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A Divina ComédiaInferno · Canto V
InfernoV

DESCI desta arte ao círculo segundo

142 versos · 5 de 100


No ingresso do segundo circulo está Minos, que julga as almas e designa-lhes a pena. No repleno desse círculo estão os luxuriosos, que são continuamente arrebatados e atormentados por um horrível turbilhão. Aqui Dante encontra Francesca de Rimini, que lhe narra a história do seu amor infeliz.

  1. DESCI desta arte ao círculo segundo,
  2. Que o espaço menos largo compreendia,
  3. Onde o pungir da dor é mais profundo.
  1. Lá stava Minos e feroz rangia:
  2. Examinava as culpas desde a entrada,
  3. Dava a sentença como ilhais cingia.
  1. Ante ele quando uma alma desditada
  2. Vem, seus crimes confessa-lhe em chegando,
  3. Com perícia em pecados consumada.
  1. Lugar no inferno, Minos, lhe adaptando,
  2. Do abismo o círc’lo arbitra, a que pertença,
  3. Pelas voltas da cauda graduando.
  1. Sempre muitas se lhe acham na presença;
  2. Cada qual tem sua vez de ser julgada,
  3. Diz, ouve, cai, se some sem detença.
  1. Minos, logo me vendo, iroso brada,
  2. Do grave ofício no ato sobrestando:
  3. — “Ó tu, que vens das dores à morada;
  1. “Olha como entras e em quem stás fiando:
  2. Não te engane do entrar tanta largueza!”
  3. — “Por que falar” — meu guia diz — “gritando?”
  1. “Vedar não tentes a fatal empresa:
  2. Assim se quer lá onde o que se ordena
  3. Se cumpre. Assaz te seja esta certeza!”
  1. Eis já começo da infernal geena
  2. A ouvir os lamentos: sou chegado
  3. Onde intenso carpir me aviva a pena.
  1. Em lugar de luz mudo tenho entrado:
  2. Rugia, como faz mar combatido
  3. Dos ventos, pelo ímpeto encontrado.
  1. Da tormenta o furor, nunca abatido,
  2. Perpetuamente as almas torce, agita,
  3. Molesta, em seus embates recrescido.
  1. Quando à borda do abismo as precipita,
  2. Ais, soluços, lamentos vão rompendo.
  3. Blasfema a Deus a multidão maldita.
  1. Ouvi que estão no padecer horrendo
  2. Os que aos vícios da carne se entregavam,
  3. Razão aos apetites submetendo.
  1. Quais estorninhos, que a voar se travam
  2. Em densos bandos na estação já fria,
  3. Em rodopio as almas volteavam,
  1. Ao capricho do vento, que as trazia.
  2. De pausa não, de menos dor a esp’rança
  3. Conforto lhes não dá nessa agonia.
  1. Como nos ares longa série avança
  2. De grous, que vão cantado o seu grasnido,
  3. Assim no gemer seu, que não descansa,
  1. Traz o tufão as sombras desabrido.
  2. — “Mestre” — disse eu — “quais almas são aquelas
  3. Que o vendaval fustiga denegrido?”
  1. — “A primeira” — tornou Virgílio — “entre elas
  2. De quem notícias ter desejarias,
  3. Regeu nações, diversas nas loquelas.
  1. “De luxúria fez tantas demasias
  2. Que em lei dispôs ser lícito e agradável
  3. Para desculpa às torpes fantasias.
  1. “Semíramis chamou-se: o trono estável
  2. Herdou de Nino e foi a sua esposa.
  3. Do Soldão teve a terra memorável.
  1. “A morte deu-se a outra, de amorosa,
  2. Às cinzas de Siqueu traidora e infida;
  3. Cleópatra após vem luxuriosa”.
  1. Helena vi, a causa fementida
  2. De tanto mal, e Aquiles celebrado
  3. Que teve por amor a extrema lida.
  1. Páris, Tristão e um bando assinalado
