“EIS a fera, que a horrenda cauda enresta
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Enquanto Virgílio fala com Gerion, para convencer essa horrível fera a levá-los ao fundo do abismo, Dante se aproxima das almas dos violentos contra a arte. Dante reconhece alguns deles. A cada um pende do peito uma bolsa na qual são desenhadas as armas da sua família. Volta depois o Poeta para o lugar onde está Virgílio, que assentado já sobre o dorso de Gerion, põe-no diante de si, e assim descem ao oitavo círculo.
- “EIS a fera, que a horrenda cauda enresta,
- Que arneses, montes, muros atravessa
- E com seu bafo impuro o mundo empesta!”
- Assim Virgílio a me falar começa.
- Para acercar-se logo lhe acenava
- Ao marmóreo anteparo que ali cessa.
- Da fraude o vulto imundo aproximava!
- A cabeça avançou e o torpe busto,
- Porém pendente a cauda lhe ficava
- A cara assomos tinha de homem justo,
- Tanto era o parecer beni’no e brando!
- No mais serpe, movia horror e susto.
- Grandes, hirsutos braços dilatando,
- Alçava peito, ilhais, dorso malhados,
- Mil rodelas e nós se entrelaçando.
- Mais cores nos estofos recamados
- Tártaros, Turcos nunca misturaram,
- Nem Aracne em tecidos variegados.
- Como os batéis, que à praia se amarram,
- No mar a popa têm, a proa em terra;
- E, como em regiões, que se deparam
- Sob o voraz Tudesco, a fazer guerra
- Embosca-se o castor: assim se via
- O monstro à orla, que as areias cerra.
- No ar a extensa cauda revolvia;
- E a venenosa ponta bipartida,
- Do escorpião qual dardo, se erigia
- “Té onde a fera atroz jaz estendida.
- Convém seja o caminho desviado
- Da senda” — disse o Vate — “prosseguida” —
- Descendo, pois, pelo direito lado
- Para o fogo fugir e a areia ardente
- Passos dez pela borda hemos andado.
- Chegados nós de Gerião em frente,
- Um tanto além sentado um bando achamos
- Na areia, perto desse abismo ingente.
- — “Do recinto por teres, em que estamos” —
- Virgílio disse — “a experiência inteira
- A sorte vai saber dos que avistamos.
- “Os discursos, porém, filho aligeira.
- Entanto impetrarei da fera infanda
- Que prestar-nos seus ombros fortes queira”. —
- Só pela borda, como o Vate manda,
- Vou do círculo sétimo seguindo,
- Dos mestos pecadores em demanda.
- A dor, que brota em lágrimas, sentindo,
- Socorre-se das mãos a aflita gente
- Contra o solo e o vapor, que está caindo.
- Assim lebréus, durante a calma ardente
- Dos dentes e unhas valem-se, mordidos
- De tavões por enxame impertinente.
- Quando encarei nos rostos doloridos
- De alguns, que os fogos tanto cruciavam,
- Que eram todos achei desconhecidos.
- Bolsas pendentes dos seus colos stavam,
- Pelos sinais distintas, pelas cores:
- Contemplando-as, seus olhos se enlevavam.
- E vi já me acercando aos pecadores
- Bolsa, na qual em campo de ouro havia
- Azul, que era leão nos seus lavores,
- A vista, que já noutra se embebia,
- Em sangüíneo rubor ganso eu notava,
- Que a brancura do leite escurecia.
- Grávida, azul jardava um, que ostentava,
- Broslada sobre cândida escarcela,
- — “Que buscas neste abismo?” perguntava.
- “Retira-te! Se a vida gozas bela,
- Sabe que à sestra mão Vitaliano,
- Vizinho meu terá condigna sela.
- “Entre estes Florentinos sou Paduano;
- A todo instante aturdem-me os ouvidos,
- Bradando: — O nobre venha, o soberano,
- “Que os três bicos na bolsa traz sculpidos”. —
- Depois, torcendo a boca, a língua tira,
- Qual boi, que os beiços lambe, ressequidos.
- Não querendo mover desgosto ou ira
- Em quem mor brevidade me ordenara,
- Os mesquinhos deixei: assaz ouvira.
- Disse-me o Guia então, que cavalgara
- O dorso do animal fero e possante:
- “Sê forte, a tudo o ânimo prepara!
- “Se desce em tal escada de ora avante;
- Sobe-te ao colo; ao meio irei sentado:
- Que não te ofenda a cauda penetrante.”
- De quartã qual doente, que, chegado
- Supondo o acesso, lívido estremece
- Somente ao ver lugar fresco, assombrado
- Tal quando ouvi, meu peito, desfalece.
- Ante o Mestre dá-me o pejo alento:
- Bom amo o servo esforça que esmorece.
- Já sobre a espalda do animal cruento,
- Quero ao vate gritar: “Senhor, me abraça!”
- A voz, porém, não corresponde ao intento.
- Ele, que a mente espavorida e lassa
- Em circuito mais alto me animara,
- Sustendo-me, nos braços seus me enlaça,
- E disse a Gerião: “Vai, mais não pára.
- Em circuitos largos sem ter pressa:
- Na carga, que ora tens, nova repara!” —
- Bem como esquife, que voar começa,
- Manso e manso recua: assim moveu-se.
- Quando ao largo sentiu-se, eis endereça
- A cauda aonde o peito seu tendeu-se.
- Meneando-a, a retesa como enguia;
- Das patas agitado o ar fendeu-se.
- Feton, quando as rédeas já perdia,
- Ao ver do céu o incêndio, ainda aparente;
- Ícaro, quando lhe cair sentia
- Da cera cada pluma ao sol ardente,
- Gritando o pai; — “Ai! filho! Erraste a strada!”
- De pavor não se entraram mais veemente,
- Do que eu nessa viagem desusada,
- No ar quando me vi, quando enxergava
- Só a cerviz da fera maculada:
- Com tardo movimento ela nadava,
- Que gira e baixa pelo vento eu sinto
- Que em torno ao rosto e abaixo se agitava.
- Já ouvia à direita bem distinto,
- Troar da catadupa fragorosa:
- Olhos inclino ao fundo do recinto.
- A mente estremeceu mais temerosa
- Ao chamejar de fogo, ao som de pranto:
- Encolhi-me ante a cena pavorosa.
- De que descia então, com mor espanto,
- Pelos males, que via, fiquei certo,
- A mim se avizinhar a cada canto.
- Qual falcão que no ar pairava incerto,
- Sem ver reclamo ou cobiçada presa
- Perdida a esp’rança ao caçador esperto,
- Descamba, fatigado e sem presteza,
- Em voltas mil por onde se arrojara,
- E longe pousa, ou de ira, ou de tristeza:
- Tal Gerião, enfim, no fundo pára
- Ao pé da penedia alcantilada,
- Livre do peso já que carregara,
- Sumiu-se como seta disparada.