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A Divina ComédiaInferno · Canto II
InfernoII

FORA-se o dia; e o ar, se enevoando

142 versos · 2 de 100


Depois da invocação às Musas, Dante, considerando a sua fraqueza, duvida de aventurar-se na viagem. Dizendo-lhe, porém, Virgílio, que era Beatriz quem o mandava, e que havia quem se interessava pela sua salvação, determina-se segui-lo e entra com o seu guia no difícil caminho.

  1. FORA-se o dia; e o ar, se enevoando,
  2. Aos animais, que vivem sobre a terra,
  3. As fadigas tolhia; eu só, velando,
  1. Me aparelhava a sustentar a guerra
  2. Da jornada, assim como da piedade,
  3. Que vai pintar memória, que não erra.
  1. Ó Musas! Ó do gênio potestade!
  2. Valei-me! Aqui, ó mente, que guardaste
  3. Quanto vi, mostra a egrégia qualidade.
  1. “Poeta”, — assim falei, — “que começaste
  2. A guiar-me, vê bem se em mim persiste
  3. Calor que, à empresa que me fias, baste.
  1. “Que o pai do Sílvio fora, referiste,
  2. Corrutível ainda, até o inferno
  3. Sem perder o que em corpo humano existe.
  1. “Se do mal assim quis o imigo eterno,
  2. Origem vendo nele do alto efeito,
  3. O que e o qual, segundo o que discerno,
  1. “Pela razão bem pode ser aceito;
  2. Que para Roma e o império se fundarem
  3. Fora no céu por genitor eleito;
  1. “À qual e ao qual cabia aparelharem,
  2. Dizendo-se a verdade, o lugar santo
  3. Aos que do maior Pedro o sólio herdaram.
  1. “Nessa empresa, em que o hás louvado tanto,
  2. Cousas ouviu, de que surgiu motivo
  3. Ao seu triunfo e ao pontifício manto.
  1. “Lá foi o Vaso Eleito ainda vivo:
  2. Conforto ia buscar, à fé, que à estrada
  3. Da salvação princípio é decisivo.
  1. “Por que irei? Quem permite esta jornada?
  2. Enéias, Paulo sou? Essa ventura
  3. Nem eu, nem outrem crê ser-me adatada.
  1. “Receio, pois seja ato de loucura,
  2. Se eu me resigno a cometer a empresa.
  3. Supre, és sábio, o que digo em frase escura”.
  1. Como quem ora quer, ora despreza,
  2. Sua alma a idéias novas tem disposta,
  3. Mostrando aos seus desígnios estranheza,
  1. Assim fiz eu na tenebrosa encosta,
  2. Porque, pensando, abandonava o intento,
  3. Formado à pressa, que ora me desgosta.
  1. “Do teu dizer se atinjo o entendimento”
  2. — Do magnânimo a sombra me tornava, —
  3. “Eivado estás de ignóbil sentimento,
  1. “Que do homem muita vez faz alma ignava,
  2. Das honrosas ações o desviando,
  3. Qual sombra, que o corcel ao medo trava.
  1. “Desse temor livrar-te desejando,
  2. Por que vim te direi e quanto ouvido
  3. Hei logo ao ver-te mísero lutando.
  1. “No Limbo era suspenso: eis requerido
  2. Por Dama fui tão bela, tão donosa,
  3. Que as ordens suas presto lhe hei pedido.
  1. “Brilhavam mais que a estrela radiosa
  2. Os seus olhos; suave assim dizia
  3. De anjo com voz, falando-me piedosa:
  1. — “De Mântua alma cortês, que inda hoje em dia
  2. No mundo gozas fama tão sonora,
  3. Que, enquanto existir mundo, mais se amplia,
  1. “Amigo meu, que a sorte desadora,
  2. Pela deserta falda indo, impedido
  3. De medo, atrás os passos volta agora.
  1. “Temo que esteja tanto já perdido,
  2. Que tarde eu tenha vindo a socorrê-lo,
  3. Pelo que lá no céu dele hei sabido.
  1. “Parte, pois, e com teu discurso belo
