LEITOR, se lá na alpina cordilheira
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Saindo do denso fumo, Dante, novamente em êxtase, vê exemplos de ira punida. Tornando a si, vê um anjo que está perto da escada do quarto compartimento. Os dois Poetas continuam a subir. Sobrevindo, porém, a noite, param e Virgílio explica ao discípulo que o amor é o princípio de todas as virtudes e de todos os vícios.
- LEITOR, se lá na alpina cordilheira
- Te colheu névoa, que de ver tolhia,
- Como se olhos tivemos de toupeira,
- Lembra que, quando a úmida e sombria
- Cortina a delgaçar começa, a esfera
- Do sol escassa luz ao ar envia.
- E mal tua mente imaginar pudera
- Como de novo à vista se mostrava
- O sol, que ao seu poente descendera.
- Ao lume, que nos planos se finava,
- Do Mestre os passos fido acompanhando
- Saí da cerração, que me cercava.
- Fantasia que, o espírito enlevando,
- Tanto o homem dominas, que não sente
- Clangor de tubas mil, juntas soando,
- O que te move, estando o siso ausente?
- Luz que desce por si, no céu formada,
- Ou por querer do céu onipotente.
- Cuidei súbito ver a que mudada,
- Dos crimes seus em pena, foi nessa ave,
- Que em trinar mais se mostra deleitada.
- Tanto minha alma, na visão suave,
- Extática ficou, que não sentia
- Outra impressão qualquer que a prenda e trave.
- Naquele êxtase logo após eu via
- Em cruz um homem de feroz semblante:
- Nem a morte a arrogância lhe abatia:
- Stava o grande Assuero não distante,
- Ester, a esposa e Mardoqueu prudente,
- Justo nos feitos, no dizer prestante.
- E fugiu-me esta imagem prontamente,
- Como a bolha, que de água se formara
- E à falta de água esvai-se de repente.
- Donzela eis na visão se me depara
- Que em prantos exclamava: — “Ó mãe querida
- Por que tomaste irosa a morte amara?
- “Perdes, por não perder Lavínia, a vida
- E perdida me tens: teu fim deplora,
- Mas não o de outro, a filha dolorida.” —
- Como se rompe o sono, se de fora
- Luz repentina às pálpebras nos desce;
- Não morre logo, em luta se demora:
- Minha visão assim se desvanece,
- Quando as faces clarão tão vivo lava,
- Que na terra outro igual nunca esclarece.
- Volvi-me para ver onde me achava;
- Mas, ouvindo uma voz — “Sobe esta escada” —
- De qualquer outro intento me apartava.
- Por saber quem falara foi tomada
- Minha alma de um desejo tão veemente,
- Que fora, se o não viesse, conturbada.
- Como ao sol, que deslumbra em dia ardente,
- Sendo-lhe véu seu lume flamejante,
- Senti perdida a força incontinênti.
- — “Espírito é celeste: vigilante
- Sem rogos, o caminho nos indica:
- O próprio brilho esconde-o fulgurante.
- “Como o homem consigo, assim pratica;
- Quem, mal extremo vendo, só rogado
- Acode, esquivo ser já significa.
- “A tal convite o pé seja apressado!
- Antes da noite rápidos subamos;
- Depois somente quando o sol for nado.” —
- Disse o meu Guia; e logo encaminhamos
- Os passos, de uma escada em direitura.
- Ao primeiro degrau quando chegamos
- Mover de asas ao perto se afigura,
- Bafejo sinto; e ouço: — “É venturoso
- Quem ama a paz, isento de ira impura!” —
- No alto já do céu o luminoso
- Rasto, da noite precursor, surgira,
- De astros assoma o exército formoso.
- — “Ai de mim! Por que a força minha expira?”
- Disse, entre mim, sentindo que, esgotada,
- Súbito às pernas o vigor fugira.
- Tendo alcançado o topo já da escada,
- Imóveis nos quedamos, imitando
- A nau, que aferra a praia desejada.
- A escutar stive um pouco, interrogando
- Daquele novo círc’lo algum sonido;
- Depois ao Mestre me voltei falando:
- — “No lugar em que estamos, pai querido,
- Que pecado recebe a pena sua?
- Parando os pés, teu verbo seja ouvido.”
- Tornou-me: — “Se do bem o amor recua
- No seu dever, aqui se retempera;
- Sobre o remisso a expiação atua.
- “Por melhor compreenderes, considera
- No que digo: a detença, porventura,
- Dará o fruto, que tua mente espera.
- “Ao Criador, meu filho, e à criatura
- Nunca falece amor — tens já sabido —
- Ou venha da alma ou venha da natura.
- “O amor natural de erro é despido;
- Pode pecar o outro pelo objeto,
- Por nímio ardor, por star arrefecido.
- “Quando aos bens principais ele é direto
- E nos bens secundários moderado,
- Causar não pode criminoso afeto.
- “Se ao mal, porém, se torce ou, desregrado,
- De menos ou de mais ao bem se move,
- Ofende ao Criador quem foi criado.
- “Tens, pois, o necessário, que te prove
- Que amor em vós semente é de virtude,
- Como é dos feitos, que o céu mais reprove.
- “E como o amor o bem somente estude
- Do seu sujeito, quando o amor domina,
- Não pode ser que em ódio a si se mude.
- “E porque nenhum ente se imagina
- Sem ter no que criou a causa sua,
- Ódio em nenhum contra este se origina:
- “Contra o próximo é, pois, que se insinua
- Do mal o amor, pecaminoso.
- No humano limo em modos três atua.
- “Qual, da grandeza, e glória cobiçoso,
- As espera em ruína de outro, e anela
- Vê-lo em terra prostrado e desditoso;
- “Qual, temor de perder, triste, revela
- Valia, honra e poder, se outro os partilha
- E em querer-lhe o contrário se desvela;
- “Mágoa sentindo de uma injúria filha,
- Qual porfia em vingar-se, e, de ira ardendo,
- De mal fazer os meios esmerilha.
- “Do mal este amor tríplice nascendo,
- Lá embaixo se expia; mas atende
- Ao que vai desregrado, ao bem correndo.
- “Confusamente cada qual se acende
- Por certo bem e sôfrego o deseja:
- Por ter-lhe a posse, afana-se e contende.
- “O que do bem no amor inerte seja
- Depois que do pesar sofrerá agrura,
- É justo que em martírio aqui se veja.
- “Há outro bem; não dá, porém, ventura.
- Felicidade não é, não é a essência
- De todo o bem, o fruto, a raiz pura.
- “O amor, que a tal bem vota a existência,
- Acima em círc’los três há seu tormento:
- Por que assim se divide, a inteligência,
- Sem te eu dizer, dar-te-á conhecimento.” —