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A Divina ComédiaParaíso · Canto VI
ParaísoVI

“DEPOIS que Constatino a Águia voltara

142 versos · 73 de 100


A alma do imperador Justiniano fala ao Poeta. Narra-lhe a história do Império, de Enéias a César, a Tibério, a Tito, a Carlos Magno, para mostrar-lhe a santidade da autoridade imperial. Diz-lhe que no Céu de Mercúrio estão os espíritos daqueles que se esforçaram para conseguir fama imortal. Discorre-lhe acerca de Romeu, que administrou a corte de Raimundo Beranguer, conde de Provença.

  1. “DEPOIS que Constatino a Águia voltara
  2. Contra o curso do céu, que ela seguira
  3. Pós o herói, que Lavínia conquistara,
  1. “Duzentos anos já passados vira
  2. Da Europa em confins de Deus essa ave,
  3. Vizinha aos montes, donde se partira;
  1. “Das plumas sob a sombra ampla e suave,
  2. De mão em mão o mundo há dominado,
  3. Té comigo reger do Império a nave.
  1. “César, Justiniano fui chamado.
  2. Do Amor, que sinto, por querer movido,
  3. O supérfluo das leis hei cerceado.
  1. “Antes de ter a empresa cometido,
  2. Uma só natureza acreditava
  3. Ter Cristo e andava nessa fé perdido.
  1. “Mas de Agapeto santo que mandava
  2. De Roma Santa Igreja, a voz potente
  3. Levou-me à crença pura, que eu deixava.
  1. “O que então disse, eu vejo claramente,
  2. Pois, como vês, contradição implica
  3. Uma falsa asserção e outra evidente.
  1. “Quando eu cri no que a Igreja certifica,
  2. Minha mente, de Deus por alta graça,
  3. Logo à sublime empresa se dedica.
  1. “Belisário a reger as armas passa;
  2. No favor, que lhe deu poder divino
  3. Sinal vi que me ordena a paz se faça. —
  1. “A responder-te, o que ouves tem destino;
  2. Mais o que hei dito agora a tanto obriga,
  3. Que a mor explicação dar-te me inclino.
  1. “Verás que sem razão vontade imiga
  2. Move-se contra esse estardarte santo,
  3. Quando o tenta usurpar, quando o profliga.
  1. “Pelos fatos verás respeito quanto
  2. Mereceu desde a honra em que Palante
  3. Morreu por dar-lhe de sob’rano o manto.
  1. “Em Alba sabes como foi constante
  2. Por mais de anos trezentos té lutarem
  3. Três contra três por que ele fosse avante.
  1. “Sabes quanto ele fez por se curvarem
  2. Vizinhos desde o roubo das Sabinas
  3. Té Lucrécia expirar e os Reis findarem.
  1. “Sabes que glória teve nas mãos di’nas
  2. De heróis, que Breno e Pirro combateram,
  3. E de outros reis coligações mali’nas;
  1. “Décios, Fábios, Torquatos lhe deveram
  2. E Quíncio Cincinato, que amo e louvo
  3. A fama das vitórias, que tiveram;
  1. “Calcou o orgulho do Africano povo,
  2. Que por fraguras, donde, o Pó, te envias,
  3. Sob Aníbal, abriu caminho novo.
  1. “Fez triunfar da juventude em dias
  2. Cipião e Pompeu, e assaz desgosto
  3. Causou às tuas pátrias serranias.
  1. “Perto dos tempos, em que o céu disposto
  2. Havia, por seus fins, dar paz ao mundo.
  3. Em mãos de César Roma o teve posto.
  1. “O que ele fez do Var ao Rin profundo
  2. Isara há visto e o Era, há o Sena
  3. E esse vale, onde o Rone é sem segundo.
  1. “Passando o Rubicon, após Ravena,
  2. Com César a Águia tanto em vôo alçou-se,
  3. Que o não pôde seguir nem voz, nem pena.
  1. “Depois que para a Espanha remontou-se,
  2. A Durazzo e a Farsália acometia:
