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A Divina ComédiaInferno · Canto XVIII
InfernoXVIII

TEM o inferno, de rocha construído

136 versos · 18 de 100


Encontram-se os Poetas no oitavo círculo, chamado Malebolge, o qual é dividido em dez compartimentos concêntricos. Em cada um deles é punida uma espécie de pecadores, condenados por malícia ou fraude. No primeiro compartimento são punidos com açoites pela mão de demônios os alcoviteiros; e entre eles Dante reconhece Venedico Caccianemico e Jasão. No segundo jazem em esterco os aduladores e as mulheres lisonjeiras, entre outros, Alessio Interminelli, de Lucca e Taís.

  1. TEM o inferno, de rocha construído,
  2. De férrea cor, de muro igual cercado
  3. Um lugar: Malebolge o nome havido.
  1. Lá no centro do plaino inficionado
  2. Se escancara grão poço, amplo e profundo:
  3. Direi a compostura em tempo asado.
  1. Espaço em torno estende-se rotundo
  2. Entre o poço e o penhasco pavoroso:
  3. Reparte-se em dez cavas o seu fundo.
  1. Qual de fossos dobrados, cauteloso,
  2. Se apercebendo, o alcáçar se assegura
  3. Dos assaltos de imigo poderoso:
  1. De abismos tais o aspecto se afigura.
  2. Como da levadiça ponte entrada,
  3. Aos de fora, do mundo na cintura,
  1. Assim, do val no fundo começada,
  2. Cada cava uma rocha atravessava
  3. Em arco, para o poço concentrada.
  1. De nós o monstro aqui se descargava:
  2. À sestra mão seguiu logo o poeta,
  3. E eu de perto fiel o acompanhava.
  1. Novo tormento à destra me inquieta,
  2. Novos algozes vejo, novas dores,
  3. De que a primeira cava era repleta.
  1. Stão lá no fundo nus os pecadores:
  2. Do meio contra nós muitos caminham,
  3. Outros conosco, em passos já maiores.
  1. Em Roma, assim, às turbas, que se apinham
  2. Do jubileu no tempo, sobre a ponte
  3. Se abriu aos que iam trânsito e aos que vinham:
  1. De um lado andavam, os que tendo em fronte
  2. O castelo, a S. Pedro se endereçam,
  3. E do outro lado os que iam para o monte.
  1. Daqui, dali nas bordas, os apressam
  2. Cornígeros demônios, açoitando
  3. Com grandes azorragues, que não cessam,
  1. Como aos golpes primeiros cada bando
  2. Se apressa! Como cada qual evita
  3. Que se repita o estímulo execrando!
  1. Nesse andar minha vista num se fita,
  2. Da parte oposta vindo, e logo eu disse:
  3. — “Hei conhecido esta figura aflita”. —
  1. Atentei mais, por que melhor o visse;
  2. Deteve-se comigo o doce Guia
  3. E deu que atrás o passo eu dirigisse.
  1. Aos olhos esquivar-se-me queria,
  2. Os seus baixando; mas foi vão o intento.
  3. —“Tu, que te curvas, já te hei visto um dia.
  1. “Se as feições não mudou-te o passamento
  2. Venedico tu és Caccianemico.
  3. Por que trato padeces tão cruento?” —
  1. — “De mau grado o que exiges significo;
  2. Mas cedo ao claro som dessa loquela,
  3. Que à memória me traz o mundo inico.
  1. “Eu fui aquele, que Ghisola bela
  2. Do Marquês entreguei ao vil desejo:
  3. Ora a verdade a minha voz revela.
  1. “Comigo de Bolonha muitos vejo;
  2. Com tantos nesta cava choro e peno,
  3. Que a menos lá no mundo dá-se ensejo.
  1. “De dizer sipa entre o Savena e o Reno,
  2. Se a prova queres, lembra-te somente
  3. De que em nós da avareza influi veneno”. —
  1. Mas um demônio o atalhou. Furente,
  2. Disse tangendo: — “Ó rufião, avante!
  3. Mulher não há que vendas impudente!” —
  1. Ao Mestre me tornei; — pouco distante
  2. Era um rochedo, a que nos acercamos;
  3. Da riba se elevava pra diante.
  1. Assaz ligeiramente nos alçamos;
  2. Fomos pela fragura à mão direita
  3. E o eterno recinto assim deixamos.
  1. Chegados onde a curva estava feita
  2. Para passagem dar aos fustigados,
  3. O sábio Guia disse: — “A face espreita
  1. “Agora desses outros malfadados,
  2. Em que ainda atender não conseguiste,
  3. Porque não stavam para nós voltados”. —
  1. Da antiga ponte divisamos triste,
  2. Longa fileira: contra nós andava.
  3. Cruel açoite em flagelar persiste.
  1. Virgílio, quando eu nada perguntava,
  2. — “Repara bem” — me diz — “na sombra altiva,
  3. A quem pranto de dor faces não lava.
  1. “De Rei conserva a majestade viva!
  2. É Jasão: conquistou por força e manha
  3. O velocino em Colcos fera e esquiva.
  1. “A Lenos foi, depois que horrenda sanha
  2. Feminil aos varões cortara a vida,
  3. Nenhum poupando aquela fúria estranha.
  1. “Ali, de amor no enlevo embevecida,
  2. Hipsífile enganou, que já iludira
  3. Suas irmãs, de compaixão movida.
  1. “Grávida e só deixou-a: atroz mentira
  2. Mereceu-lhe dos tratos a amargura.
  3. Vingada está Medéia, a quem traíra.
  1. “Quem perjurou como ele, há pena dura.
  2. Do val primeiro baste o que sabemos
  3. E de quantos aqui sofrem tortura”. —
  1. Numa estreita vereda já nos vemos,
  2. Que co’a borda segunda se cruzava,
  3. Sustentando outra ponte, a que tendemos.
  1. Turba dali ouvimos, que chorava
  2. De outra cava no encerro e que, assoprando,
  3. Com suas próprias mãos se arrepelava.
  1. Estava-lhe as paredes incrustando
  2. A exalação que sobe e ali se prende.
  3. Ferindo o olfato e a vista horrorizando.
  1. E tanto pelo abismo a cava estende,
  2. Que só divisa quando está no fundo
  3. Quem lá do cimo, perscrutando, atende.
  1. Subimo-nos: então no fosso imundo
  2. Vi gente em tal cloaca mergulhada,
  3. Que a sentina figura ser do mundo.
  1. Enquanto olhava ali tão conspurcada
  2. Cara notei, que distinguir não pude,
  3. Se padre ou leigo fora a alma danada.
  1. — “Dizei por que tua vista não se mude
  2. De mim, a imundos tantos desatenta!” —
  3. Gritou-me. — E eu: — “Se a mente não me ilude,
  1. “Te vi sem cabeleira tão nojenta.
  2. Alessio Interminei de Lucca hás sido:
  3. Em ti por isso a vista é mais atenta”. —
  1. Ferindo a face, disse-me o descrido:
  2. — “Aqui lisonjas vis me submergiram;
  3. Língua indefessa em bajular hei tido”. —
  1. Logo depois que vozes tais se ouviram,
  2. Meu Guia: — “Olhos dirige um pouco avante,
  3. E as feições me declara se atingiram
  1. “De mulher desgrenhada e petulante
  2. Que de unhas asquerosas se lacera,
  3. Mudando de postura a cada instante.
  1. “É Taís, a meretriz, que respondera
  2. Ao namorado seu, quando dizia:
  3. — “Te devo gratidão?” — “Muita e sincera!” —
  1. Mas vamos: temos visto em demasia”. —
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