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A Divina ComédiaInferno · Canto XX
InfernoXX

NOVA pena convém dizer em versos

130 versos · 20 de 100


No quarto compartimento são punidos os impostores que se dedicaram à arte divinatória. Eles têm o rosto e o pescoço voltados para as costas, pelo que são obrigados a caminhar ao reverso. Virgílio mostra a Dante alguns entre os mais famosos, entre os quais a tebana Manto, da qual se origina Mântua, cidade natal de Virgílio.

  1. NOVA pena convém dizer em versos
  2. E dar matéria ao meu vinteno canto,
  3. Do cântico onde punem-se os perversos.
  1. Eu era já disposto tanto, quanto
  2. Fora preciso para ver o fundo
  3. Da cava, que banhava amargo pranto.
  1. De almas vi turba, pelo val rotundo,
  2. Que taciturna vinha e lacrimosa
  3. Ao passo usado em procissões no mundo.
  1. Mirei mais baixo e cada desditosa
  2. Notei que fora o mento retorcido
  3. Do colo ao começar: cousa espantosa!
  1. Para o dorso era o rosto seu volvido:
  2. Só recuando caminhar podia;
  3. Que em frente olhar estava-lhe tolhido.
  1. Talvez por força já de par’lisia
  2. De alguém o corpo ao todo se torcesse;
  3. Não vi: crê-lo difícil me seria.
  1. Que te seja, Leitor, a Deus prouvesse
  2. Proveitosa a lição! Pensa, atilado,
  3. Quanto em mim, vendo, a compaixão crescesse,
  1. O parecer humano tão mudado,
  2. Que o pranto, que dos olhos derivava
  3. Banhava o tergo a cada condenado.
  1. Do rochedo eu a um ângulo chorava
  2. Com tanta dor, que o Mestre de repente
  3. — “Insensato és também?” — me interrogava.
  1. “Aqui piedade é morte em toda mente:
  2. Quando Deus condenou, quem mais malvado
  3. Do que esse, que ternura por maus sente?
  1. “Alça a fronte, alça, atento ao condenado,
  2. Que ante os Tebanos se abismou na terra.
  3. Gritavam-lhe: — Como andas apressado,
  1. “Anfiarau? Como assim foges da guerra? —
  2. Ele tombava entanto, ao val descendo,
  3. Onde Minos os réprobos aferra.
  1. “Pelo futuro penetrar querendo,
  2. Tem o dorso adiante em vez do peito,
  3. E a recuar caminha, atrás só vendo.
  1. “Eis Tirésias, o que mudara o aspeito,
  2. Femíneas formas e feições tomara,
  3. Sendo-lhe o que era varonil desfeito.
  1. “Ao sexo seu tornou, quando encontrara,
  2. Inda uma vez, travadas serpes duas
  3. E outra vez com bordão as separara.
  1. “Volta-lhe Arons ao ventre as costas nuas:
  2. De Luni em monte, aos agros iminentes,
  3. Onde o Carrara ergueu moradas suas,
  1. “Teve em gruta marmórea permanente
  2. Estância, donde contemplar podia
  3. As estrelas, as ondas livremente.
  1. “Essa mulher” — continuou meu Guia —
  2. “Que o seio oculta em traça flutuante
  3. E de velos a pele tem sombria,
  1. “Foi Manto, que vagara incerta e errante
  2. Até pousar na terra, em que hei nascido.
  3. No que ora digo irei um pouco avante.
  1. “Vendo o pai já da vida despedido
  2. E a cidade de Baco em jugo triste,
  3. O mundo largo tempo há percorrido.
  1. “Junto ao Alpes na bela Itália existe,
  2. Além Tirol, já perto da Alemanha,
  3. Um lago, que chamar Benaco ouviste.
  1. “Veia de fontes mil, que a plaga banha
  2. Entre Garda, Camônica e Apenino,
  3. De águas conduz ao lago cópia manha.
  1. “Ilha há no meio, em que o Pastor trentino,
  2. E com ele os de Bréscia e de Verona,
  3. Possuem de benzer juro divino.
  1. “Onde é mais baixa do Benaco a zona,
  2. A Bérgamo fazendo e a Bréscia frente,
  3. Pesqueira, forte em bastiões, se entona.
  1. “É dali que das águas o excedente,
  2. Que ter em si não pode o lago, brota
  3. Em rio e cobre os prados largamente.
  1. “Quando prossegue, outro apelido adota,
  2. Chama-se Míncio, perde o nome antigo:
  3. No Pó junto a Governol, há fim sua rota.
  1. “No verão à saúde traz perigo;
  2. Em vasto plaino o álveo dilatando,
  3. Forma paul, das infeções amigo.
  1. “Manto, a virgem selvage ali passando,
  2. Terreno viu desabitado, inculto
  3. Naquele pantanal, que o está cercando
  1. “Esquiva a humano trato e estranho vulto,
  2. Fez ali de suas artes oficina
  3. E viveu té sofrer da morte o insulto.
  1. “Povo, ao diante, para ali se inclina,
  2. Em torno esparso, e abrigo, o julga forte:
  3. De águas cercado com pauis confina.
  1. “Onde aqui o elegeu colhera a morte,
  2. A cidade erigiram, que chamaram
  3. Mântua, do nome seu sem tirar sorte.
  1. “Os habitantes lá mais avultaram,
  2. Quando ainda os ardis de Pinamonte
  3. De Casalodis a insânia não fraudaram.
  1. “Ciente fica, pois: se de outra fonte
  2. A pátria minha originar quiserem,
  3. A mentira à verdade nunca afronte”. —
  1. — “As cousas, que tuas vozes me referem,
  2. Tão certas são” — disse eu — “que me parece
  3. Carvão extinto o que outros me disserem.
  1. “Mais dize, ó Mestre: acaso não merece
  2. Dos que avançam nenhum reparo ou nota?
  3. Na mente de o saber desejo cresce”. —
  1. — “Aquele, a quem do mento ao dorso brota
  2. Barba esquálida, um áugur se dizia,
  3. Quando de homens a Grécia tal derrota
  1. Teve, que infantes só no berço havia.
  2. Em Áulide com Calcas indicara
  3. Tempo, em que a frota desferrar devia.
  1. “Eurípilo chamou-se: assim narrara
  2. Num dos seus cantos, a tragédia minha,
  3. Bem sabes, pois tua mente a arrecadara.
  1. “Esse, que, tão delgado, se avizinha,
  2. Miguel Escotto foi, que, certamente,
  3. Perícia em fraudes da magia tinha.
  1. “Olha Guido Bonati, encara Asdente
  2. Que cuidar só devera da sovela:
  3. Arrepende-se agora inutilmente.
  1. “Das tristes ora a turba se revela,
  2. Que, desdenhando a agulha, a horrível arte
  3. De encantos infernais acharam bela.
  1. “Mas no limite, que hemisférios parte,
  2. É Caim com seu fardo, o mar tocando,
  3. Lá de Sevilha além do baluarte.
  1. “A lua, a face plena já mostrando
  2. (Te lembras?) ontem viste na sombria
  3. Selva, em que te ajudou seu fulgor brando”. —
  1. Assim falando, a passo igual seguia.
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