  2. De sombras me indicou, nomes dizendo,
  3. Que à sepultura amor tinha arrojado.
  1. A compaixão me estava confrangendo,
  2. Dessas damas e antigos cavaleiros
  3. Nomes ouvindo e mágoas conhecendo.
  1. Então disse eu: — “Poeta, aos companheiros
  2. Dois, que ali vêm, falar muito desejo:
  3. Ao vento ser parecem tão ligeiros!”
  1. “Hás de ter” — me tornou — “asado ensejo,
  2. Quando forem mais perto; então lhes pede
  3. Pelo amor que os uniu: virão sem pejo”. —
  1. Quando acercar-se o vento lhes concede
  2. A voz alcei: — “Ó! vinde, almas aflitas,
  3. Falar-nos, se alta lei não vo-lo impede”. —
  1. Quais pombas, que saudosas de asas fitas,
  2. Ao doce ninho, em vôo despedido,
  3. Vão pelo ar, aos desejos seus adstritas:
  1. Tais saíram da turba, em que era Dido,
  2. A nós as duas sombras se inclinando,
  3. Tanto as moveu da voz o tom sentido!
  1. — “Entre beni’no, compassivo e brando,
  2. Que nos vem visitar por este ar perso,
  3. Tendo nós dado o sangue ao mundo infando,
  1. “Se amigo o Senhor fosse do universo,
  2. Da paz aos rogos nossos, gozarias,
  3. Pois te enternece o nosso mal perverso.
  1. “Enquanto o vento é quedo, o que dirias
  2. Havemos nós de ouvir atentamente;
  3. Diremos quanto ouvir desejarias.
  1. “Onde, a paz desejando, o Pado ingente
  2. Com seus vassalos para o mar descende,
  3. A terra, em que hei nascido, está jacente.
  1. “Amor, que os corações súbito prende,
  2. Este inflamou por minha formosura,
  3. Que roubaram-me: o modo inda me ofende.
  1. “Amor, em paga exige igual ternura,
  2. Tomou por ele em tal prazer meu peito,
  3. Que, bem o vês, eterno me perdura.
  1. “Amor nos igualou da morte o efeito:
  2. A quem no-la causou, Caína, esperas”.
  3. Após tais vozes foi silêncio feito.
  1. Daquelas almas as angústias feras
  2. Em meditar amargo a fronte inclino
  3. Té que o Mestre exclamou: “Que consideras?”
  1. Quando pude, falei: “Cruel destino!
  2. Que doce cogitar! Que meigo encanto,
  3. Precederam do par o fim maligno!” —
  1. Aos dois voltei-me e disse-lhes, entanto:
  2. “Teus martírios, Francesca, me angustiam,
  3. Movem-me o triste, compassivo pranto.
  1. “Quando os doces suspiros só se ouviam,
  2. Como, em que Amor mostrar-vos há querido
  3. Os desejos, que ainda se escondiam?” —
  1. — “Não há” — disse — “tormento mais dorido
  2. Que recordar o tempo venturoso
  3. Na desgraça. Teu Mestre o tem sentido.
  1. “Mas porque de saber és desejoso,
  2. Como nasceu a flor do nosso afeto,
  3. Direi chorando o lance lastimoso.
  1. “Por passatempo eu lia e o meu dileto
  2. De Lanceloto extremos namorados;
  3. Éramos sós, de coração quieto.
  1. “Nossos olhos, por vezes encontrados,
  2. Cessam de ler; ao gesto a cor mudara.
  3. Um ponto só deu causa aos nossos fados.
  1. “Ao lermos que nos lábios osculara
  2. O desejado riso, o heróico amante,
  3. Este, que mais de mim se não separa,
  1. “A boca me beijou todo tremante,
  2. De Galeotto fez o autor e o escrito.
  3. Em ler não fomos nesse dia avante”.
  1. Enquanto a história triste um tinha dito,
  2. Tanto carpia o outro, que eu, absorto
  3. Em piedade, senti letal conflito,
  1. E tombei, como tomba corpo morto.
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