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A Divina ComédiaPurgatório · Canto VII
PurgatórioVII

DE doce afeto as mútuas mostras sendo

136 versos · 41 de 100


Sordello, ao saber que aquele que abraçou é Virgílio, lhe faz novas e ainda maiores demonstrações de afeto. O Sol está próximo ao ocaso e ao Purgatório não se pode subir à noite. Guiados por Sordello, os dois Poetas param num vale, onde residem os espíritos de personagens que no mundo desfrutaram de grande consideração e que somente no fim da vida elevaram o seu pensamento a Deus.

  1. DE doce afeto as mútuas mostras sendo
  2. Por três ou quatro vezes reiterado
  3. — “Quem sois?” — se retraiu Sordel dizendo.
  1. — “Tinha Otávio os meus ossos sepultado
  2. Já quando a este monte se elevaram
  3. Almas que ao bem havia Deus chamado.
  1. Virgílio sou: do céu não me afastaram
  2. Pecados; me faltava a fé somente.” —
  3. Do meu Guia estas vozes lhe tornaram.
  1. Como quem ante si vê de repente
  2. Maravilha: ora crê, ora duvida,
  3. E diz: — É certo ou minha vista mente? —
  1. Assim essa alma. Dobra a frente erguida
  2. Humildemente, ao Vate se avizinha
  3. E lhe abraça os joelhos comovida.
  1. — “Ó glória dos Latinos!” — disse asinha —
  2. Que ergueste a língua nossa a tanta altura!
  3. Honra eterna da amada pátria minha!
  1. “De ver-te o que me dá graça e ventura?
  2. Dize, se di’no de te ouvir hei sido,
  3. De qual círculo vens da estância escura.”
  1. — “Tenho aqui” — Virgílio diz — “subido,
  2. Do triste reino os círc’los visitando,
  3. Sou do céu por virtude conduzido.
  1. “Não por fazer, mas de fazer deixando,
  2. Ver o sol, que desejas, me é vedado:
  3. Conheci-o já tarde — ai miserando!
  1. “Lá embaixo um lugar foi destinado
  2. Não a martírio, à treva onde há somente
  3. Suspiros, não gemer de angustiado.
  1. “Ali stou eu, no meio da inocente
  2. Grei, que a morte cruel mordeu, enquanto
  3. Da culpa humana inda era dependente.
  1. “Com aqueles stou eu, em quem seu manto
  2. Três celestes virtudes não lançaram,
  3. Lhes dando à vista o mais suave encanto.
  1. “Mas sabes se veredas se deparam
  2. Que ao Purgatório a entrada facilitem?
  3. Os indícios nos diz, se te constaram.” —
  1. Tornou: — “Lugar não há, que almas habitem
  2. Aqui; na direção vou, que me agrada;
  3. Guiarei quanto os passos me permitem.
  1. “Mas vê: declina o dia; na jornada,
  2. Que fazeis, caminhar a noite veda:
  3. Busquemos sítio a cômoda pousada.
  1. “À destra e à parte multidão stá queda:
  2. Iremos até lá, se acaso o queres,
  3. Talvez te seja a sua vida leda.” —
  1. E o Mestre: — “Como? Pelo que proferes,
  2. Impossível será subir sem dia?
  3. Ou a alguém, que o proíba, te referes?” —
  1. Com seu dedo Sordel linha fazia
  2. No chão e disse: — “Além ninguém passara
  3. Se, ausente o sol, a noite principia.
  1. “Mas óbice qualquer não deparara
  2. Quem caminhar, subindo, pretendesse:
  3. Para tolhê-lo a noite já bastara.
  1. “Bem pudera baixar, se lhe aprouvesse,
  2. Pelo declive em volta da montanha:
  3. Enquanto o sol sob o horizonte desce.” —
  1. Torna Virgílio, então, que ouvindo estranha:
  2. — “Ao lugar, que nos dizes, pois, nos guia,
