DE contemplar no seu prazer sorvido
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S. Bernardo esclarece a Dante a composição da rosa do Paraíso. De um lado estão os santos cristãos; do outro os hebreus, que acreditaram no Cristo que devia vir. Entre uns e outros a Virgem Maria. Embaixo de Maria, mulheres hebréias; mais embaixo as crianças mortas logo depois do batismo.
- DE contemplar no seu prazer sorvido,
- De instruir-me, espontâneo, se incumbia,
- E este santo discurso há proferido:
- — “A chaga, que sarou e ungiu Maria
- Abrira a bela, que aos seus pés sentada
- Divisas, do homem no primeiro dia.
- “Stá na tércia fileira entronizada
- Logo abaixo Raquel; resplendente
- Ao lado Beatriz vês colocada.
- “Sara, Rebeca, Judite e a prudente
- Bisavó do cantor, que lamentara,
- Miserere clamando, a culpa ingente:
- “Num degrau cada uma se depara
- Da rosa, folha a folha, descendendo
- Como seu nome a minha voz declara.
- “Estão, do degrau sétimo descendo,
- Como de lá subindo, em seguimento
- Hebréias, dividida a Rosa sendo:
- “Formam elas, assim, repartimento,
- Segundo em Cristo a fé predominara,
- Da santa escada em todo o comprimento.
- “Da parte, em que da flor se completara
- Em cada folha o número, exalçado
- Vês quem a Cristo no porvir sperara;
- “Da parte, onde o hemiciclo é sinalado
- De alguns lugares vagos, se apresenta
- Quem creu em Cristo ao mundo já chegado.
- “Como de um lado a divisão se ostenta,
- Da Virgem pelo trono demarcada
- E pelos mais, que a vista representa,
- “Assim do oposto a sede destinada
- Ao que no ermo e martírio sempre há sido
- Santo e em dois anos da infernal estada,
- “Lugar que, tem por conta, há precedido
- Aos de Francisco, de Agostinho, Bento
- E outros, de um degrau cada um descido.
- “De Deus ora contempla o sábio intento:
- Igualmente a fé nova e a antiga crença
- Hão de encher o jardim do firmamento.
- “Abaixo do degrau da escada imensa,
- Que as divisões reparte, está sentado
- Ninguém, porque ao seu mérito pertença,
- “Mas pelo alheio, e ao modo decretado.
- Seus corpos tais espíritos deixaram
- Antes que discernir lhes fosse dado.
- “Bem à luz da evidência to declaram
- Pela voz infantil e pelo gesto:
- Olha, escuta, e tuas dúvidas se aclaram.
- “Duvidas e o não fazes manifesto;
- Sutil pensar em nó te prende estreito;
- Mas deste enleio vou livrar-te presto.
- “Crer-se não pode em casual efeito
- Do reino divinal no infindo espaço;
- Nem há fome, nem sede ou triste aspeito.
- “De eternas leis vincula tudo o laço,
- E, como o anel no dedo, justamente
- Da criação responde tudo ao traço.
- “Portanto aquela prematura gente
- Sine causa não sobe à vida eterna;
- Mais ou menos, cada um entra excelente.
- “Deste reino o Monarca, que o governa
- De amor em tanto extremo, em tal ventura,
- Que desejo nenhum além se interna,
- “Criando, de sua face na doçura,
- Os espíritos, dota-os a seu grado.
- Isto basta saber: não mais apura.
- “Ao claro está nos gêmeos demonstrado,
- Que haviam, — na Escritura se refere,
- Já no materno ventre batalhado.
- “Assim a luz altíssima confere
- A grinalda da Graça dignamente
- Segundo a cor da coma, que prefere.
- “Graduação, portanto, diferente
- Lhes cabe sem ter méritos na vida:
- Visão primeira os distinguiu somente.
- “Nos primitivos tempos conseguida
- Estava a salvação, quando a inocência
- À fé dos pais se achava reunida.
- “Às primeiras idades em seqüência,
- Dos filhos trouxe às asas inocentes
- Circuncisão, virtude e permanência.
- “Depois de anunciada a Graça às gentes.
- Sem batismo perfeito haver de Cristo
- Não valeu a inocência desses entes.
- “Ora atento na face, que à de Cristo
- Mais se assemelha; a sua luz tão pura
- Só te pode dispor a veres Cristo.” —
- Vi chover de alegria tal ternura,
- Que a Maria os espíritos levavam
- Para voar criados nessa altura,
- Que quanto os olhos antes contemplavam
- Tais portentos patentes não fizera:
- Os assomos de Deus se revelavam.
- Dos anjos o primeiro, que viera,
- Cantando “Ave, Maria, gratia plena”,
- Ante Maria as asas estendera.
- Respondendo à divina cantilena
- De toda parte a gloriosa corte,
- Resplendeu cada face mais serena.
- — “Ó santo Pai, que a caridade forte
- Em prol meu fez deixar o doce assento,
- A ti marcado por eterna sorte,
- Diz-me que anjo com tal contentamento
- Da soberana a fronte olha divina,
- No amor mostra do fogo o encendimento.” —
- Desta arte inda vali-me da doutrina
- Daquele, que enlevava-se em Maria,
- Como no sol a estrela matutina.
- Tornou-me: — “Alacridade e bizarria,
- Quanta em anjo haver possa e nalma humana,
- Há nele; assim nos dá suma alegria:
- “Foi ele o que à bendita Soberana
- Levou a palma, o filho de Deus quando
- Quis assumir a nossa carga insana.
- “Minhas vozes tua vista acompanhando,
- Do justíssimo império alça aos formosos
- Patrícios, de alto nome, venerando.
- “Os dois, que acima brilham, venturosos
- Por starem perto da Sob’rana Augusta;
- São desta Flor princípios gloriosos:
- “À sestra sua aquele, que se ajusta,
- O Pai é que, tentado por mau gosto
- Tanta amargura à sua prole custa.
- À destra o Pai primeiro se acha posto
- Da santa Igreja; as chaves lhe entregara
- Da Rosa Cristo e o fez o seu preposto.
- “E o que antes de morrer vaticinara
- Duros tempos daquela amada Esposa,
- Que por lanças e cravos se alcançara,
- “Fica-lhe a par; e, junto, a glória goza
- O capitão da gente ingrata, insana,
- Que viveu de maná, revel, teimosa.
- “Em frente a Pedro vês que senta-se Ana,
- Tão leda a excelsa Filha contemplando,
- Que imóveis olhos tem, cantado hosana.
- “Em frente ao Pai dos homens venerando,
- É Luzia: a Beatriz há suplicado,
- Quando ias para o abismo te inclinando
- “Mas da tua visão o assinalado
- Tempo foge: paremos, pois, fazendo
- Do pano, que há, vestido bem talhado.
- “E para o Amor Primeiro olhos erguendo,
- Saibamos se do seu fulgor no seio
- Penetras, quanto possas te absorvendo.
- “Mas, de que retrocedas no receio,
- Movendo as asas, em vez de ir avante,
- Impetra graça, de piedade cheio,
- “Daquela, que em valer é tão pujante.
- Em mente a voz me segue fervoroso,
- Com vivo afeto e coração amante.” —
- E esta santa oração disse piedoso: