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A Divina ComédiaPurgatório · Canto XXII
PurgatórioXXII

O ANJO atrás já tínhamos deixado

154 versos · 56 de 100


Subindo ao sexto compartimento, Estácio diz a Virgílio que, não pelo pecado da avareza, mas pela sua prodigalidade, teve de ficar muito tempo no quinto compartimento; e, por não ter declarado publicamente a sua conversão ao cristianismo, precisou ficar muito tempo no quarto compartimento. Virgílio o informa a respeito de muitos ilustres personagens da antigüidade que estão no Limbo. Chegando os Poetas no sexto compartimento, encontram uma árvore cheia de pomos perfumados, da qual saem vozes que louvam a virtude da temperança.

  1. O ANJO atrás já tínhamos deixado,
  2. Que para o sexto círc’lo nos guiava,
  3. Um P na fronte havendo-me apagado.
  1. E à turba, que a justiça desejava,
  2. Tinha dito Beati docemente
  3. Com sitio e, após tais vozes, se calava.
  1. Mais que em toda a jornada antecedente
  2. Eu, ligeiro, seguia sem fadiga
  3. Os Vates, que subiam velozmente.
  1. — “Aquele amor, com que virtude instiga,
  2. Reproduz” — disse o Mestre — “a própria chama
  3. Mostras de si apenas dar consiga.
  1. “Dês que, da vida terminada a trama,
  2. Do inferno ao limbo, Juvenal descendo,
  3. Saber me fez o afeto, que te inflama,
  1. “Tão vivo bem-querer sabe te rendo,
  2. Quanto haver pode a incógnita pessoa,
  3. Contigo ora suave andar me sendo.
  1. “Mas dize (e como amigo me perdoa,
  2. Se em falar há nímia confiança
  3. E em prática amigável arrazoa):
  1. “Como avareza fez em ti liança
  2. Com ciência, que o estudo te alcançava
  3. E em que punhas cuidados e esperança?”
  1. Às palavras do Mestre pronto estava
  2. Estácio, e lhe sorrindo: — “O que me hás dito
  3. Penhor caro é de afeto” — lhe tornava.
  1. “Muitas vezes da dúvida o conflito
  2. Por aparência errônea é suscitado,
  3. Até que a exata causa surja ao esp’rito.
  1. “Fica em tua pergunta declarado
  2. Creres que eu fora avaro noutra vida,
  3. Por ser no círc’lo a avaros destinado.
  1. “Pois sabe que a avareza repelida
  2. Por mim foi nimiamente, e a demasia
  3. De luas em milhares foi punida.
  1. “Minha alma eterno fardo volveria,
  2. Se atenção tanta em mim não despertasse
  3. A indi’nação, que nos teus versos via,
  1. “Quando lançaste dos mortais à face:
  2. — “A que extremos impeles os humanos,
  3. Fome de ouro sacrílega e rapace!” —
  1. “Então do excesso em despender, os danos
  2. Aprender pude, agro pesar sentindo
  3. Desse pecado e de outros tantos insanos.
  1. “Chorarão, tosquiados ressurgindo,
  2. Quantos não têm sabido à penitência
  3. Dar-se em vida ou sua hora extrema em vindo!
  1. “Cada culpa e a que tem contrária essência
  2. Aqui a pena dão conjuntamente,
  3. No martírio expurgando a virulência.
  1. “Estive entre essa turba penitente,
  2. Que o desvario chora da avareza
  3. Por ter sido no oposto renitente.” —
  1. — “Quando cantaste de armas a crueza,
  2. Que duplamente molestou Jocasta” —
  3. Disse o cantor da pastoril simpleza —
  1. “Pois que de Clio então o ardor te arrasta,
  2. Inda o fervor da fé não te incendia,
  3. E o bem sem fé para salvar não basta:
  1. “Que sol, que estrela, em treva tão sombria
  2. Te aclarou e dessa arte alçar pudeste
  3. Velas após o pescador, que se ia?” —
  1. — “Primeiro” — disse Estácio — “tu me deste
  2. Do Parnaso a beber na doce fonte
  3. E de Deus santa luz ver me fizeste.
  1. “Hás sido, como à noite o guia insonte,
  2. Que leva a luz, mas o seu bem não prova,
  3. E aqueles serve, de quem vai na fronte,
