QUANDO aos dois gentis filhos de Latona
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Beatriz esclarece a Dante que os anjos foram criados por Deus no mesmo tempo em que foram criados os céus. Fala-lhe dos anjos fiéis e dos anjos rebeldes, os quais foram precipitados no Inferno. Censura os falsos filósofos e os padres mentirosos que esquecem que o escopo da predicação é persuadir os homens a serem cristãos, e vendem as indulgências para obter bens materiais.
- QUANDO aos dois gentis filhos de Latona,
- Um por Áries coberto, outro por Libra,
- A um tempo cinge do horizonte a zona,
- Quanto espaço o zênite os equilibra,
- Té que mude o hemisfério e, desprendido
- Deste cinto um e outro se deslibra,
- Tanto calou-se Beatriz, luzido
- De riso tendo o rosto e olhos fitando
- Nesse Ponto que os meus tinha vencido.
- — “Teu desejo” — falou-me — “antecipando
- Agora não te inquiro: já o hei visto
- No centro de todo o ubi e todo o quando.
- “Não para ter mais perfeição, pois isto
- Fora impossível, mas porque fulgindo
- O seu splendor dizer pudesse, — Existo, —
- “Na Eternidade, o tempo não medindo
- Nem o lugar, criar se há dignado
- Amores nove o Eterno Amor se abrindo.
- “Antes não tinha na inação ficado:
- Nem antes, nem depois era existente,
- Quando Deus sobre as águas foi levado.
- “Matéria e forma puras, juntamente,
- Quais setas de tricorde arco voando
- Saíram do ato da Infalível Mente.
- “Como, em vidro, em cristal, em âmbar quando
- Luz do sol toca, é logo refletida
- Do vir ao ser distância não se dando,
- “Tal a obra triforme, concluída
- De uma só vez, no ser raiou perfeita
- Sem star parte por outra antecedida.
- “Ordem foi concriada, a que é sujeita
- Cada substância; o cimo foi marcado
- No mundo a que por ato puro é feita;
- “À força pura imo lugar stá dado;
- São no meio travados força e ato
- Por nó que indissolúvel se há tornado.
- “Jerônimo escreveu que longo trato
- De séc’los antes de outro mundo feito
- Fora dos anjos o império nato.
- “A verdade, porém, stá no conceito
- De escritores, que influi o Espírito Santo
- Verás, pensando, da verdade o efeito.
- “Razão em parte o vê também, porquanto
- Compreender não pudera que os motores
- Inertes fossem por espaço tanto.
- “Sabes, pois, onde e quando esses Amores
- Criados foram e de qual maneira:
- Do teu desejo apago três ardores.
- “Em menos tempo do que a soma inteira
- De um a vinte se faz, dos anjos parte
- Turbou vosso elemento sobranceira.
- “Fiel a outra emprega-se dessa arte,
- Que vês: assim girando jubilosa,
- Deste excelso mister se não disparte.
- “O mal causou soberba criminosa
- Do que hás visto no abismo do tormento,
- Do mundo sob a mole ponderosa.
- “Mas estes, com modesto pensamento,
- Mostraram-se à Bondade agradecidos,
- Que lhes deu tão sublime entendimento.
- “Na vista se exaltando, enriquecidos
- São de mérito e graça iluminante,
- Por querer certo e firme dirigidos.
- “Não duvides; e sabe, de ora avante,
- Que receber a graça é meritório,
- Segundo o afeto mostrar-se constante.
- “Já, pois, este celeste consistório,
- Se quanto ora te hei dito a mente alcança,
- Bem podes contemplar sem adjutório.
- “Como em vossas escolas se afiança,
- Na terra, que é da angélica natura
- O querer, o entender, o ter lembrança,
- “Eu devo ainda revelar-te a pura
- Verdade, que entre vós se há confundido,
- Sendo enleada por tão má leitura.
- “Estas substâncias, o prazer obtido
- De verem Deus, jamais rosto voltaram
- Dos olhos a que nada oculto há sido.
- “Seu ver, novos objetos não cortaram;
- Não há razão, por que se lhes suponha
- Rememorar idéias, que passaram.
- “Assim na terra sem dormir se sonha,
- Crendo e não crendo proferir verdade:
- Neste caso há mais culpa e mais vergonha.
- “De opiniões não tendes fixidade
- Filosofando, tanto vos transporta
- Da ostentação e de o pensar vaidade.
- “No céu menos do que isto se suporta —
- Ser a Santa Escritura desdenhada
- Ou ter inteligência errada e torta.
- “Para ser pelo mundo semeada
- Quanto sangue custou pouco se atenta,
- E quanto a crença humilde a Deus agrada.
- “Qual para alardear engenho, inventa;
- Quando o Santo Evangelho está calado
- Tais invenções o púlpito comenta.
- “Qual diz que a lua, tendo atrás voltado,
- No ato da Paixão de Cristo, houvera,
- Interpondo-se, a luz do Sol velado.
- “Qual afirma que o lume se escondera
- Por si mesmo; e o eclipse à Índia, à Espanha
- Comum como à Judéia, se fizera.
- “Em Florença não há cópia tamanha
- De Lapi e Bindi quanto só num ano
- O púlpito de contos desentranha.
- “Desta arte a ovelha, que não sabe o engano,
- Do pasto volta túmida de vento,
- Desculpa não lhe dá não vendo o dano.
- “Não disse Jesus Cristo ao seu convento:
- Parti e ao mundo apregoai mentira;
- Mas deu-lhes da verdade o fundamento;
- “Ele tão alto, em sua voz se ouvira,
- Que foi-lhes o Evangelho escudo e lança
- Nos prélios, de que a Fé vitriz saíra.
- “Ora em sermões o trocadilho, a chança
- Estão na voga; o riso provocando
- Incha o capuz; por nada mais se cança*.
- “Se o vulgo vira o pássaro nefando,
- Que em cógula se aninha, não quisera
- Indulgências, em que se anda confiando;
- “Stultícia tal da terra se apodera,
- Que, em prova e testemunho não firmado,
- Qualquer a dá-las apto considera.
- “De Santo Antônio assim medra o cevado
- E outros muitos, que os porcos mais ascosos,
- Que pagam com dinheiro não cunhado.
- “Mas longa vai a digressão; cuidosos
- Os olhos volve à verdadeira estrada;
- O tempo é curto, andemos pressurosos.
- “É tanto a grei dos anjos avultada,
- Que nem por voz, nem por humana mente
- Ser pode a conta sua calculada.
- “Bem te demonstra a reflexão prudente
- Que não diz dos milhares, que revela
- A soma Daniel precisamente.
- “A luz primeira, que irradia nela,
- É por maneiras tantas recebida,
- Quantos fulgores são, que a fazem bela.
- “E, pois que a percepção logo é seguida
- Do amor, do afeto angélico a doçura
- Está em graus diversos aquecida.
- “Do Poder Eternal vê, pois, a altura
- E grandeza, que em espelhos tão brilhantes
- A sua imagem multiplica pura,
- Permanecendo um sempre como de antes.”