DESCI desta arte ao círculo segundo
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No ingresso do segundo circulo está Minos, que julga as almas e designa-lhes a pena. No repleno desse círculo estão os luxuriosos, que são continuamente arrebatados e atormentados por um horrível turbilhão. Aqui Dante encontra Francesca de Rimini, que lhe narra a história do seu amor infeliz.
- DESCI desta arte ao círculo segundo,
- Que o espaço menos largo compreendia,
- Onde o pungir da dor é mais profundo.
- Lá stava Minos e feroz rangia:
- Examinava as culpas desde a entrada,
- Dava a sentença como ilhais cingia.
- Ante ele quando uma alma desditada
- Vem, seus crimes confessa-lhe em chegando,
- Com perícia em pecados consumada.
- Lugar no inferno, Minos, lhe adaptando,
- Do abismo o círc’lo arbitra, a que pertença,
- Pelas voltas da cauda graduando.
- Sempre muitas se lhe acham na presença;
- Cada qual tem sua vez de ser julgada,
- Diz, ouve, cai, se some sem detença.
- Minos, logo me vendo, iroso brada,
- Do grave ofício no ato sobrestando:
- — “Ó tu, que vens das dores à morada;
- “Olha como entras e em quem stás fiando:
- Não te engane do entrar tanta largueza!”
- — “Por que falar” — meu guia diz — “gritando?”
- “Vedar não tentes a fatal empresa:
- Assim se quer lá onde o que se ordena
- Se cumpre. Assaz te seja esta certeza!”
- Eis já começo da infernal geena
- A ouvir os lamentos: sou chegado
- Onde intenso carpir me aviva a pena.
- Em lugar de luz mudo tenho entrado:
- Rugia, como faz mar combatido
- Dos ventos, pelo ímpeto encontrado.
- Da tormenta o furor, nunca abatido,
- Perpetuamente as almas torce, agita,
- Molesta, em seus embates recrescido.
- Quando à borda do abismo as precipita,
- Ais, soluços, lamentos vão rompendo.
- Blasfema a Deus a multidão maldita.
- Ouvi que estão no padecer horrendo
- Os que aos vícios da carne se entregavam,
- Razão aos apetites submetendo.
- Quais estorninhos, que a voar se travam
- Em densos bandos na estação já fria,
- Em rodopio as almas volteavam,
- Ao capricho do vento, que as trazia.
- De pausa não, de menos dor a esp’rança
- Conforto lhes não dá nessa agonia.
- Como nos ares longa série avança
- De grous, que vão cantado o seu grasnido,
- Assim no gemer seu, que não descansa,
- Traz o tufão as sombras desabrido.
- — “Mestre” — disse eu — “quais almas são aquelas
- Que o vendaval fustiga denegrido?”
- — “A primeira” — tornou Virgílio — “entre elas
- De quem notícias ter desejarias,
- Regeu nações, diversas nas loquelas.
- “De luxúria fez tantas demasias
- Que em lei dispôs ser lícito e agradável
- Para desculpa às torpes fantasias.
- “Semíramis chamou-se: o trono estável
- Herdou de Nino e foi a sua esposa.
- Do Soldão teve a terra memorável.
- “A morte deu-se a outra, de amorosa,
- Às cinzas de Siqueu traidora e infida;
- Cleópatra após vem luxuriosa”.
- Helena vi, a causa fementida
- De tanto mal, e Aquiles celebrado
- Que teve por amor a extrema lida.
- Páris, Tristão e um bando assinalado
- De sombras me indicou, nomes dizendo,
- Que à sepultura amor tinha arrojado.
- A compaixão me estava confrangendo,
- Dessas damas e antigos cavaleiros
- Nomes ouvindo e mágoas conhecendo.
- Então disse eu: — “Poeta, aos companheiros
- Dois, que ali vêm, falar muito desejo:
- Ao vento ser parecem tão ligeiros!”
- “Hás de ter” — me tornou — “asado ensejo,
- Quando forem mais perto; então lhes pede
- Pelo amor que os uniu: virão sem pejo”. —
- Quando acercar-se o vento lhes concede
- A voz alcei: — “Ó! vinde, almas aflitas,
- Falar-nos, se alta lei não vo-lo impede”. —
- Quais pombas, que saudosas de asas fitas,
- Ao doce ninho, em vôo despedido,
- Vão pelo ar, aos desejos seus adstritas:
- Tais saíram da turba, em que era Dido,
- A nós as duas sombras se inclinando,
- Tanto as moveu da voz o tom sentido!
- — “Entre beni’no, compassivo e brando,
- Que nos vem visitar por este ar perso,
- Tendo nós dado o sangue ao mundo infando,
- “Se amigo o Senhor fosse do universo,
- Da paz aos rogos nossos, gozarias,
- Pois te enternece o nosso mal perverso.
- “Enquanto o vento é quedo, o que dirias
- Havemos nós de ouvir atentamente;
- Diremos quanto ouvir desejarias.
- “Onde, a paz desejando, o Pado ingente
- Com seus vassalos para o mar descende,
- A terra, em que hei nascido, está jacente.
- “Amor, que os corações súbito prende,
- Este inflamou por minha formosura,
- Que roubaram-me: o modo inda me ofende.
- “Amor, em paga exige igual ternura,
- Tomou por ele em tal prazer meu peito,
- Que, bem o vês, eterno me perdura.
- “Amor nos igualou da morte o efeito:
- A quem no-la causou, Caína, esperas”.
- Após tais vozes foi silêncio feito.
- Daquelas almas as angústias feras
- Em meditar amargo a fronte inclino
- Té que o Mestre exclamou: “Que consideras?”
- Quando pude, falei: “Cruel destino!
- Que doce cogitar! Que meigo encanto,
- Precederam do par o fim maligno!” —
- Aos dois voltei-me e disse-lhes, entanto:
- “Teus martírios, Francesca, me angustiam,
- Movem-me o triste, compassivo pranto.
- “Quando os doces suspiros só se ouviam,
- Como, em que Amor mostrar-vos há querido
- Os desejos, que ainda se escondiam?” —
- — “Não há” — disse — “tormento mais dorido
- Que recordar o tempo venturoso
- Na desgraça. Teu Mestre o tem sentido.
- “Mas porque de saber és desejoso,
- Como nasceu a flor do nosso afeto,
- Direi chorando o lance lastimoso.
- “Por passatempo eu lia e o meu dileto
- De Lanceloto extremos namorados;
- Éramos sós, de coração quieto.
- “Nossos olhos, por vezes encontrados,
- Cessam de ler; ao gesto a cor mudara.
- Um ponto só deu causa aos nossos fados.
- “Ao lermos que nos lábios osculara
- O desejado riso, o heróico amante,
- Este, que mais de mim se não separa,
- “A boca me beijou todo tremante,
- De Galeotto fez o autor e o escrito.
- Em ler não fomos nesse dia avante”.
- Enquanto a história triste um tinha dito,
- Tanto carpia o outro, que eu, absorto
- Em piedade, senti letal conflito,
- E tombei, como tomba corpo morto.