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A Divina ComédiaPurgatório · Canto XI
PurgatórioXI

VÓS, que nos céus estais, ó Padre nosso

142 versos · 45 de 100


Virgílio pergunta às almas que purgam o pecado da soberbia qual é o caminho para subir ao segundo compartimento, e uma delas dá a indicação requerida. Umberto Aldobrandeschi dá-se a conhecer e fala com Dante, que, depois, reconhece Oderisi de Gubbio, pintor e gravador. Oderisi dá-lhe notícia de Provenzano Salvani, que está junto com eles.

  1. VÓS, que nos céus estais, ó Padre nosso,
  2. Não circunscrito, mas porque haveis dado
  3. Mais aos primeiros seres o amor vosso,
  1. “Vosso nome e poder seja louvado!
  2. Graças à criatura jubilosa
  3. Ao saber vosso renda sublimado!
  1. “Do reino vosso a paz venha ditosa!
  2. Que vão de havê-la o empenho nos seria,
  3. Se não vier da vossa mão piedosa.
  1. “Como a vós a vontade se humilia
  2. Dos vossos anjos, entoando hosana,
  3. Façam assim os homens cada dia!
  1. “A substância nos dai quotidiana
  2. Hoje: sem ela em áspero deserto
  3. Se atrasa quem por ir além se afana!
  1. “E como a quem nos faz mal descoberto
  2. Damos perdão, nos perdoai clemente,
  3. Indi’nos sendo nós, Senhor, por certo.
  1. “Oh! não deixeis cair a defidente
  2. Virtude nossa em tentação do imigo!
  3. Livrai-nos dele, em nos pungir ardente!
  1. “Não mais somos, Senhor, nesse perigo,
  2. Em que precisa esta oração nos seja;
  3. Mas não os que hão mister na terra abrigo.” —
  1. Ao céu rogando que ao seu bem proveja
  2. E ao nosso, as almas sob o peso andavam,
  3. Como o que oprime a quem sonhando esteja.
  1. Com desigual gravame se arrastavam
  2. Ofegantes no círculo primeiro,
  3. E do pecado as névoas expurgavam,
  1. Se em bem nosso com zelo verdadeiro,
  2. Oram, como em seu prol fará no mundo
  3. Quem tem no bem querer seu peito useiro?
  1. Ajudemo-las, pois, vestígio imundo
  2. A lavar, por que leves, puras sejam,
  3. Do céu se alando ao brilho sem segundo.
  1. “Ah! compaixão, justiça vos consigam
  2. Presto alívio, e possais, o vôo erguendo,
  3. Ir até onde os desejos vos instigam!
  1. “Valei-nos a vereda nos dizendo
  2. Mais curta ou a que é menos escarpada,
  3. Mais de um caminho a se ascender havendo.
  1. “Ao companheiro meu assaz pesada
  2. É a carne de Adam, que inda o reveste:
  3. Por mais que esforce, o afana esta jornada.” —
  1. A voz, que respondeu ao Mestre a este
  2. Dizer, não sei a que alma pertencia
  3. Por indício qualquer, que o manifeste:
  1. — “Vinde à direita em nossa companhia
  2. Pela encosta, e vereis o passo estreito,
  3. Que uma pessoa viva subiria.
  1. “Se este penedo não tolhesse o jeito,
  2. A cerviz orgulhosa me domando
  3. E obrigando a juntar o rosto ao peito,
  1. “Deste homem para a face, atento olhando,
  2. (Não sei quem é) talvez o conhecera,
  3. E assim me fora compassivo e brando.
  1. “Toscano fui, ilustre pai tivera.
  2. Guilherme Aldobrandeschi se chamava:
  3. O nome seu algum de vós soubera?
  1. “Tanta arrogância a glória me inspirava
  2. Do meu solar e os feitos valorosos,
  3. Que a nossa mãe comum não mais pensava,
  1. “Olhos volvendo a todos desdenhosos.
  2. Perdi-me assim; os atos meus em Siena
  3. Foram em Campagnatico famosos.
  1. “Chamei-me Umberto; da soberba a pena
