A PAR, como dois bois, que o jugo unira
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Os dois Poetas continuam a viagem. No pavimento do círculo estão pintados vários exemplos de soberbia castigada. Um anjo vem junto dos Poetas e os guia até a escada que sobe ao compartimento sucessivo. Com a asa, depois, apaga da testa de Dante um dos PP.
- A PAR, como dois bois, que o jugo unira,
- Eu com essa alma opressa e titubeante
- Ia, enquanto Virgílio permitira.
- Eis disse-me: — “Deixando-a, segue avante:
- Deve fazer de vela e remos força
- Quem quer à parca impulso dar constante.” —
- A caminhar dispus-me à voz, que esforça,
- Erguendo logo o corpo, inda que a mente
- Na humildade a modéstia acurve e estorça.
- Já os pés acelero e facilmente
- A Virgílio acompanho: de porfia,
- Se mostra cada qual mais diligente.
- — “À terra olhos inclina” — então dizia —
- “Para a jornada aligeirar atenta
- No solo, onde o meu passo aos teus é guia.”
- Assim como na campa se aviventa
- A memória dos mortos, insculpindo
- Imagem, que a existência representa,
- Que de saudade os corações ferindo,
- À piedade propensos e à ternura,
- Os vai ao pranto muita vez pungindo:
- Assim, com perfeição sublime e pura,
- Figuras via sobre aquela estrada,
- Que sobe, serpeando, pela altura.
- Via, a um lado, dos céus precipitada
- Das criaturas a mais bela e nobre,
- Qual raio, pelo espaço arremessada.
- A vista, o outro, Briaréu descobre
- De projétil celeste transpassado:
- Gélido a terra desmedido cobre.
- Com Marte e Palas stava figurado
- Timbreu, em torno ao pai de armas fornidos,
- Vendo o campo de imigos alastrado.
- Nemrod olhos volvia espavoridos,
- Junto à feitura imensa, aos companheiros,
- Que a Sanaar seguiram-no, descridos.
- Ó Níobe, com braços verdadeiros
- Que dor nos olhos teus aparecia,
- Os filhos mortos vendo, quais cordeiros!
- Saul, a própria espada te extinguia
- Sobre a montanha Gelboé — maldita,
- Orvalho ou chuva ali não mais caía.
- Ó louca Aracne, tua face aflita,
- De aranha parte entre os destroços stava
- Da teia, origem da fatal desdita.
- Não mais a tua imagem cominava;
- Num carro foges, Roboam cruento,
- À fúria popular, que te assombrava.
- Amostrava ainda o duro pavimento
- Como fez Alcmeon pagar tão caro
- À mãe o funestíssimo ornamento.
- Mostrava mais como flagício raro
- Senaqueribe no templo assassinado
- Por filhos, que deveram ser-lhe amparo.
- Mostrava também Ciro degolado
- E Tamíris dizendo acesa em ira
- — Sede tinhas de sangue, sê saciado! —
- A multidão de Assírios que fugira,
- Mostrava ao verem de Holoferne a morte,
- E o castigo que os passos lhes seguira.
- Via no pó, nas cinzas Tróia forte:
- Ó soberba Ílion, a pedra dura
- Mostrava a tua lamentável sorte!
- Que mestre no pincel ou na escultura
- Posturas, sombras tais traçar pudera,
- Pasmo ao gênio, que atinja a suma altura?
- Real ou morte ou vida aos olhos era:
- A verdade não viu na própria cena
- Melhor que eu quando a efígie a olhar stivera.
- A fronte entonai, pois, de orgulho plena,
- Ó filhos de Eva, os olhos não baixando
- Ao caminho, onde achais devida pena!
- Mais íamos no monte caminhando
- E no seu giro o Sol mais avançara
- Do que eu cuidava, absorto contemplando,
- Quando aquele, que sempre me guiara
- Desvelado, me disse: — “Alça a cabeça!
- Não te engolfes! atento sê! repara!
- “Olha aquele anjo que caminha à pressa
- Ao nosso encontro: acaba a terra sexta
- Do dia o lavor certo e outra começa.
- “Reverência em teu gesto manifesta
- Para o anjo à viagem ser propício,
- Não volta o dia de que pouco resta.” —
- Aproveitar do tempo o benefício
- Era do Mestre a regra; e, pois, naquela
- Matéria não lhe achei de obscuro o indício.
- Já nos demanda a criatura bela:
- Trajava branco, a face resplendia,
- Qual, tremulando, matutina estrela.
- Braços abria e asas estendia,
- Dizendo: — “Vinde! que os degraus stão perto:
- A jornada já fácil se anuncia.” —
- Raros escutam essa voz, por certo:
- Ó gente humana, para o céu nascida,
- Por que decaís do vento a um sopro incerto?
- Imos à rocha, por degraus partida:
- De uma das asas me roçou na fronte,
- Prometendo-me próspera subida.
- Como à direita quem se erguer ao monte,
- Donde se avista a igreja que domina
- A bem regida ao pé de Rubaconte,
- Sente que aos pés a ingremidade inclina
- Pela escada talhada antes que houvesse
- Em livros e medidas a rapina:
- Adoça-se o pendor assim; pois desce
- De um círc’lo a outro a rocha que alterosa
- A um lado e ao outro augusto passo of’rece.
- Subindo em melodia tão donosa
- Beati pauperes spiritu escutamos,
- Que a voz, que o diga é pouco vigorosa
- Quão dif’rentes os áditos que entramos,
- Dos infernais! Aqui suave canto,
- Lá gritos de ira ouvindo caminhamos.
- Vencendo esses degraus do monte santo
- Mais ágil me sentia: lá no plano
- Fácil nunca a jornada fora tanto.
- Eu disse: — “Ó Mestre, de que peso insano
- Sinto-me livre, pois no estreito passo,
- Como de antes agora não afano!” —
- — “Quando os PP que inda tens em vivo traço
- Sobre a fronte” — tornou-me — “se apagarem,
- Como não hás de ter mais embaraço,
- “Segundo o teu desejo os pés andarem
- Sentirás sem fadiga, e até gozando
- Deleite, para a altura ao caminharem.”
- Como o que traz, na praça passeando,
- Cousa, que ignora, na cabeça posta,
- E, por ver sinais de outrem, suspeitando,
- À mão pede socorro; ela, em resposta,
- Procura, acha, um serviço assim rendendo,
- A que a vista não pode ser disposta:
- Assim, da destra os dedos estendendo,
- Conheci que das letras, que o anjo abrira,
- Stavam somente seis remanescendo.
- Sorriu-se o Mestre, que o meu gesto vira.