NÃO era o passo e o praticar mais lento
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Forese mostra a Dante outras almas de gulosos, entre as quais a de Bonagiunta de Lucca, que prediz ao Poeta que se enamorará de uma mulher da sua cidade, e lhe louva o estilo da poesia. Procedendo, os Poetas encontram outra árvore e ouvem outros exemplos de intemperança castigada.
- NÃO era o passo e o praticar mais lento
- Um do que outro; igualmente prosseguiam,
- Qual nau servida por galerno vento.
- As sombras, que duas vezes pareciam
- Mortas, nos cavos olhos grande espanto,
- De estar eu vivo certas, exprimiam.
- Eu, a falar continuando, entanto,
- Disse: — “Conosco para ir retarda
- Sua ascensão essa alma ao reino santo.
- Mas, rogo-te declara: onde é Picarda?
- Afamada por feitos há pessoa
- Entre a gente, que sôfrega me esguarda?” —
- — “Tanto era minha irmã gentil e boa
- Que não sei qual foi mais: triunfa leda
- No Olimpo, onde alcançou formosa c’roa.
- “Nomes dizer de mortos não se veda
- Aqui” — Forese torna; e logo ajunta: —
- “Tanto a fome as feições nossas depreda!”
- “Este que vês de Lucca é Bonagiunta;
- E aquela alma (seu dedo ia apontando),
- Mais que todas desfeita, que lhe é junta,
- “Foi Tours; já na Igreja exerceu mando.
- Stá, por jejuns, anguilas de Bolsena,
- Ver na ceia, afogadas, expurgando.” —
- Muitos mais nomeou, que sofrem pena;
- E todos demonstravam star contentes
- De ouvir dizer Forese o que os condena.
- Em vão de fome vi mover os dentes
- Ubaldino de Pila e Bonifaço,
- Que regeu com seu bago muitas gentes.
- Misser Marchese vi, que largo espaço
- Com menos sede em Forli consumia.
- Em beber; mas julgava-o inda escasso.
- Mas, como o que repara e que aprecia
- Escolhendo, ao de Lucca eu me inclinava,
- Porque mais conhecer-me parecia.
- Submissa voz da boca lhe soava,
- Causa do mal, que trouxe-lhe o castigo:
- “Gentucca” ou não sei que pronunciava.
- — “Ó alma” — disse — “que falar comigo
- Queres, ao claro te explicar procura:
- Satisfeita serás como contigo.
- — “Mulher nasceu, mas inda é virgem pura,
- Por quem” — torna — “hás de amar minha cidade,
- Posto assunto haja sido de censura.
- “Este prenúncio levas da verdade;
- Se por meu murmurar te hás enganado,
- Trazer-te há de o porvir à claridade,
- “Se vejo aquele diz, que à luz há dado
- Versos novos, que assim têm seu começo:
- Damas que haveis de amor na mente entrado.
- — “Que vês em mim” — lhe respondi — “confesso
- Quem screve o que somente Amor lhe inspira:
- O que em meu peito diz falando expresso.
- “O óbice ora vejo que eu não vira
- Que ao Notário a Guittone a mim tolhia
- O doce estilo da moderna lira.
- “As vossas plumas vejo que à porfia
- Seguem de perto o inspirador potente;
- Tanto alcançar às nossas não cabia.
- “Quem, por mais agradar, mais alto a mente
- Erguer que, não discerne um do outro estilo.”
- Disse e calou-se de o dizer contente.
- Como aves, que no inverno o noto asilo
- Buscando ora num bando incorporadas,
- Ora em fila apressadas vão-se ao Nilo,
- Essas almas assim já demoradas,
- Volvendo o rosto rápidas fugiram,
- Da magreza e vontade auxiliadas.
- Como aquele a quem forças se esvaíram
- Correndo afrouxa os passos para o alento
- Cobrar, em quanto os sócios se retiram;
- Forese assim que a passo andava lento
- Deixou passar a santa grei dizendo:
- — “Quando de ver-te inda terei contento?” —
- — “Quanto haja de viver” — fui respondendo —
- “Não sei; por menos que me dure a vida
- Mais ao seu termo os meus desejos tendo.
- “Que onde foi a existência concedida
- Mais escassa a virtude é cada dia:
- Ruína espera triste e desmedida.
- — “O que mor culpa tem” — me retorquia —
- “À cauda de um corcel vejo arrastado
- Ao vale, onde o pecado não se expia:
- “Vai sempre, sempre mais acelerado
- Aquele bruto na carreira fera:
- Fica vilmente o corpo lacerado.
- “Não há de girar muito cada espera
- (Para o céu se voltava) antes que seja
- Claro o que te explicar eu não pudera.
- “Adeus, porém: quem neste reino esteja
- Ao tempo dê seu preço verdadeiro;
- O que eu perco ao teu lado já sobeja.”
- Como a campanha deixa um cavaleiro,
- A galope veloz se arremessando,
- Por ter na liça as honras de primeiro:
- Forese assim de nós foi-se alongando.
- Fiquei dos dois espíritos ao lado,
- Que o mundo está por mestres proclamando.
- Quando em distância tanta era apartado,
- Que as vistas nesse andar o acompanharam,
- Como a mente ao que havia revelado.
- Eis perto aos olhos meus, que se voltaram,
- De outra árvore de pomos carregada
- Os ramos vicejantes se mostraram.
- As mãos alçava multidão cerrada
- À fronde em brados; turba semelhava
- De infantes, por desejos vãos turbada,
- Um objeto implorando a quem negava,
- E que o mostrando ainda mais acende
- Desejo, que a cobiça lhes agrava.
- Foi-se, porém, porque ninguém a atende.
- Da grande árvore então nos acercamos,
- Que a todo o rogo e pranto desatende.
- Uma voz de entre as folhas escutamos:
- — “Ide-vos logo; não chegueis ao perto!
- Eva o fruto há mordido de outros ramos:
- “Stão longe estes de lá provêm de certo.” —
- Então de lado os passos dirigimos,
- Unidos no caminho, que era aberto.
- — “Lembrai esses malditos” — inda ouvimos —
- “Filhos das nuvens, duplos na figura,
- Que atacaram Teseus, ébrios cadimos;
- “E os que em beber acharam tal doçura,
- Que os não quis Gedeão na companhia,
- A Madiã marchando lá da altura.”
- Por junto à borda o passo se volvia,
- E as penas escutamos dos pecados
- Mortais, que outrora a gula cometia.
- Já pela estrada solitária entrados,
- Demos mais de mil passos inda avante,
- Contemplando, em silêncio mergulhados.
- — “Em que cismais vós outros?” — retumbante
- Soou voz. — Fiquei logo em sobressalto
- Como o corcel de medo titubante.
- Para ver levantei a fronte ao alto:
- Aos olhos, dera em fusão, no forno ardente,
- Vidro ou metal não dera igual assalto,
- Como o anjo que eu vi resplendecente.
- Dizia: — “A volta dai para a subida!
- Quem quer paz para aqui vai certamente.” —
- Daquele aspecto a vista foi tolhida:
- Como quem pelo ouvido os passos guia,
- Fui caminhando, aos Vates em seguida.
- E qual aura de maio, que anuncia
- A alvorada, das flores espalhando
- E das ervas o aroma, que extasia,
- Tal sobre a fronte um sopro senti brando,
- Senti mover-se a pluma: então rescende
- Odor celeste, o olfato me enlevando
- Dizer senti: — “Feliz o que se acende
- Na Graça o que, da gula desligado,
- Ao sabor do apetite não se prende,
- Comendo quanto é justo sem pecado!” —