O ANJO atrás já tínhamos deixado
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Subindo ao sexto compartimento, Estácio diz a Virgílio que, não pelo pecado da avareza, mas pela sua prodigalidade, teve de ficar muito tempo no quinto compartimento; e, por não ter declarado publicamente a sua conversão ao cristianismo, precisou ficar muito tempo no quarto compartimento. Virgílio o informa a respeito de muitos ilustres personagens da antigüidade que estão no Limbo. Chegando os Poetas no sexto compartimento, encontram uma árvore cheia de pomos perfumados, da qual saem vozes que louvam a virtude da temperança.
- O ANJO atrás já tínhamos deixado,
- Que para o sexto círc’lo nos guiava,
- Um P na fronte havendo-me apagado.
- E à turba, que a justiça desejava,
- Tinha dito Beati docemente
- Com sitio e, após tais vozes, se calava.
- Mais que em toda a jornada antecedente
- Eu, ligeiro, seguia sem fadiga
- Os Vates, que subiam velozmente.
- — “Aquele amor, com que virtude instiga,
- Reproduz” — disse o Mestre — “a própria chama
- Mostras de si apenas dar consiga.
- “Dês que, da vida terminada a trama,
- Do inferno ao limbo, Juvenal descendo,
- Saber me fez o afeto, que te inflama,
- “Tão vivo bem-querer sabe te rendo,
- Quanto haver pode a incógnita pessoa,
- Contigo ora suave andar me sendo.
- “Mas dize (e como amigo me perdoa,
- Se em falar há nímia confiança
- E em prática amigável arrazoa):
- “Como avareza fez em ti liança
- Com ciência, que o estudo te alcançava
- E em que punhas cuidados e esperança?”
- Às palavras do Mestre pronto estava
- Estácio, e lhe sorrindo: — “O que me hás dito
- Penhor caro é de afeto” — lhe tornava.
- “Muitas vezes da dúvida o conflito
- Por aparência errônea é suscitado,
- Até que a exata causa surja ao esp’rito.
- “Fica em tua pergunta declarado
- Creres que eu fora avaro noutra vida,
- Por ser no círc’lo a avaros destinado.
- “Pois sabe que a avareza repelida
- Por mim foi nimiamente, e a demasia
- De luas em milhares foi punida.
- “Minha alma eterno fardo volveria,
- Se atenção tanta em mim não despertasse
- A indi’nação, que nos teus versos via,
- “Quando lançaste dos mortais à face:
- — “A que extremos impeles os humanos,
- Fome de ouro sacrílega e rapace!” —
- “Então do excesso em despender, os danos
- Aprender pude, agro pesar sentindo
- Desse pecado e de outros tantos insanos.
- “Chorarão, tosquiados ressurgindo,
- Quantos não têm sabido à penitência
- Dar-se em vida ou sua hora extrema em vindo!
- “Cada culpa e a que tem contrária essência
- Aqui a pena dão conjuntamente,
- No martírio expurgando a virulência.
- “Estive entre essa turba penitente,
- Que o desvario chora da avareza
- Por ter sido no oposto renitente.” —
- — “Quando cantaste de armas a crueza,
- Que duplamente molestou Jocasta” —
- Disse o cantor da pastoril simpleza —
- “Pois que de Clio então o ardor te arrasta,
- Inda o fervor da fé não te incendia,
- E o bem sem fé para salvar não basta:
- “Que sol, que estrela, em treva tão sombria
- Te aclarou e dessa arte alçar pudeste
- Velas após o pescador, que se ia?” —
- — “Primeiro” — disse Estácio — “tu me deste
- Do Parnaso a beber na doce fonte
- E de Deus santa luz ver me fizeste.
