PARA subir o tempo nos urgia
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Subindo por estreita senda, do sexto ao sétimo e último compartimento, Dante pergunta a Virgílio como podem emagrecer as almas, que não precisam de alimento. Respondem-lhe Virgílio, antes, e depois Estácio. Este fala da geração do corpo do homem, da alma que nele Deus infunde, e da maneira de existência depois da morte. O compartimento no qual acabam de chegar está cheio de flamas, nas quais estão se purificando as almas dos luxuriosos.
- PARA subir o tempo nos urgia;
- Meridiano ao Tauro o sol já dera,
- Bem como a noite ao Scorpião cedia
- Qual viajor, que o passo não modera,
- Que em nada atenta e sempre segue avante,
- Se em seu querer necessidade impera,
- Nós penetramos no rochedo hiante,
- Por escada estreitíssima subindo,
- Que obriga um ir atrás outro adiante.
- Da cegonha o filhinho, asas abrindo,
- Por voar logo, encolhe-as e não tenta
- Deixar o ninho, esforço não sentindo:
- Tal o desejo em mim ferve e arrefenta
- De perguntar chegando quase ao ato
- De quem para dizer se experimenta.
- O Mestre, sem parar, pressente o fato:
- — “Tens da palavra o arco” — diz — “tendido,
- Deixa a seta partir; não sê coato“. —
- De confiança então já possuído,
- Falei, — “Como é possível fique magro
- Quem não precisa mais de ser nutrido?” —
- — “Se recordaras” — torna — “Meleagro
- Que, em ardendo um tição se consumia
- Isso não fora de entender tão agro.
- “Também de fácil crença te seria,
- Se no espelho notaras que o teu rosto,
- Segundo te movesses, se movia.
- “Por dissipar-se a dúvida ao teu gosto,
- Eis Estácio, a quem rogo fervoroso
- Seja a dar-te o remédio bem disposto.” —
- — “Se eu o eterno conselho explicar ouso”
- — Disse Estácio — “quando és, Mestre, presente,
- Ao teu querer me curvo respeitoso.
- “Se, filho, o que eu disser guardas na mente,
- Hás de ter — prosseguiu — “esclarecidas
- Essas dúvidas tuas prontamente.
- “Sangue puro, que as veias ressequidas
- Não bebem, que de parte permanece
- Quais viandas em mesas bem providas,
- “Do coração tomou que lhe oferece
- Virtude de que a forma aos membros veio,
- Como o que às veias por fazê-los desce;
- “Ainda, elaborado, desce ao seio
- De canal que não digo; após, unido
- Em vaso é natural com sangue alheio.
- “É ali com outro confundido,
- Paciente sendo um, sendo outro ativo,
- Pela perfeita sede, em que há nascido.
- “Trabalho então começa produtivo
- Coagulando e depois vivificando
- O condensado efeito primitivo:
- “Em alma a força ativa se tornando,
- Como em planta, é, no entanto, diferente:
- Pára a planta, vai a alma caminhando.
- “Prosseguindo, já move-se, já sente,
- Como o fungo marinho; e logo emprende
- Os sentidos, que em si tem qual semente.
- “Ora contrai-se, filho, ora se estende
- A força genetriz, do peito vinda,
- Donde natura em todo o corpo entende.
- “Mas, filho meu, não sabes certo ainda
- Como a ser vem um ente cogitante:
- É ponto em que um mais sábio no erro finda;
- “Pois, na doutrina sua extravagante,
- Distinto da alma fez o entendimento
- Possível, não lhe vendo órgão bastante.
- “Abre à luz da verdade o pensamento:
- Vê que, no feto os órgãos em chegando
- Do cérebro ao perfeito acabamento,
- “O Primeiro Motor, ledo encarando
- Da natureza tal primor, lhe inspira ,
- Esp’rito, em que virtudes stão brilhando,
- “E que ativo alimento dali tira
- Para a própria substância; e alma se forma,
- Que vive e sente e pensa e em si regira.
- “Com meu dizer tua mente se conforma,
- Notando que do sol calor em vinho,
- Da uva ao sumo unido, se transforma.
- “O esp’rito, se Laquésis não tem linho,
- Deixa a carne e virtude, traz consigo
- Dotes, que teve no corpóreo ninho.
- “Sobem de ponto no valor antigo
- A memória, a vontade, o entendimento,
- Da mudez o mais fica no jazigo.
- “Cai logo, de espontâneo movimento,
- Por maravilha, numa ou noutra riba,
- Onde há do rumo seu conhecimento.
- “Vindo a lugar, que o circunscreva e iniba,
- Da força informativa é rodeado,
- Como em membros que a morte nos derriba.
- “Bem como o ar de chuva carregado,
- Se dos raios solares é ferido,
- De cores várias mostra-se adornado,
- “O ar vizinho assim fica inserido
- Nessa forma, que desde logo amanha
- Virtualmente o esp’rito ali contido;
- “E semelhante ao fogo, que acompanha
- Labareda, com ele se movendo,
- Cada alma segue aquela forma estranha.
- “Aparência de forma nela havendo
- Sombra se chama; e, após, ela organiza
- Sentidos, o da vista compreendendo.
- “Fala, ri-se, ama, odeia ou simpatiza,
- Exala dor, carpindo ou suspirando:
- Neste monte já tens prova precisa.
- “Segundo está sofrendo ou desejando,
- Da alma também altera-se a figura:
- Vê, pois, o que a magreza está causando.” —
- Voltando à mão direita, da tortura
- Entramos pela estância derradeira:
- Então preocupou-nos outra cura.
- Flamas brotava aqui a ribanceira,
- Aura ativa da estrada respirava:
- Subindo, as rechaçava subranceira.
- Ao longe da árdua borda caminhava
- Um por um: precipício temoroso
- De um lado, e do outro o fogo eu receava.
- Disse Virgílio: — “Aqui bem cauteloso
- Deve aplicar aos olhos seus o freio
- Quem não quiser dar passo perigoso.” —
- Summae clementiae Deus stavam no seio
- Do grande incêndio as almas entoando,
- E de voltar-me o ardor então me veio.
- Vi nas chamas espíritos andando:
- Aos movimentos seus, aos meus estava
- Atento, a vista a uns e a outros dando.
- E quando aquele cântico findava
- Virum non cognosco alto se ouvia,
- E o cântico em tom baixo renovava.
- E, terminando, o coro repetia:
- “Diana expulsa da floresta Helice
- Que o veneno de amor tragado havia.” —
- Cantaram; cada qual como antes disse
- Esposas e maridos, que hão guardado
- A fé, que Deus mandou sempre os unisse:
- Este modo há de ser, creio, alternado,
- Enquanto os rodear a chama ardente:
- A chaga por tal bálsamo e cuidado
- Há de ser guarnecida finalmente.