  2. A mim não coube só: de igual desgraça
  3. Vem a causa que aos meus todos condena.
  1. “Este fardo, que os passos me embaraça
  2. Mereço, por cumprir-se a lei divina:
  3. Vivo o não fiz, é justo que ora o faça.” —
  1. Enquanto, ouvindo, a fronte se me inclina,
  2. Uma das almas (não a que falava)
  3. Sob o peso se torce, que a amofina.
  1. E viu-me e, conhecendo-me, chamava,
  2. Os olhos seus fitando esbaforida
  3. Em mim, que, recurvado a acompanhava.
  1. — “Oderisi não foste” — eu disse — “em vida,
  2. Honra de Agubbio, honra daquela arte
  3. Que iluminar Paris ora apelida?” —
  1. — Tornou-me: — “Hoje o pincel (cumpre informar-te)
  2. De Franco de Bolonha mais agrada:
  3. A honra é toda sua, minha em parte.
  1. “Por mim não fora em vida proclamada
  2. Esta verdade, quando esta alma ardia
  3. Na ambição de primar nessa arte amada.
  1. “Aqui de tal soberba o mal se expia;
  2. Staria alhures; mas a Deus eu pude
  3. Mostrar que de pecar me arrependia.
  1. “Quanto a vaidade o peito humano ilude!
  2. Dessa flor como esvai-se a formosura,
  3. Se não seguir-se um séc’lo inculto e rude!
  1. Cimabue cuidou ter na pintura
  2. A liça dominado: mas vencido
  3. Ficou: a glória Giotto fez-lhe escura.
  1. Assim de estilo na arte cede um Guido,
  2. A palma a outro: agora é bem provável
  3. Seja de ambos o mestre já nascido.
  1. “Rumor mundano é como vento instável
  2. Que a direção varia de repente:
  3. Conforme o lado, o nome tem mudável.
  1. “De ti que fama ficará manente,
  2. Se da velhice cais no extremo passo,
  3. Ou se findas na infância inconsciente,
  1. “De hoje a mil anos, tempo mais escasso,
  2. Da eternidade em face, que um momento
  3. Ante a esfera a mais tarda lá no espaço?
  1. “Quem me precede e vai assim tão lento
  2. Na Toscana entre todos foi famoso:
  3. Apenas salvo está do esquecimento.
  1. “Em Siena, que há regido poderoso,
  2. Quando perdeu-se a raiva florentina.
  3. Soberba então, objeto hoje asqueroso.
  1. “A fama vossa iguala-se à bonina,
  2. Que flore e morre: o sol, por quem nascera
  3. Na terra a prostra e a cor cresta à mofina.” —
  1. Respondi-lhe: — “O dizer teu em mim gera
  2. Saudável humildade e o orgulho mata.
  3. Esse, que apontas, conta-me quem era.” —
  1. “De Provenzan Salvani” — diz — “se trata:
  2. Aqui stá, porque Siena ele cuidara
  3. Ter nas mãos — presunção de alma insensata!
  1. “Caminha assim curvado, e nunca pára
  2. Dês que a vida perdeu eis o castigo
  3. De quem tanto à soberba se entregara!” —
  1. — “Se o que demora até final perigo
  2. A penitência” — eu disse — “e errado corre,
  3. Subir não pode e aqui não acha abrigo,
  1. “Se uma oração piedosa o não socorre,
  2. Durante prazo igual ao da existência,
  3. Como ao martírio Provenzan concorre?” —
  1. — “Quando era” — torna — “no auge da influência,
  2. Sobre a praça de Siena, suplicando,
  3. Ter ante o povo humilde continência,
  1. “De um amigo o resgate procurando,
  2. Que era por Carlos em prisão detido,
  3. Tremeu angustiado e miserando.
  1. “Não mais: não sou, de obscuro, compreendido,
  2. Mas te há de ser em breve isto explicado
  3. Por filhos dessa terra em que hás nascido. —
  1. “Por tão bom feito o ingresso lhe foi dado.”
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