VÓS, que nos céus estais, ó Padre nosso
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Virgílio pergunta às almas que purgam o pecado da soberbia qual é o caminho para subir ao segundo compartimento, e uma delas dá a indicação requerida. Umberto Aldobrandeschi dá-se a conhecer e fala com Dante, que, depois, reconhece Oderisi de Gubbio, pintor e gravador. Oderisi dá-lhe notícia de Provenzano Salvani, que está junto com eles.
- VÓS, que nos céus estais, ó Padre nosso,
- Não circunscrito, mas porque haveis dado
- Mais aos primeiros seres o amor vosso,
- “Vosso nome e poder seja louvado!
- Graças à criatura jubilosa
- Ao saber vosso renda sublimado!
- “Do reino vosso a paz venha ditosa!
- Que vão de havê-la o empenho nos seria,
- Se não vier da vossa mão piedosa.
- “Como a vós a vontade se humilia
- Dos vossos anjos, entoando hosana,
- Façam assim os homens cada dia!
- “A substância nos dai quotidiana
- Hoje: sem ela em áspero deserto
- Se atrasa quem por ir além se afana!
- “E como a quem nos faz mal descoberto
- Damos perdão, nos perdoai clemente,
- Indi’nos sendo nós, Senhor, por certo.
- “Oh! não deixeis cair a defidente
- Virtude nossa em tentação do imigo!
- Livrai-nos dele, em nos pungir ardente!
- “Não mais somos, Senhor, nesse perigo,
- Em que precisa esta oração nos seja;
- Mas não os que hão mister na terra abrigo.” —
- Ao céu rogando que ao seu bem proveja
- E ao nosso, as almas sob o peso andavam,
- Como o que oprime a quem sonhando esteja.
- Com desigual gravame se arrastavam
- Ofegantes no círculo primeiro,
- E do pecado as névoas expurgavam,
- Se em bem nosso com zelo verdadeiro,
- Oram, como em seu prol fará no mundo
- Quem tem no bem querer seu peito useiro?
- Ajudemo-las, pois, vestígio imundo
- A lavar, por que leves, puras sejam,
- Do céu se alando ao brilho sem segundo.
- “Ah! compaixão, justiça vos consigam
- Presto alívio, e possais, o vôo erguendo,
- Ir até onde os desejos vos instigam!
- “Valei-nos a vereda nos dizendo
- Mais curta ou a que é menos escarpada,
- Mais de um caminho a se ascender havendo.
- “Ao companheiro meu assaz pesada
- É a carne de Adam, que inda o reveste:
- Por mais que esforce, o afana esta jornada.” —
- A voz, que respondeu ao Mestre a este
- Dizer, não sei a que alma pertencia
- Por indício qualquer, que o manifeste:
- — “Vinde à direita em nossa companhia
- Pela encosta, e vereis o passo estreito,
- Que uma pessoa viva subiria.
- “Se este penedo não tolhesse o jeito,
- A cerviz orgulhosa me domando
- E obrigando a juntar o rosto ao peito,
- “Deste homem para a face, atento olhando,
- (Não sei quem é) talvez o conhecera,
- E assim me fora compassivo e brando.
- “Toscano fui, ilustre pai tivera.
- Guilherme Aldobrandeschi se chamava:
- O nome seu algum de vós soubera?
- “Tanta arrogância a glória me inspirava
- Do meu solar e os feitos valorosos,
- Que a nossa mãe comum não mais pensava,
- “Olhos volvendo a todos desdenhosos.
- Perdi-me assim; os atos meus em Siena
- Foram em Campagnatico famosos.
- “Chamei-me Umberto; da soberba a pena
- A mim não coube só: de igual desgraça
- Vem a causa que aos meus todos condena.
- “Este fardo, que os passos me embaraça
- Mereço, por cumprir-se a lei divina:
- Vivo o não fiz, é justo que ora o faça.” —
- Enquanto, ouvindo, a fronte se me inclina,
- Uma das almas (não a que falava)
- Sob o peso se torce, que a amofina.
- E viu-me e, conhecendo-me, chamava,
- Os olhos seus fitando esbaforida
- Em mim, que, recurvado a acompanhava.
- — “Oderisi não foste” — eu disse — “em vida,
- Honra de Agubbio, honra daquela arte
- Que iluminar Paris ora apelida?” —
- — Tornou-me: — “Hoje o pincel (cumpre informar-te)
- De Franco de Bolonha mais agrada:
- A honra é toda sua, minha em parte.
- “Por mim não fora em vida proclamada
- Esta verdade, quando esta alma ardia
- Na ambição de primar nessa arte amada.
- “Aqui de tal soberba o mal se expia;
- Staria alhures; mas a Deus eu pude
- Mostrar que de pecar me arrependia.
- “Quanto a vaidade o peito humano ilude!
- Dessa flor como esvai-se a formosura,
- Se não seguir-se um séc’lo inculto e rude!
- Cimabue cuidou ter na pintura
- A liça dominado: mas vencido
- Ficou: a glória Giotto fez-lhe escura.
- Assim de estilo na arte cede um Guido,
- A palma a outro: agora é bem provável
- Seja de ambos o mestre já nascido.
- “Rumor mundano é como vento instável
- Que a direção varia de repente:
- Conforme o lado, o nome tem mudável.
- “De ti que fama ficará manente,
- Se da velhice cais no extremo passo,
- Ou se findas na infância inconsciente,
- “De hoje a mil anos, tempo mais escasso,
- Da eternidade em face, que um momento
- Ante a esfera a mais tarda lá no espaço?
- “Quem me precede e vai assim tão lento
- Na Toscana entre todos foi famoso:
- Apenas salvo está do esquecimento.
- “Em Siena, que há regido poderoso,
- Quando perdeu-se a raiva florentina.
- Soberba então, objeto hoje asqueroso.
- “A fama vossa iguala-se à bonina,
- Que flore e morre: o sol, por quem nascera
- Na terra a prostra e a cor cresta à mofina.” —
- Respondi-lhe: — “O dizer teu em mim gera
- Saudável humildade e o orgulho mata.
- Esse, que apontas, conta-me quem era.” —
- “De Provenzan Salvani” — diz — “se trata:
- Aqui stá, porque Siena ele cuidara
- Ter nas mãos — presunção de alma insensata!
- “Caminha assim curvado, e nunca pára
- Dês que a vida perdeu eis o castigo
- De quem tanto à soberba se entregara!” —
- — “Se o que demora até final perigo
- A penitência” — eu disse — “e errado corre,
- Subir não pode e aqui não acha abrigo,
- “Se uma oração piedosa o não socorre,
- Durante prazo igual ao da existência,
- Como ao martírio Provenzan concorre?” —
- — “Quando era” — torna — “no auge da influência,
- Sobre a praça de Siena, suplicando,
- Ter ante o povo humilde continência,
- “De um amigo o resgate procurando,
- Que era por Carlos em prisão detido,
- Tremeu angustiado e miserando.
- “Não mais: não sou, de obscuro, compreendido,
- Mas te há de ser em breve isto explicado
- Por filhos dessa terra em que hás nascido. —
- “Por tão bom feito o ingresso lhe foi dado.”