Pular para o texto
A Divina ComédiaPurgatório · Canto XXXI
PurgatórioXXXI

“Ó TU que estás além da água sagrada”

145 versos · 65 de 100


Beatriz continua repreendendo a Dante, o qual confessa os seus pecados. Matilde o mergulha, então, no rio Letes. Depois as sete damas que participavam da procissão (as quatro virtudes cardiais e as três virtudes teologais) o levam até Beatriz, pedindo a ela que se desvele diante do seu fiel. Beatriz tira o véu.

  1. “Ó TU que estás além da água sagrada”
  2. — Prosseguiu Beatriz incontinênti,
  3. A ponta a mim voltando dessa espada,
  1. Que de revés já fora assaz pungente —
  2. “Diz se é verdade, diz! À culpa unida
  3. Esteja a confissão do penitente.” —
  1. Tanta a força mental foi confrangida,
  2. Que a voz desfaleceu, se erguer tentando,
  3. Expirou-me nas fauces inanida.
  1. Esperou; disse após: — “Que estás pensando?
  2. Responde: inda não tens nágua apagado
  3. Lembranças do passado miserando?” —
  1. No meu enleio, de temor travado,
  2. Um tão confuso sim, trêmulo, expresso,
  3. Que houve mister dos olhos ajudado.
  1. Como em besta entesada em grande excesso,
  2. Quebrando-se arco e corda, parte a seta
  3. E no alvo dá sem força do arremesso,
  1. Stando minha alma em tanto extremo inquieta
  2. E em suspiros e lágrimas rompendo,
  3. Perdeu a voz o som, que a língua enceta.
  1. — “Se ao meu querer” — prossegue — “obedecendo
  2. Tinhas fanal, que ao bem te conduzisse,
  3. De anelos teus a mira ser devendo,
  1. “Onde o poder de estorvos, que impedisse
  2. Teus passos? Quais grilhões que os retivessem
  3. Na vereda, que avante ir permitisse?
  1. “Houve encantos, que a outros te prendessem,
  2. E delícias, que tanto te atraíram,
  3. Que a tua alma enlear assim pudessem?” —
  1. Do peito agros suspiros me saíram;
  2. Para falar-lhe apenas tive alento,
  3. E a voz a custo os lábios exprimiram.
  1. Tornei chorando: — “O engano, o fingimento
  2. Ao terreno prazer me hão transviado,
  3. Em vos nublando a face o passamento.” —
  1. — “Se ocultaras” — falou-me — “o teu pecado,
  2. A graveza da culpa ao claro vira
  3. Aquele, por quem deves ser julgado.
  1. “Mas se o réu, confessando, tem na mira
  2. O pesar do mau feito, em nossa corte
  3. Contra o fio da espada a mó se vira.
  1. “Entanto, por que seja em ti mais forte
  2. De errar o pejo e, no porvir ouvindo
  3. Sereias, não procedas de igual sorte,
  1. “Escuta-me, os teus prantos consumindo:
  2. Verás que, inda sepulta, eu te guiara,
  3. Pela contrária rota conduzindo.
  1. “Jamais arte ou natura te mostrara
  2. Enlevo, quanto a rara formosura
  3. Do corpo, em pó tornado, em que eu morara.
  1. “Se comigo baixara à sepultura
  2. Teu supremo prazer, como arrastar-te
  3. Pôde, após si, mortal delícia impura?
  1. “Enganos tais sentindo saltear-te,
  2. Aos céus alçando a mente deverias
  3. Té minha eternidade sublimar-te,
  1. “E não baixar do vôo, em que subias
  2. Te expondo a novos tiros, atraída
  3. Por jovem, por vaidades fugidias.
  1. “Será duas, três vezes iludida
  2. Ave inexperta; mas a seta, o laço
  3. Pássaro velho esquiva, apercebido.” —
  1. Qual menino, que a mãe por largo espaço
  2. Increpa; e, baixa a fronte, envergonhado
  3. Reconhece em silêncio o errado passo,
