éter adornado
- De clarões triunfantes, que detido
- Haviam-se na altura ao nosso lado.
- Tinha-os a vista na ascensão seguido
- E os seguiu té que enfim subir avante
- Pelo espaço não foi-lhe permitido.
- Que eu não podia ver mais adiante
- Notando, Beatriz disse: — “Repara
- Quanto agora, girando, estás distante.” —
- Desde a hora, em que a terra eu contemplara,
- Por todo o arco, que o clima faz primeiro,
- Do meio até o fim, já me avançara.
- A passagem, que Ulisses aventureiro
- Além Gades tentou e a plaga via,
- Em que Europa foi cargo prazenteiro,
- Naquela área inda mais divisaria;
- Porém sob os meus pés o sol andava
- Distância, que a de um signo precedia.
- A namorada mente, em que reinava
- Sempre a Senhora minha, no incentivo,
- Mais que nunca de olhá-la se inflamava.
- Se de arte ou natureza almo atrativo
- Pelos olhos prender nos pode a mente,
- Seja em pintura, seja em corpo vivo,
- Nada foram, conjuntas, certamente,
- Ante o enlevo que o peito me ilumina,
- Quando me volta ao gesto seu ridente.
- Virtude, olhando-a em mim tanto se afina
- Que do ninho de Leda me destrava
- E ao céu velocíssimo me empina.
- Tanto na altura e brilho se mostrava
- Uniforme este céu, que eu não sabia
- Qual pouso Beatriz me destinava.
- Ela, porém, que o meu desejo via
- No sorriso tão leda assim começa,
- Que em seu rosto exultar Deus parecia.
- — “O movimento, que no centro cessa,
- Em torno ao qual, porém, tudo o mais gira,
- Daqui partindo à roda se endereça.
- “Somente a sua ação este céu tira
- Da soberana Mente, em que se acende
- O amor, que o move, o influxo, que respira.
- “De luz e amor um círculo o compreende,
- Assim como ele aos mais; deste precinto
- Unicamente quem lho cinge entende.
- “Seu movimento é por si só distinto,
- Por ele os outros céus medidos sendo,
- Como dez por metade e por seu quinto.
- “Ficas, portanto, ao claro conhecendo
- Como o tempo a raiz neste céu tenha,
- As ramas pelos outros estendendo.
- “Fatal cobiça; que os mortais despenha
- Em tão profundo pélago, que alçar-se
- Do abismo fora a vista em vão se empenha!
- “Nos homens o querer pode enflorar-se,
- Mas de chuvas contínuas açoutado
- Bom fruto são não há-de conservar-se.
- “Fé, inocência, abrigo têm buscado
- Nas crianças; mas cada qual se esquiva
- Antes que à face o buço haja apontado.
- “Quem balbucia de comer se priva;
- Em tendo solta a língua, a qualquer hora
- Mostra em toda iguaria fome ativa.
- “Quem balbucia a mãe respeita e adora;
- Mas, quando a voz já sente desprendida,
- Vê-la em mortalha o seu desejo exora.
- “Assim de alva se torna enegrecida
- A cutis da gentil filha daquele,
- Que traz manhã, da noite em despedida.
- “Estranheza, porém, de ti repele
- Vendo o gênero humano transviado:
- Quem há que em bem regê-lo se desvele?
- “Por força do centésimo olvidado
- Inda antes de deixar Janeiro o inverno,
- Hão de as esferas dar tão forte brado,
- “Que a fortuna, de esp’rança alvo hodierno
- Fará que as popas dêm lugar às proas,
- A armada correrá com bom governo
- E após as flores virão frutas boas.” —