Pular para o texto
A Divina ComédiaPurgatório · Canto XII
PurgatórioXII

A PAR, como dois bois, que o jugo unira

136 versos · 46 de 100


Os dois Poetas continuam a viagem. No pavimento do círculo estão pintados vários exemplos de soberbia castigada. Um anjo vem junto dos Poetas e os guia até a escada que sobe ao compartimento sucessivo. Com a asa, depois, apaga da testa de Dante um dos PP.

  1. A PAR, como dois bois, que o jugo unira,
  2. Eu com essa alma opressa e titubeante
  3. Ia, enquanto Virgílio permitira.
  1. Eis disse-me: — “Deixando-a, segue avante:
  2. Deve fazer de vela e remos força
  3. Quem quer à parca impulso dar constante.” —
  1. A caminhar dispus-me à voz, que esforça,
  2. Erguendo logo o corpo, inda que a mente
  3. Na humildade a modéstia acurve e estorça.
  1. Já os pés acelero e facilmente
  2. A Virgílio acompanho: de porfia,
  3. Se mostra cada qual mais diligente.
  1. — “À terra olhos inclina” — então dizia —
  2. “Para a jornada aligeirar atenta
  3. No solo, onde o meu passo aos teus é guia.”
  1. Assim como na campa se aviventa
  2. A memória dos mortos, insculpindo
  3. Imagem, que a existência representa,
  1. Que de saudade os corações ferindo,
  2. À piedade propensos e à ternura,
  3. Os vai ao pranto muita vez pungindo:
  1. Assim, com perfeição sublime e pura,
  2. Figuras via sobre aquela estrada,
  3. Que sobe, serpeando, pela altura.
  1. Via, a um lado, dos céus precipitada
  2. Das criaturas a mais bela e nobre,
  3. Qual raio, pelo espaço arremessada.
  1. A vista, o outro, Briaréu descobre
  2. De projétil celeste transpassado:
  3. Gélido a terra desmedido cobre.
  1. Com Marte e Palas stava figurado
  2. Timbreu, em torno ao pai de armas fornidos,
  3. Vendo o campo de imigos alastrado.
  1. Nemrod olhos volvia espavoridos,
  2. Junto à feitura imensa, aos companheiros,
  3. Que a Sanaar seguiram-no, descridos.
  1. Ó Níobe, com braços verdadeiros
  2. Que dor nos olhos teus aparecia,
  3. Os filhos mortos vendo, quais cordeiros!
  1. Saul, a própria espada te extinguia
  2. Sobre a montanha Gelboé — maldita,
  3. Orvalho ou chuva ali não mais caía.
  1. Ó louca Aracne, tua face aflita,
  2. De aranha parte entre os destroços stava
  3. Da teia, origem da fatal desdita.
  1. Não mais a tua imagem cominava;
  2. Num carro foges, Roboam cruento,
  3. À fúria popular, que te assombrava.
  1. Amostrava ainda o duro pavimento
  2. Como fez Alcmeon pagar tão caro
  3. À mãe o funestíssimo ornamento.
  1. Mostrava mais como flagício raro
  2. Senaqueribe no templo assassinado
  3. Por filhos, que deveram ser-lhe amparo.
  1. Mostrava também Ciro degolado
  2. E Tamíris dizendo acesa em ira
  3. — Sede tinhas de sangue, sê saciado! —
  1. A multidão de Assírios que fugira,
  2. Mostrava ao verem de Holoferne a morte,
  3. E o castigo que os passos lhes seguira.
  1. Via no pó, nas cinzas Tróia forte:
  2. Ó soberba Ílion, a pedra dura
  3. Mostrava a tua lamentável sorte!
  1. Que mestre no pincel ou na escultura
  2. Posturas, sombras tais traçar pudera,
  3. Pasmo ao gênio, que atinja a suma altura?
  1. Real ou morte ou vida aos olhos era:
  2. A verdade não viu na própria cena
  3. Melhor que eu quando a efígie a olhar stivera.
  1. A fronte entonai, pois, de orgulho plena,
  2. Ó filhos de Eva, os olhos não baixando
  3. Ao caminho, onde achais devida pena!
  1. Mais íamos no monte caminhando
  2. E no seu giro o Sol mais avançara
  3. Do que eu cuidava, absorto contemplando,
  1. Quando aquele, que sempre me guiara
  2. Desvelado, me disse: — “Alça a cabeça!
  3. Não te engolfes! atento sê! repara!
  1. “Olha aquele anjo que caminha à pressa
  2. Ao nosso encontro: acaba a terra sexta
  3. Do dia o lavor certo e outra começa.
  1. “Reverência em teu gesto manifesta
  2. Para o anjo à viagem ser propício,
  3. Não volta o dia de que pouco resta.” —
  1. Aproveitar do tempo o benefício
  2. Era do Mestre a regra; e, pois, naquela
  3. Matéria não lhe achei de obscuro o indício.
  1. Já nos demanda a criatura bela:
  2. Trajava branco, a face resplendia,
  3. Qual, tremulando, matutina estrela.
  1. Braços abria e asas estendia,
  2. Dizendo: — “Vinde! que os degraus stão perto:
  3. A jornada já fácil se anuncia.” —
  1. Raros escutam essa voz, por certo:
  2. Ó gente humana, para o céu nascida,
  3. Por que decaís do vento a um sopro incerto?
  1. Imos à rocha, por degraus partida:
  2. De uma das asas me roçou na fronte,
  3. Prometendo-me próspera subida.
  1. Como à direita quem se erguer ao monte,
  2. Donde se avista a igreja que domina
  3. A bem regida ao pé de Rubaconte,
  1. Sente que aos pés a ingremidade inclina
  2. Pela escada talhada antes que houvesse
  3. Em livros e medidas a rapina:
  1. Adoça-se o pendor assim; pois desce
  2. De um círc’lo a outro a rocha que alterosa
  3. A um lado e ao outro augusto passo of’rece.
  1. Subindo em melodia tão donosa
  2. Beati pauperes spiritu escutamos,
  3. Que a voz, que o diga é pouco vigorosa
  1. Quão dif’rentes os áditos que entramos,
  2. Dos infernais! Aqui suave canto,
  3. Lá gritos de ira ouvindo caminhamos.
  1. Vencendo esses degraus do monte santo
  2. Mais ágil me sentia: lá no plano
  3. Fácil nunca a jornada fora tanto.
  1. Eu disse: — “Ó Mestre, de que peso insano
  2. Sinto-me livre, pois no estreito passo,
  3. Como de antes agora não afano!” —
  1. — “Quando os PP que inda tens em vivo traço
  2. Sobre a fronte” — tornou-me — “se apagarem,
  3. Como não hás de ter mais embaraço,
  1. “Segundo o teu desejo os pés andarem
  2. Sentirás sem fadiga, e até gozando
  3. Deleite, para a altura ao caminharem.”
  1. Como o que traz, na praça passeando,
  2. Cousa, que ignora, na cabeça posta,
  3. E, por ver sinais de outrem, suspeitando,
  1. À mão pede socorro; ela, em resposta,
  2. Procura, acha, um serviço assim rendendo,
  3. A que a vista não pode ser disposta:
  1. Assim, da destra os dedos estendendo,
  2. Conheci que das letras, que o anjo abrira,
  3. Stavam somente seis remanescendo.
  1. Sorriu-se o Mestre, que o meu gesto vira.
Próximo cantoXIIIDA escada ao topo havíamos chegado