TALVEZ milhas seis mil de nós distando
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Os nove coros angélicos aos poucos vão desaparecendo, Dante volve os seus olhos novamente para Beatriz, cuja beleza é agora maravilhosa a tal ponto que renuncia a descrevê-la. Eles estão no Empíreo, e Dante vê um rio de luz, cujas ribas estão esmaltadas de flores. Do rio saem centelhas que formam flores e depois voltam para as ondas. Enfim vê uma grande rosa de luz na qual aparecem anjos e os bem-aventurados. No meio há um trono preparado para o imperador Henrique VII.
- TALVEZ milhas seis mil de nós distando,
- A hora sexta ferve e deste mundo
- A sombra vai-se ao nível inclinando,
- Quando o meio do céu, p’ra nós profundo,
- Tal se faz que não mostra o seu semblante
- Mais de uma estrela deste val ao fundo;
- E enquanto vem do sol a radiante
- Núncia, o céu olhos cerra, adormecido
- Um após outro até o mais brilhante:
- Tal o triunfo, sem cessar movido
- De gáudio, em torno ao Ponto deslumbroso,
- Que parece, contendo estar contido,
- Extinguiu-se aos meus olhos vagaroso.
- Não vendo a pompa mais, a amor cedendo,
- A Beatriz voltei-me fervoroso.
- Num só louvor eu, resumir querendo
- Dela o que vezes mil tenho cantado,
- Frustara o intento, o esforço meu perdendo.
- Pelo humano ideal imaginado
- Não seria o primor, que vi mas, creio,
- Gozá-lo todo, só a Deus é dado.
- Neste árduo passo superado, anseio:
- Vate jamais em trágico poema
- Ou cômico sentiu tamanho enleio;
- Quanto a vista ao clarão do sol mais trema.
- Tanto a memória do seu doce riso
- As potências do espírito me algema.
- Dês que vi do seu gesto o paraíso
- Na terra até me alçar a visão pura
- Meu canto renovar não foi preciso.
- Mas seguir-lhe a sublime formosura
- Nos versos meus agora não me atrevo,
- Como artista, que o extremo esforço apura.
- Beatriz, sendo tal que a deixar devo
- A tuba, mais que a minha, sonorosa,
- Enquanto esta árdua empresa ao termo levo,
- Com gesto e voz de guia cuidadosa,
- — “Ao céu que é pura luz” — disse — “ao presente
- Alçamo-nos da esfera mais vultosa,
- “Luz intelectual, de amor ardente,
- Amor do sumo bem, que enche a alegria;
- Alegria em dulçores transcendente.
- “Do céu verás, na santa bizarria,
- Uma e outra milícia: uma no aspeto
- Que hás de ver do final Juízo em dia.”
- Como aos visivos espíritos direto
- Relâmpago, que a ação lhes tolhe e os priva
- De discernir o mais patente objeto,
- Circunfluiu-me assim uma luz viva
- Com véu do seu fulgor, que me impedia
- Em claridade ver tanto excessiva.
- — “Sempre o Amor, que este céu tanto extasia,
- Por ser o círio à flama aparelhado,
- Este saudar a quem recebe envia.” —
- Bem não tinha estas vozes escutado,
- Eis senti que virtude milagrosa
- A força minha havia sublimado;
- Senti vista mais que antes poderosa
- E tal, que a luz mais penetrante e pura
- Afrontar poderia valorosa.
- Fúlvido lume um rio me afigura,
- Entre margens correndo, que esmaltava
- A primavera da celeste altura.
- Do seio essa corrente arremessava
- Centelhas; que entre as flores se espargiam
- Como rubis, que o ouro circundava.
- Quando ébrias de perfumes pareciam
- Reprofundavam na ribeira bela:
- Se umas entravam, outras emergiam.
- — “O desejo, que te urge e te desvela,
- De saber quanto vês maravilhado
- Me agrada neste excesso que revela.
- “Não serás em tal sede saciado
- Senão dessa água tendo já bebido” —
- Dos meus olhos o sol me há declarado.
- “Os topázios, que movem-se, o luzido
- Rio e das flores o matiz ridente
- Prefácio umbroso da verdade hão sido.
- “Não, por ser isto impenetrável à mente,
- Mas por defeito da fraqueza tua,
- Que te veda visão tanto eminente.” —
- Não há criança, que tão presto rua
- Ao seio maternal, em despertando
- Mais tarde do que está na usança sua,
- Como eu: melhor espelho desejando
- Fazer dos olhos, à água me inclinava,
- Que flui, pureza e perfeição nos dando.
- Das pálpebras apenas se molhava
- A borda, a forma, que antes vi comprida,
- Do rio, circular se apresentava.
- Como quem sob a máscara escondida
- A face teve e logo diferente
- Se mostra, essa aparência removida,
- Assim flores, centelhas, mais fulgente
- Alegria mostraram e eu já via
- Do céu ambas as cortes claramente,
- Ó de Deus esplendor, por quem já via
- O triunfo do reino da verdade,
- Dá-me valor; que eu diga o que já via.
- Lá alto há luz de tanta claridade,
- Que Deus visível faz à criatura,
- Que em vê-lo tem da paz a f’licidade.
- Ela se estende em circular figura,
- Tão vasta que o seu âmbito faria
- Ao sol desmarcadíssima cintura.
- Um raio era o que dela aparecia
- Refletido no Móbile Primeiro,
- A que assim vida e influxo principia.
- Qual em cristal do próximo ribeiro
- Se espelha, como para ver as flores
- E verdura, que o vestem, lindo outeiro,
- Miravam-se, da luz aos esplendores,
- De degraus em milhões almas tornadas
- Da terra para os célicos fulgores.
- Se claridades tantas derramadas
- Stão no imo degrau, como da Rosa
- No cimo hão de as grandezas ser esmadas?
- Sem turbar-me, a amplitude portentosa,
- Notava o qual e o quanto da alegria,
- Em que se enleva aquela grei ditosa.
- De perto, ao longe igual resplendecia;
- Pois onde por si mesmo Deus governa
- Da natureza a lei não mais regia.
- Ao centro áureo da Rosa sempiterna,
- Que em degraus dilatada rescendia
- Louvor ao sol da primavera eterna,
- Como quem cala, mas falar queria,
- Beatriz, me atraindo, disse: — “Atenta
- Dos brancos véus na imensa jerarquia
- “O espaço vê, que esta cidade ostenta!
- Quanto cada fileira está cerrada!
- A poucos lugar vago se apresenta.
- “Essa grande cadeira assinalada
- Já de coroa, que te move espanto,
- Antes de teres nesta boda entrada,
- “Será de Henrique excelso, que há de o manto
- Vestir de Augusto, para a Itália vindo
- Antes de afeita ao regimento santo.
- “Cega cobiça, a tantos iludindo,
- Iguais vos torna a infante, que sem tino
- De ama o seio não quer, fome sentindo.
- “Será então Prefeito no divino
- Foro aquele, que, oculto ou descoberto,
- Não há de ser de acompanhá-lo di’no.
- “A Deus, porém, apraz que esteja perto
- Tempo, em que perderá cargo sagrado!
- Terá com Simão Mago o lugar certo,
- E o de Anagni será mais soterrado.” —