FOSSE já morta a vista eu receava
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O apóstolo S. João interroga Dante a respeito da terceira virtude teologal, a Caridade. Responde Dante e os seus conceitos são aplaudidos por toda a corte celeste. Beatriz reaviva no Poeta a vista que estava ofuscada. Aproxima-se Adão que lhe fala e esclarece alguns pontos duvidosos de Dante.
- FOSSE já morta a vista eu receava,
- Eis da fúlgida flama, que ofuscara,
- Atento fez-me a voz, que assim falava:
- — “Enquanto a força a vista não repara,
- Que em minha nímia luz hás consumido
- Compensação no discursar depara.
- “Começa e diz pra onde é dirigido
- Teu espírito e sabe que, se escura
- A vista sentes, não a tens perdido;
- “Pois quem te guia na divina altura
- Virtude tem no olhar, como Anania
- Nas mãos tivera, que a cegueira cura.” —
- — “Quando bem lhe aprouver” — eu respondia —
- “Remédio aos olhos dê, por onde a chama
- Com ela entrou, que sempre incendia.
- “O Bem, que pelo céu prazer derrama
- Alfa e Ômega há sido na escritura,
- Que amor ou forte ou leve em mim proclama.”
- Aquela mesma voz, que me assegura
- Não haver eu de súbito cegado,
- Inda excitar-me a lhe falar procura.
- — “Por mais estreito crivo ser passado
- Deves” — disse — “e portanto denuncia
- O que ao fito há teu arco endereçado.” —
- — “Razões” — tornei — “da sã filosofia
- E autoridade, que daqui descende,
- Me influem desse amor toda a energia.
- “O bem, enquanto bem, quando se entende,
- Ateia amor que é tanto mais ardente,
- Quanto mais de bondade em si comprende.
- “É pois, essência, em si tanto excelente,
- Que todo bem, que ser lhe possa externo
- Reflexo é só da sua luz fulgente;
- “Atrai, mais que outra, o espírito, que, terno,
- Amando, conhecer pode a verdade,
- Que desta prova é o alicerce eterno.
- “Dessa verdade eu vejo a claridade
- Naquele, que demonstra o amor primeiro
- De todo ente, a quem cabe eternidade.
- “Vejo na voz do Autor, só e verdadeiro,
- Que de si disse, a Moisés falando:
- — O bem te hei-de mostrar perfeito e inteiro. —
- “Também tu mo revelas, começando
- O sublime pregão, que à terra ensina,
- Mais que os outros, o arcano venerando.” —
- — “Pela razão” — ouvi — “pela divina
- Autoridade, que com ela acorda,
- O amor teu, e mais que tudo a Deus destina.
- “Diz-me, porém: não sentes outra corda,
- Que para Deus te arrasta? Faz patente
- Com quantos dentes esse amor te morda.” —
- Da Águia de Cristo não me foi latente
- O propósito santo e onde queria
- Na profissão levar-me diligente.
- — “Estímulos, que possam” — lhe eu dizia —
- “Para Deus impelir a humana essência,
- Tem minha caridade noite e dia;
- “Porque do mundo o ser; minha existência;
- A morte que sofreu para que eu viva;
- O que espera um cristão da fé na ardência;
- “Do bem, que eu disse, a inteligência ativa,
- Me afastaram do mar do amor culpado,
- Do santo amor me conduzindo à vida.
- “As flores, de que o horto é todo ornado,
- Do Jardineiro eterno, eu amo tanto,
- Quanto ele em perfeição lhes tem doado.” —
- Calei-me e resoou melífluo canto
- Pelo céu, que Beatriz acompanhava,
- Dizendo todos: — Santo! Santo! Santo! —
- Como pungente luz olhos destrava
- Do sono, a vista, o brilho procurando,
- Que as pálpebras descerra, invade, agrava;
- E o desperto, os motivos ignorando
- Da súbita vigília, olhos desvia,
- Na mente, entanto, a reflexão calando:
- Em mim, dessa arte, a névoa desfazia
- De Beatriz o olhar, que pelo espaço
- De mais de milhas mil resplendecia.
- Então mais claro que antes a ver passo:
- Quarta luz perto a nós, maravilhado,
- Diviso e uma pergunta logo faço.
- E ela: — “Nesse lume, ora chegado,
- Seu Criador contempla a alma primeira
- Que a Virtude primeira haja criado.” —
- Qual fronde, que, ao soprar da aura ligeira,
- O cimo curva e, logo após, se erguendo
- Pela força, que a torna sobranceira,
- Tal eu, essas palavras lhe entendendo
- Atônito fiquei; depois seguro
- Fez-me um desejo, que me estava ardendo.
- — “Único pomo, que nasceu maduro!
- Dos homens pai, que hás visto filha e nora
- Em cada esposa então e no futuro!
- “Devota e humilde a minha voz te exora!
- Fala-me, pois! Do meu desejo és certo;
- Almejo ouvir-te, e não to expresso agora.” —
- Como de manto um animal coberto
- Movimento, que os membros seus agita
- Pelo envoltório, deixa descoberto:
- Assim essa primeira alma bendita
- Pelo tremor da sua luz mostrava
- O prazer de agradar-me quanto a excita.
- — “Não hei mister declares” — me tornava —
- “Teu desejo, melhor que tu sabendo
- Quanto a certeza em tua mente grava.
- “Nesse espelho infalível estou lendo,
- Em que é todo o visível refletido,
- Cousa nenhuma o refletir podendo.
- “Ouvir aspiras quando vindo hei sido
- Lá no santo jardim, donde, guiado
- Por tão comprida escada, tens subido;
- “Quanto tempo ali fui deliciado;
- Da cólera divina a causa vera;
- Que idioma falei, por mim formado.
- “O pomo, ó filho meu, não considera
- Motivo só por si do acerbo exílio,
- Mas ordens transgredir, que Deus me dera.
- “Lá donde Beatriz moveu Virgílio
- Quatro mil e trezentos e dois anos
- A ventura anelei deste concílio.
- “Do desterro senti na terra os danos,
- Enquanto vezes novecentas trinta
- Seu giro fez o sol do céu nos planos.
- “Antes que a gente de Nemrod consinta
- Em meter mãos à obra interminável,
- A língua, que falei, se achava extinta.
- “De homem feitura sempre perdurável
- Não é; vem do capricho e um dia cessa,
- Do céu segundo o influxo variável.
- “A humana fala a natureza expressa;
- Por ela o modo de falar deixado
- Ao homem está, segundo lhe interessa.
- “Antes de eu ter no inferno penetrado
- El o supremo bem significava,
- Que desta leda luz me há circundado;
- “Depois em Eli o nome se mudava;
- Qual rama dos mortais uso varia,
- Sucede a folha nova à que secava.
- “No monte, que mais alto ao ar se envia
- Santa vida vivi, depois culpada,
- Da hora prima à sétima do dia,
- Noutro quadrante o sol fazendo entrada.”