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A Divina ComédiaPurgatório · Canto XXIV
PurgatórioXXIV

NÃO era o passo e o praticar mais lento

154 versos · 58 de 100


Forese mostra a Dante outras almas de gulosos, entre as quais a de Bonagiunta de Lucca, que prediz ao Poeta que se enamorará de uma mulher da sua cidade, e lhe louva o estilo da poesia. Procedendo, os Poetas encontram outra árvore e ouvem outros exemplos de intemperança castigada.

  1. NÃO era o passo e o praticar mais lento
  2. Um do que outro; igualmente prosseguiam,
  3. Qual nau servida por galerno vento.
  1. As sombras, que duas vezes pareciam
  2. Mortas, nos cavos olhos grande espanto,
  3. De estar eu vivo certas, exprimiam.
  1. Eu, a falar continuando, entanto,
  2. Disse: — “Conosco para ir retarda
  3. Sua ascensão essa alma ao reino santo.
  1. Mas, rogo-te declara: onde é Picarda?
  2. Afamada por feitos há pessoa
  3. Entre a gente, que sôfrega me esguarda?” —
  1. — “Tanto era minha irmã gentil e boa
  2. Que não sei qual foi mais: triunfa leda
  3. No Olimpo, onde alcançou formosa c’roa.
  1. “Nomes dizer de mortos não se veda
  2. Aqui” — Forese torna; e logo ajunta: —
  3. “Tanto a fome as feições nossas depreda!”
  1. “Este que vês de Lucca é Bonagiunta;
  2. E aquela alma (seu dedo ia apontando),
  3. Mais que todas desfeita, que lhe é junta,
  1. “Foi Tours; já na Igreja exerceu mando.
  2. Stá, por jejuns, anguilas de Bolsena,
  3. Ver na ceia, afogadas, expurgando.” —
  1. Muitos mais nomeou, que sofrem pena;
  2. E todos demonstravam star contentes
  3. De ouvir dizer Forese o que os condena.
  1. Em vão de fome vi mover os dentes
  2. Ubaldino de Pila e Bonifaço,
  3. Que regeu com seu bago muitas gentes.
  1. Misser Marchese vi, que largo espaço
  2. Com menos sede em Forli consumia.
  3. Em beber; mas julgava-o inda escasso.
  1. Mas, como o que repara e que aprecia
  2. Escolhendo, ao de Lucca eu me inclinava,
  3. Porque mais conhecer-me parecia.
  1. Submissa voz da boca lhe soava,
  2. Causa do mal, que trouxe-lhe o castigo:
  3. “Gentucca” ou não sei que pronunciava.
  1. — “Ó alma” — disse — “que falar comigo
  2. Queres, ao claro te explicar procura:
  3. Satisfeita serás como contigo.
  1. — “Mulher nasceu, mas inda é virgem pura,
  2. Por quem” — torna — “hás de amar minha cidade,
  3. Posto assunto haja sido de censura.
  1. “Este prenúncio levas da verdade;
  2. Se por meu murmurar te hás enganado,
  3. Trazer-te há de o porvir à claridade,
  1. “Se vejo aquele diz, que à luz há dado
  2. Versos novos, que assim têm seu começo:
  3. Damas que haveis de amor na mente entrado.
  1. — “Que vês em mim” — lhe respondi — “confesso
  2. Quem screve o que somente Amor lhe inspira:
  3. O que em meu peito diz falando expresso.
  1. “O óbice ora vejo que eu não vira
  2. Que ao Notário a Guittone a mim tolhia
  3. O doce estilo da moderna lira.
  1. “As vossas plumas vejo que à porfia
  2. Seguem de perto o inspirador potente;
  3. Tanto alcançar às nossas não cabia.
  1. “Quem, por mais agradar, mais alto a mente
  2. Erguer que, não discerne um do outro estilo.”
  3. Disse e calou-se de o dizer contente.
  1. Como aves, que no inverno o noto asilo
  2. Buscando ora num bando incorporadas,
  3. Ora em fila apressadas vão-se ao Nilo,
  1. Essas almas assim já demoradas,
  2. Volvendo o rosto rápidas fugiram,
  3. Da magreza e vontade auxiliadas.
  1. Como aquele a quem forças se esvaíram
  2. Correndo afrouxa os passos para o alento
  3. Cobrar, em quanto os sócios se retiram;