  3. Do efeito o ardente Nilo perturbou-se.
  1. “O Simoente e Antandro então revia,
  2. Seu berço, em que a de Heitor cinza descansa;
  3. E sem detença a Ptolomeu se envia.
  1. “Dali, qual raio, logo Juba alcança;
  2. Depois volve-se às terras do Ocidente,
  3. Onde os sons de Pompeu a tuba lança.
  1. “Nas mãos de outro o que fez essa ave ingente
  2. No inferno Bruto e Cássio estão sentindo,
  3. Sofrem Perúgia e Módena tremente.
  1. “Cleópatra inda vai triste carpindo
  2. Atroce morte, que da serpe toma,
  3. Da Águia os assaltos pávida fugindo.
  1. “Até o Roxo mar tudo a Águia toma,
  2. E ao mundo tão serena a paz se inclina,
  3. Que em fim de Jano as portas fecha Roma.
  1. “O que fez e faria a ave divina
  2. Para trazer à fama sua aumento
  3. Nesse império mortal, em que domina,
  1. “Parece escasso em seu merecimento,
  2. Quando em mãos de Tibério a contemplamos
  3. Com puro afeto e claro entendimento;
  1. “Pois que a viva justiça, que adoramos
  2. Lhe há nessas mãos a glória concedido
  3. De dar vingança às iras, que incitamos.
  1. “Sê, me ouvindo, de espanto possuído:
  2. Águia a vingança do pecado antigo
  3. Depois com Tito há por tornar corrido.
  1. “Quando, mordida por lombardo imigo,
  2. Gemia a Santa Igreja, à sombra da ave
  3. Salvou-a Carlos Magno do perigo.
  1. “Podes julgar, portanto, do erro grave
  2. Daqueles, cujas faltas hei notado,
  3. Causa do mal que vês quanto se agrave.
  1. “Contra o sacro estandarte um tem hasteado
  2. Áureo lírio, outro o quer por seu partido:
  3. Custa dizer qual seja o mais culpado.
  1. “Gibelinos, no iníquo andar sabido
  2. Outra bandeira sigam; que à justiça
  3. Culto esta exige nunca interrompido.
  1. “Carlos novo a batê-la em vão cobiça
  2. Com Guelfos; temas as garras, que arrancaram
  3. A mais forte leão juba inteiriça.
  1. “Mais de uma vez os filhos já choraram
  2. Pelas culpas do pai: é louca a esp’rança, —
  3. De que de Deus favor lírios ganharam.
  1. “O planeta, em que habito agora, estança
  2. É de almas generosas que honra e fama
  3. Aspiraram do mundo na lembrança.
  1. “Quando os desejos deste modo inflama
  2. O incentivo da glória, aos céus ascende
  3. Do vero amor menos ativa a chama.
  1. “Mas nossa dita em parte compreende
  2. Dos méritos e prêmio no confronto:
  3. Nem menor, nem maior nenhum se entende
  1. “Pois da viva justiça o feito pronto
  2. Tanto os afetos nos ameiga e apura,
  3. Que nequícia os não torce em nenhum ponto.
  1. “Vozes várias de sons formam doçura:
  2. Assim os vários graus na eterna vida
  3. Doce harmonia fazem nesta altura.
  1. “Nesta per’la, em que estás, bela e polida,
  2. Rebrilha de Romeu claro luzeiro,
  3. Virtude ínclita e mal agradecida.
  1. “Os provençais, pelo ato traiçoeiro,
  2. Não se riram; caminho segue errado
  3. Quem o bem de outro inveja sobranceiro.
  1. “Às filhas grato de rainha o estado
  2. Conseguiu Beranguer: tal bem devia
  3. A Romeu, nome humilde e não falado.
  1. “Preso na trama que a calúnia urdia,
  2. Que aumentado no quinto o erário havia;
  3. Do erário contas exigiu do justo,
  1. “Romeu partiu-se então pobre e vetusto:
  2. Se o mundo o coração lhe aquilatara,
  3. Quando, mendigo, se mantinha a custo,
  1. Louvor muito maior lhe dispensara.” —
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