  1. “Quando disseste — “O séc’lo se renova,
  2. Volta a justiça, volta a idade de ouro,
  3. E progênie do céu descende nova.” —
  1. “Por ti ganhei a fé, de vate o louro:
  2. Isto deve, porém, ser-te explicado;
  3. Dê ao desenho a cor de claro o foro,
  1. “Já stava o mundo inteiro alumiado
  2. Da vera crença que do reino eterno
  3. Os mensageiros tinham propagado.
  1. “O vaticínio teu, Mestre superno,
  2. Aos predicantes novos se adatava;
  3. Por isso, os freqüentando, o bem discerne.
  1. “Tanto a virtude sua me enlevava,
  2. Que, quando os perseguiu Domiciano,
  3. Ao pranto seu meu pranto acompanhava.
  1. “Enquanto estiver no viver humano,
  2. Dei-lhes socorro e o seu exemplo austero
  3. Ódio inspirou-me às seitas do erro insano.
  1. “Antes já de cantar o cerco fero
  2. De Tebas no batismo renascera:
  3. Mas, de medo, ocultei meu crer sincero.
  1. “Gentio largo tempo eu parecera;
  2. Por isso hei tantos séc’los padecido
  3. No círc’lo quarto; a pena merecera.
  1. “Tu a quem devo, pois, ter conseguido
  2. O véu rasgar, que tanto bem cobria.
  3. Pois que tempo em subir é concedido,
  1. “Onde Terêncio diz-me ora estancia?
  2. Onde está Plauto Varro com Cecílio?
  3. À qual parte do inferno a culpa os lia?” —
  1. — “Aqueles, Pérsio e eu” — tornou Virgílio —
  2. E os outros mais o Grego acompanhamos
  3. Predileto das Musas; lá no exílio
  1. “Do círculo primeiro demoramos
  2. Vezes freqüentes do famoso monte,
  3. Das Camenas assento praticamos.
  1. “Eurípede é conosco e Anacreonte,
  2. Simônide, Agaton e outros inda
  3. Gregos, que cingem de laurel a fronte.
  1. “Stão heroínas, que cantaste: a linda
  2. Antígone, Deifile com Argia,
  3. Ismênia, em quem tristeza nunca finda;
  1. “Vê-se também a que mostrou Langia,
  2. Tétis se vê e de Tirésia a filha,
  3. E das irmãs Deidama em companhia” —
  1. Os dois, da poesia maravilha,
  2. Calaram-se, ao que os cerca atentos stando,
  3. Vencida sendo da subida a trilha.
  1. Das ancilas do dia atrás ficando
  2. A quarta, logo a quinta se jungia
  3. Ao carro ardente, ao alto o encaminhando,
  1. “Quando o Mestre — “Eu suponho” — nos dizia
  2. “Que nós à destra caminhar devemos,
  3. Volteando, como antes se fazia.” —
  1. Desta arte na exp’riência a mestra havemos,
  2. E no andar prosseguimos confiados,
  3. Porque de Estácio o assenso recebemos.
  1. Iam diante os Vates afamados,
  2. E eu logo após, nas vozes escutando
  3. Arcanos da poesia sublimados,
  1. Eis rompe esse colóquio doce e brando
  2. Uma árvore, que à estrada em meio achamos:
  3. Lindos pomos na fronde estão cheirando.
  1. Vão para cima decrescendo os ramos
  2. De abeto; estes descendo diminuem:
  3. Para alguém não subir — acreditamos.
  1. Límpidos jorros do penedo ruem
  2. Da parte, em que a montanha a entrada mura;
  3. Sobre as folhas em rocio as gotas fluem.
  1. Estácio com Virgílio se apressura
  2. Para essa árvore, quando voz, da fronde,
  3. Gritou: — “Não gozareis desta doçura!
  1. “Maria (e o seu desejo não se esconde)
  2. Atende mais das bodas à grandeza
  3. Que ao seu gosto; e por vós ora responde.
  1. “Das Romanas à antiga singeleza
  2. Água bastava; e Daniel ciência
  3. Logrou, tendo em desprezo a régia mesa.
  1. “Chamou-se de ouro a idade da inocência;
  2. Fez as glandes a fome saborosas;
  3. Água em néctar tornou da sede a ardência.
  1. “Ao Batista iguarias bem gostosas
  2. Mel, gafanhotos foram no deserto:
  3. Assim fez grandes obras gloriosas,
  1. “Como pelo Evangelho ficou certo.” —
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