  1. Forese assim que a passo andava lento
  2. Deixou passar a santa grei dizendo:
  3. — “Quando de ver-te inda terei contento?” —
  1. — “Quanto haja de viver” — fui respondendo —
  2. “Não sei; por menos que me dure a vida
  3. Mais ao seu termo os meus desejos tendo.
  1. “Que onde foi a existência concedida
  2. Mais escassa a virtude é cada dia:
  3. Ruína espera triste e desmedida.
  1. — “O que mor culpa tem” — me retorquia —
  2. “À cauda de um corcel vejo arrastado
  3. Ao vale, onde o pecado não se expia:
  1. “Vai sempre, sempre mais acelerado
  2. Aquele bruto na carreira fera:
  3. Fica vilmente o corpo lacerado.
  1. “Não há de girar muito cada espera
  2. (Para o céu se voltava) antes que seja
  3. Claro o que te explicar eu não pudera.
  1. “Adeus, porém: quem neste reino esteja
  2. Ao tempo dê seu preço verdadeiro;
  3. O que eu perco ao teu lado já sobeja.”
  1. Como a campanha deixa um cavaleiro,
  2. A galope veloz se arremessando,
  3. Por ter na liça as honras de primeiro:
  1. Forese assim de nós foi-se alongando.
  2. Fiquei dos dois espíritos ao lado,
  3. Que o mundo está por mestres proclamando.
  1. Quando em distância tanta era apartado,
  2. Que as vistas nesse andar o acompanharam,
  3. Como a mente ao que havia revelado.
  1. Eis perto aos olhos meus, que se voltaram,
  2. De outra árvore de pomos carregada
  3. Os ramos vicejantes se mostraram.
  1. As mãos alçava multidão cerrada
  2. À fronde em brados; turba semelhava
  3. De infantes, por desejos vãos turbada,
  1. Um objeto implorando a quem negava,
  2. E que o mostrando ainda mais acende
  3. Desejo, que a cobiça lhes agrava.
  1. Foi-se, porém, porque ninguém a atende.
  2. Da grande árvore então nos acercamos,
  3. Que a todo o rogo e pranto desatende.
  1. Uma voz de entre as folhas escutamos:
  2. — “Ide-vos logo; não chegueis ao perto!
  3. Eva o fruto há mordido de outros ramos:
  1. “Stão longe estes de lá provêm de certo.” —
  2. Então de lado os passos dirigimos,
  3. Unidos no caminho, que era aberto.
  1. — “Lembrai esses malditos” — inda ouvimos —
  2. “Filhos das nuvens, duplos na figura,
  3. Que atacaram Teseus, ébrios cadimos;
  1. “E os que em beber acharam tal doçura,
  2. Que os não quis Gedeão na companhia,
  3. A Madiã marchando lá da altura.”
  1. Por junto à borda o passo se volvia,
  2. E as penas escutamos dos pecados
  3. Mortais, que outrora a gula cometia.
  1. Já pela estrada solitária entrados,
  2. Demos mais de mil passos inda avante,
  3. Contemplando, em silêncio mergulhados.
  1. — “Em que cismais vós outros?” — retumbante
  2. Soou voz. — Fiquei logo em sobressalto
  3. Como o corcel de medo titubante.
  1. Para ver levantei a fronte ao alto:
  2. Aos olhos, dera em fusão, no forno ardente,
  3. Vidro ou metal não dera igual assalto,
  1. Como o anjo que eu vi resplendecente.
  2. Dizia: — “A volta dai para a subida!
  3. Quem quer paz para aqui vai certamente.” —
  1. Daquele aspecto a vista foi tolhida:
  2. Como quem pelo ouvido os passos guia,
  3. Fui caminhando, aos Vates em seguida.
  1. E qual aura de maio, que anuncia
  2. A alvorada, das flores espalhando
  3. E das ervas o aroma, que extasia,
  1. Tal sobre a fronte um sopro senti brando,
  2. Senti mover-se a pluma: então rescende
  3. Odor celeste, o olfato me enlevando
  1. Dizer senti: — “Feliz o que se acende
  2. Na Graça o que, da gula desligado,
  3. Ao sabor do apetite não se prende,
  1. Comendo quanto é justo sem pecado!” —
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