  2. E quanto o salvar possa do perigo
  3. Lhe acode; e me console o teu desvelo.
  1. “Sou Beatriz, que envia-te ao que digo,
  2. De lugar venho a que voltar desejo:
  3. Amor conduz-me e faz-me instar contigo.
  1. “Voltando ao meu Senhor, em todo o ensejo
  2. Repetirei louvor, que hás merecido”. —
  3. “Tornei-lhe, quando já calar-se a vejo:
  1. — “Senhora da virtude, a quem tem sido
  2. Dado só que proceda a espécie humana
  3. Quanto é no mundo sublunar contido,
  1. “Tanto praz-me a ordem que de ti dimana,
  2. Que, já cumprida, houvera inda demora:
  3. Em me abrir teu querer não mais te afana.
  1. “Diz-me, porém, por que razão, Senhora,
  2. Baixar a este centro hás resolvido
  3. Do céu, a que ardes por voltar agora”.
  1. — “Se queres tanto ser esclarecido
  2. Eu te direi” — tornou-me — “frase breve
  3. Por que sem medo às trevas hei descido.
  1. “Somente as cousas recear se deve
  2. Que a outrem podem ser causa de dano
  3. Não das mais: a temor a causa é leve.
  1. “De Deus favor criou-me soberano
  2. Tal, que a vossa miséria não me empece
  3. Nem deste incêndio assalta o fogo insano.
  1. “Nobre Dama há no céu, que compadece
  2. O mal, a que te envio; e tanto implora,
  3. Que lá decreto austero se enternece.
  1. — “Volvendo-se a Luzia, assim a exora:
  2. “O teu servo fiel tanto periga,
  3. Que ao teu amparo o recomendo agora”. —
  1. “Luzia, sempre do que é mau imiga
  2. Ergue-se e ao lugar foi, em que eu sentada
  3. Ao lado estava de Raquel antiga.
  1. “De Deus vero louvor!” — diz-me apressada —
  2. “Por que não socorrer quem te amou tanto,
  3. Que só por ti deixou do vulgo a estrada?
  1. “Não lhe ouves, Beatriz, o amargo pranto?
  2. Não vês que junto ao rio é combatido,
  3. Que ao mar não corre, por mortal espanto?” —
  1. “Os danos, tão veloz, não tem fugido
  2. Ninguém, nem procurado o que deseja,
  3. Como eu, em tendo vozes tais ouvido;
  1. “O trono meu deixei, por que te veja,
  2. Fiada em teus discursos eloqüentes,
  3. Honra tua e de quem te ouvindo esteja”. —
  1. “Assim falava e os olhos fulgentes
  2. Com lágrimas a mim ela volvia,
  3. Para apressar-me a vir assaz potentes.
  1. “A ti vim, pois, como ela requeria;
  2. Da fera te livrei, que da colina
  3. Tão perto já, teus passos impedia.
  1. “Que fazes, pois? Por que, por que domina
  2. Tanta fraqueza o peito espavorido?
  3. Por que ao valor tua alma não se inclina,
  1. “Quando és pelas três santas protegido,
  2. Que na corte do céu por ti se esmeram,
  3. E gozar tanto bem lhe é prometido?” —
  1. Quais flores, que, fechadas, se abateram
  2. Da noite ao frio, e, quando o sol aquece,
  3. Erguem-se abertas na hástea, tais como eram,
  1. Tal meu valor renova e fortalece.
  2. Tanto ardimento o coração me aviva,
  3. Que exclamei, como quem jamais temesse:
  1. “Ó Dama em socorrer-me compassiva!
  2. E tu, que a voz lhe ouvindo, obedeceste,
  3. Cortês ao rogo e com vontade ativa,
  1. “Por teu dizer no peito me acendeste
  2. Desejo tal de vir, que sou tornado
  3. Ao propósito, a que antes me trouxeste.
  1. “Vai, pois nosso querer ’stá combinado.
  2. Serás meu guia, meu senhor, meu mestre!”
  3. Disse-lhe assim. Moveu-se ele; ao seu lado
  1. Pelo caminho entrei alto e silvestre.
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