“Ó TU que estás além da água sagrada”
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Beatriz continua repreendendo a Dante, o qual confessa os seus pecados. Matilde o mergulha, então, no rio Letes. Depois as sete damas que participavam da procissão (as quatro virtudes cardiais e as três virtudes teologais) o levam até Beatriz, pedindo a ela que se desvele diante do seu fiel. Beatriz tira o véu.
- “Ó TU que estás além da água sagrada”
- — Prosseguiu Beatriz incontinênti,
- A ponta a mim voltando dessa espada,
- Que de revés já fora assaz pungente —
- “Diz se é verdade, diz! À culpa unida
- Esteja a confissão do penitente.” —
- Tanta a força mental foi confrangida,
- Que a voz desfaleceu, se erguer tentando,
- Expirou-me nas fauces inanida.
- Esperou; disse após: — “Que estás pensando?
- Responde: inda não tens nágua apagado
- Lembranças do passado miserando?” —
- No meu enleio, de temor travado,
- Um tão confuso sim, trêmulo, expresso,
- Que houve mister dos olhos ajudado.
- Como em besta entesada em grande excesso,
- Quebrando-se arco e corda, parte a seta
- E no alvo dá sem força do arremesso,
- Stando minha alma em tanto extremo inquieta
- E em suspiros e lágrimas rompendo,
- Perdeu a voz o som, que a língua enceta.
- — “Se ao meu querer” — prossegue — “obedecendo
- Tinhas fanal, que ao bem te conduzisse,
- De anelos teus a mira ser devendo,
- “Onde o poder de estorvos, que impedisse
- Teus passos? Quais grilhões que os retivessem
- Na vereda, que avante ir permitisse?
- “Houve encantos, que a outros te prendessem,
- E delícias, que tanto te atraíram,
- Que a tua alma enlear assim pudessem?” —
- Do peito agros suspiros me saíram;
- Para falar-lhe apenas tive alento,
- E a voz a custo os lábios exprimiram.
- Tornei chorando: — “O engano, o fingimento
- Ao terreno prazer me hão transviado,
- Em vos nublando a face o passamento.” —
- — “Se ocultaras” — falou-me — “o teu pecado,
- A graveza da culpa ao claro vira
- Aquele, por quem deves ser julgado.
- “Mas se o réu, confessando, tem na mira
- O pesar do mau feito, em nossa corte
- Contra o fio da espada a mó se vira.
- “Entanto, por que seja em ti mais forte
- De errar o pejo e, no porvir ouvindo
- Sereias, não procedas de igual sorte,
- “Escuta-me, os teus prantos consumindo:
- Verás que, inda sepulta, eu te guiara,
- Pela contrária rota conduzindo.
- “Jamais arte ou natura te mostrara
- Enlevo, quanto a rara formosura
- Do corpo, em pó tornado, em que eu morara.
- “Se comigo baixara à sepultura
- Teu supremo prazer, como arrastar-te
- Pôde, após si, mortal delícia impura?
- “Enganos tais sentindo saltear-te,
- Aos céus alçando a mente deverias
- Té minha eternidade sublimar-te,
- “E não baixar do vôo, em que subias
- Te expondo a novos tiros, atraída
- Por jovem, por vaidades fugidias.
- “Será duas, três vezes iludida
- Ave inexperta; mas a seta, o laço
- Pássaro velho esquiva, apercebido.” —
- Qual menino, que a mãe por largo espaço
- Increpa; e, baixa a fronte, envergonhado
- Reconhece em silêncio o errado passo,
- Tal me achava. — “De ouvir se estás magoado.
- Levanta a barba!” — ainda prosseguia —
- “Olhando-me, hás de ser mais castigado!” —
- Com menos resistência abateria
- De Europa o vendaval carvalho altivo
- Ou da terra, que a Jarba obedecia,
- Do que eu alcei o rosto pensativo;
- Quando ela disse barba e não semblante
- A malícia notei e o seu motivo.
- Olhos erguendo alfim, do mesmo instante
- Aos ares vi que flores não lançava
- A falange dos anjos radiante.
- Tímida a vista a Beatriz achava
- Voltada ao Grifo, que uma só pessoa
- Em naturezas duas encerrava.
- Além do rio sob o véu e a c’roa
- Tanto excede a beleza sua antiga
- Quanto em vida as que mais fama apregoa.
- E do pesar pungiu-me tanto a urtiga,
- Que das cousas, que mais na terra amara
- A mais cara odiei como inimiga.
- Remorso tal a mente me assaltara,
- Que vencido tombei: qual fiquei sendo
- Sabe quem dor tão viva motivara.
- Ao coração a força me volvendo
- Notei a dama, que primeiro eu vira
- Ao lado meu, — “Abraçai-me!” — dizendo.
- Té ao colo no rio me imergira;
- E correndo, qual leve lançadeira,
- Das águas sobre a tona a si me tira.
- Já próximo à beatífica ribeira,
- Ouvi Asperges me tão docemente,
- Que o não descrevo ou lembro, inda que o queira.
- Matilde, abrindo os braços de repente,
- Cingiu-me a fronte e súbito afundou-me;
- Era dessa água haurir conveniente.
- Assim purificado, ela guiou-me
- Das damas quatro para a dança bela,
- E cada uma nos braços estreitou-me.
- — “Cada qual, ninfa aqui, nos céus estrela,
- Antes que Beatriz descesse ao mundo,
- Servas de ordem suprema somos dela.
- “Os seus olhos verás; mas no jucundo
- Lume interno hás de ter vista aguçada
- Pelas três cujo olhar é mais profundo.” —
- Modulando na angélica toada,
- Ante o Grifo consigo me levaram:
- Lá Beatriz para nós era voltada.
- — “Em contemplar sacia-te!” — falaram —
- “As esmeraldas que ora tens presentes,
- Donde os farpões de amor te vulneraram.” —
- Mais que a flama desejos mil ardentes
- Prenderam olhos meus aos seus formosos,
- Na adoração do Grifo persistentes.
- Qual sol no espelho, nesses luminosos
- Astros o Grifo se alternando, eu via
- Seres dois refletir misteriosos:
- Meu espanto, ó leitor, qual não seria
- Vendo o objeto na imagem transmutado,
- Quando constante em si permanecia?
- Enquanto eu de prazer e pasmo entrado,
- Esse doce manjar stava gozando,
- Que sacia mas sempre é desejado,
- De ordem mais alta ser manifestando
- Pelo meneio, as três se adiantaram,
- Por angélico estilo modulando.
- “Os olhos santos, Beatriz” — cantaram —
- “Oh! volve ao servo teu leal constante
- A quem por ver-te os passos não custaram.
- “Nos dá por grã mercê que o fido amante
- Sem véu segunda formosura
- Contemple nesse divinal semblante!” —
- Ó resplendor da luz eterna e pura!
- Quem do Parnaso à sombra descorando
- E da água sua haurindo alma doçura,
- Aturdido não fora, se arrojando
- A tentar descrever qual te mostraste,
- Quando o céu de harmonias te cercando,
- Ao ar patente a face revelaste?