  3. Onde a demora o júbilo acompanha.” —
  1. Pouco longe dali notei que havia
  2. Depressão na montanha, semelhante
  3. À que na terra um vale formaria.
  1. — “Iremos” — disse a sombra — “um pouco avante
  2. Té onde a encosta encurva, se escavando:
  3. De lá voltar vereis a luz brilhante.” —
  1. Entre a escarpa e o plano se inclinando
  2. Trilha ao vale conduz obliquamente,
  3. O pendor mais que ao meio, se adoçando.
  1. Prata, alvaiade, grão, ouro fulgente,
  2. Índico lenho límpido e lustroso,
  3. Pura esmeralda, ao lapidar, luzente,
  1. Por flores e ervas desse val formoso
  2. Se achariam na cor escurecidos
  3. Como cede o mais fraco ao mais forçoso.
  1. Aos donosos males espargidos
  2. Mil suaves aromas se ajuntavam,
  3. Em peregrino muito reunidos.
  1. Sobre a relva entre as flores entoavam
  2. Salve Regina, as almas, que da vista
  3. Externa no recinto se ocultavam.
  1. “Do sol enquanto a luz inda persista” —
  2. O Mantuano disse, que nos guia,
  3. “Ir não queiras à grei que de nós dista.
  1. “Gestos e vultos seus conheceria
  2. Qualquer de vós daqui mais claramente
  3. Do que, de perto os vendo, o poderia.
  1. “O que parece, aos outros, eminente.
  2. Da quebra em seus deveres pesaroso
  3. E a geral melodia ouve silente,
  1. “É Rodolfo que fora poderoso.
  2. Conta o mal que já tem a Itália morta:
  3. Quem lhe dará porvir esperançoso?
  1. “O que com seu semblante ora o conforta
  2. Governava esse reino onde a água brota,
  3. Que o Molta ao Álbia, o Álbia ao mar transporta.
  1. “É Otocar: na infância melhor nota
  2. Teve que o filho, Venceslau barbudo,
  3. Na luxúria e preguiça a vida esgota.
  1. “Morrendo, o que não tem nariz agudo
  2. E fala a esse outro de benino aspeito,
  3. Deixou dos lizes deslustrado o escudo.
  1. “Atentai: como bate ele no peito!
  2. Vede aquele que ao ar suspiros lança
  3. Da mão fazendo à sua face um leito.
  1. “Sogro e pai do flagelo são da França;
  2. Cientes do viver seu vergonhoso,
  3. Dor stão sentindo, que ora não descansa.
  1. “Esse membrudo, que o cantar piedoso
  2. Segue do que nariz tem desmarcado,
  3. Das virtudes no culto foi zeloso.
  1. “Se o mancebo, ora atrás dele assentado,
  2. Ao trono sucedera-lhe, subira
  3. Valor de um Rei por outro fora herdado.
  1. “Dos maus herdeiros qual pôs nisso a mira?
  2. Jaime Fred’rico havendo o reino tido,
  3. Nenhum a melhor parte possuíra.
  1. “Rara vez tem nas ramas ressurgido
  2. Primor alto da estirpe; assim o ordena
  3. Aquele, a quem ser deve o bem pedido.
  1. “Ao narigudo aplicação tem plena
  2. Meu dito e a Pedro, que ao seu lado canta:
  3. Apúlia com Provença, geme e pena.
  1. “Tanto ao seu fruto excede em preço a planta,
  2. Quanto, mais que Beatriz e Margarida,
  3. Constança ações do esposo seu decanta.
  1. “Ali vedes o Rei de simples vida
  2. Sentado à parte, Henrique de Inglaterra:
  3. Teve este em ramos seus melhor saída.
  1. “Mais abaixo notai sentado em terra
  2. Marquês Guilherme e para o alto olhando,
  3. Por quem, sofrendo Alexandria guerra,
  1. Montferrat, Canavese estão chorando.” —
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