- “Hás sido, como à noite o guia insonte,
- Que leva a luz, mas o seu bem não prova,
- E aqueles serve, de quem vai na fronte,
- “Quando disseste — “O séc’lo se renova,
- Volta a justiça, volta a idade de ouro,
- E progênie do céu descende nova.” —
- “Por ti ganhei a fé, de vate o louro:
- Isto deve, porém, ser-te explicado;
- Dê ao desenho a cor de claro o foro,
- “Já stava o mundo inteiro alumiado
- Da vera crença que do reino eterno
- Os mensageiros tinham propagado.
- “O vaticínio teu, Mestre superno,
- Aos predicantes novos se adatava;
- Por isso, os freqüentando, o bem discerne.
- “Tanto a virtude sua me enlevava,
- Que, quando os perseguiu Domiciano,
- Ao pranto seu meu pranto acompanhava.
- “Enquanto estiver no viver humano,
- Dei-lhes socorro e o seu exemplo austero
- Ódio inspirou-me às seitas do erro insano.
- “Antes já de cantar o cerco fero
- De Tebas no batismo renascera:
- Mas, de medo, ocultei meu crer sincero.
- “Gentio largo tempo eu parecera;
- Por isso hei tantos séc’los padecido
- No círc’lo quarto; a pena merecera.
- “Tu a quem devo, pois, ter conseguido
- O véu rasgar, que tanto bem cobria.
- Pois que tempo em subir é concedido,
- “Onde Terêncio diz-me ora estancia?
- Onde está Plauto Varro com Cecílio?
- À qual parte do inferno a culpa os lia?” —
- — “Aqueles, Pérsio e eu” — tornou Virgílio —
- E os outros mais o Grego acompanhamos
- Predileto das Musas; lá no exílio
- “Do círculo primeiro demoramos
- Vezes freqüentes do famoso monte,
- Das Camenas assento praticamos.
- “Eurípede é conosco e Anacreonte,
- Simônide, Agaton e outros inda
- Gregos, que cingem de laurel a fronte.
- “Stão heroínas, que cantaste: a linda
- Antígone, Deifile com Argia,
- Ismênia, em quem tristeza nunca finda;
- “Vê-se também a que mostrou Langia,
- Tétis se vê e de Tirésia a filha,
- E das irmãs Deidama em companhia” —
- Os dois, da poesia maravilha,
- Calaram-se, ao que os cerca atentos stando,
- Vencida sendo da subida a trilha.
- Das ancilas do dia atrás ficando
- A quarta, logo a quinta se jungia
- Ao carro ardente, ao alto o encaminhando,
- “Quando o Mestre — “Eu suponho” — nos dizia
- “Que nós à destra caminhar devemos,
- Volteando, como antes se fazia.” —
- Desta arte na exp’riência a mestra havemos,
- E no andar prosseguimos confiados,
- Porque de Estácio o assenso recebemos.
- Iam diante os Vates afamados,
- E eu logo após, nas vozes escutando
- Arcanos da poesia sublimados,
- Eis rompe esse colóquio doce e brando
- Uma árvore, que à estrada em meio achamos:
- Lindos pomos na fronde estão cheirando.
- Vão para cima decrescendo os ramos
- De abeto; estes descendo diminuem:
- Para alguém não subir — acreditamos.
- Límpidos jorros do penedo ruem
- Da parte, em que a montanha a entrada mura;
- Sobre as folhas em rocio as gotas fluem.
- Estácio com Virgílio se apressura
- Para essa árvore, quando voz, da fronde,
- Gritou: — “Não gozareis desta doçura!
- “Maria (e o seu desejo não se esconde)
- Atende mais das bodas à grandeza
- Que ao seu gosto; e por vós ora responde.
- “Das Romanas à antiga singeleza
- Água bastava; e Daniel ciência
- Logrou, tendo em desprezo a régia mesa.
- “Chamou-se de ouro a idade da inocência;
- Fez as glandes a fome saborosas;
- Água em néctar tornou da sede a ardência.
- “Ao Batista iguarias bem gostosas
- Mel, gafanhotos foram no deserto:
- Assim fez grandes obras gloriosas,
- “Como pelo Evangelho ficou certo.” —