  1. Tal me achava. — “De ouvir se estás magoado.
  2. Levanta a barba!” — ainda prosseguia —
  3. “Olhando-me, hás de ser mais castigado!” —
  1. Com menos resistência abateria
  2. De Europa o vendaval carvalho altivo
  3. Ou da terra, que a Jarba obedecia,
  1. Do que eu alcei o rosto pensativo;
  2. Quando ela disse barba e não semblante
  3. A malícia notei e o seu motivo.
  1. Olhos erguendo alfim, do mesmo instante
  2. Aos ares vi que flores não lançava
  3. A falange dos anjos radiante.
  1. Tímida a vista a Beatriz achava
  2. Voltada ao Grifo, que uma só pessoa
  3. Em naturezas duas encerrava.
  1. Além do rio sob o véu e a c’roa
  2. Tanto excede a beleza sua antiga
  3. Quanto em vida as que mais fama apregoa.
  1. E do pesar pungiu-me tanto a urtiga,
  2. Que das cousas, que mais na terra amara
  3. A mais cara odiei como inimiga.
  1. Remorso tal a mente me assaltara,
  2. Que vencido tombei: qual fiquei sendo
  3. Sabe quem dor tão viva motivara.
  1. Ao coração a força me volvendo
  2. Notei a dama, que primeiro eu vira
  3. Ao lado meu, — “Abraçai-me!” — dizendo.
  1. Té ao colo no rio me imergira;
  2. E correndo, qual leve lançadeira,
  3. Das águas sobre a tona a si me tira.
  1. Já próximo à beatífica ribeira,
  2. Ouvi Asperges me tão docemente,
  3. Que o não descrevo ou lembro, inda que o queira.
  1. Matilde, abrindo os braços de repente,
  2. Cingiu-me a fronte e súbito afundou-me;
  3. Era dessa água haurir conveniente.
  1. Assim purificado, ela guiou-me
  2. Das damas quatro para a dança bela,
  3. E cada uma nos braços estreitou-me.
  1. — “Cada qual, ninfa aqui, nos céus estrela,
  2. Antes que Beatriz descesse ao mundo,
  3. Servas de ordem suprema somos dela.
  1. “Os seus olhos verás; mas no jucundo
  2. Lume interno hás de ter vista aguçada
  3. Pelas três cujo olhar é mais profundo.” —
  1. Modulando na angélica toada,
  2. Ante o Grifo consigo me levaram:
  3. Lá Beatriz para nós era voltada.
  1. — “Em contemplar sacia-te!” — falaram —
  2. “As esmeraldas que ora tens presentes,
  3. Donde os farpões de amor te vulneraram.” —
  1. Mais que a flama desejos mil ardentes
  2. Prenderam olhos meus aos seus formosos,
  3. Na adoração do Grifo persistentes.
  1. Qual sol no espelho, nesses luminosos
  2. Astros o Grifo se alternando, eu via
  3. Seres dois refletir misteriosos:
  1. Meu espanto, ó leitor, qual não seria
  2. Vendo o objeto na imagem transmutado,
  3. Quando constante em si permanecia?
  1. Enquanto eu de prazer e pasmo entrado,
  2. Esse doce manjar stava gozando,
  3. Que sacia mas sempre é desejado,
  1. De ordem mais alta ser manifestando
  2. Pelo meneio, as três se adiantaram,
  3. Por angélico estilo modulando.
  1. “Os olhos santos, Beatriz” — cantaram —
  2. “Oh! volve ao servo teu leal constante
  3. A quem por ver-te os passos não custaram.
  1. “Nos dá por grã mercê que o fido amante
  2. Sem véu segunda formosura
  3. Contemple nesse divinal semblante!” —
  1. Ó resplendor da luz eterna e pura!
  2. Quem do Parnaso à sombra descorando
  3. E da água sua haurindo alma doçura,
  1. Aturdido não fora, se arrojando
  2. A tentar descrever qual te mostraste,
  3. Quando o céu de harmonias te cercando,
  1. Ao ar patente a face revelaste?
Próximo cantoXXXIICOM tão sôfregos olhos saciava