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A Divina ComédiaParaíso · Canto XXVI
ParaísoXXVI

FOSSE já morta a vista eu receava

142 versos · 93 de 100


O apóstolo S. João interroga Dante a respeito da terceira virtude teologal, a Caridade. Responde Dante e os seus conceitos são aplaudidos por toda a corte celeste. Beatriz reaviva no Poeta a vista que estava ofuscada. Aproxima-se Adão que lhe fala e esclarece alguns pontos duvidosos de Dante.

  1. FOSSE já morta a vista eu receava,
  2. Eis da fúlgida flama, que ofuscara,
  3. Atento fez-me a voz, que assim falava:
  1. — “Enquanto a força a vista não repara,
  2. Que em minha nímia luz hás consumido
  3. Compensação no discursar depara.
  1. “Começa e diz pra onde é dirigido
  2. Teu espírito e sabe que, se escura
  3. A vista sentes, não a tens perdido;
  1. “Pois quem te guia na divina altura
  2. Virtude tem no olhar, como Anania
  3. Nas mãos tivera, que a cegueira cura.” —
  1. — “Quando bem lhe aprouver” — eu respondia —
  2. “Remédio aos olhos dê, por onde a chama
  3. Com ela entrou, que sempre incendia.
  1. “O Bem, que pelo céu prazer derrama
  2. Alfa e Ômega há sido na escritura,
  3. Que amor ou forte ou leve em mim proclama.”
  1. Aquela mesma voz, que me assegura
  2. Não haver eu de súbito cegado,
  3. Inda excitar-me a lhe falar procura.
  1. — “Por mais estreito crivo ser passado
  2. Deves” — disse — “e portanto denuncia
  3. O que ao fito há teu arco endereçado.” —
  1. — “Razões” — tornei — “da sã filosofia
  2. E autoridade, que daqui descende,
  3. Me influem desse amor toda a energia.
  1. “O bem, enquanto bem, quando se entende,
  2. Ateia amor que é tanto mais ardente,
  3. Quanto mais de bondade em si comprende.
  1. “É pois, essência, em si tanto excelente,
  2. Que todo bem, que ser lhe possa externo
  3. Reflexo é só da sua luz fulgente;
  1. “Atrai, mais que outra, o espírito, que, terno,
  2. Amando, conhecer pode a verdade,
  3. Que desta prova é o alicerce eterno.
  1. “Dessa verdade eu vejo a claridade
  2. Naquele, que demonstra o amor primeiro
  3. De todo ente, a quem cabe eternidade.
  1. “Vejo na voz do Autor, só e verdadeiro,
  2. Que de si disse, a Moisés falando:
  3. — O bem te hei-de mostrar perfeito e inteiro. —
  1. “Também tu mo revelas, começando
  2. O sublime pregão, que à terra ensina,
  3. Mais que os outros, o arcano venerando.” —
  1. — “Pela razão” — ouvi — “pela divina
  2. Autoridade, que com ela acorda,
  3. O amor teu, e mais que tudo a Deus destina.
  1. “Diz-me, porém: não sentes outra corda,
  2. Que para Deus te arrasta? Faz patente
  3. Com quantos dentes esse amor te morda.” —
  1. Da Águia de Cristo não me foi latente
  2. O propósito santo e onde queria
  3. Na profissão levar-me diligente.
  1. — “Estímulos, que possam” — lhe eu dizia —
  2. “Para Deus impelir a humana essência,
  3. Tem minha caridade noite e dia;
  1. “Porque do mundo o ser; minha existência;
  2. A morte que sofreu para que eu viva;
  3. O que espera um cristão da fé na ardência;
  1. “Do bem, que eu disse, a inteligência ativa,
  2. Me afastaram do mar do amor culpado,
  3. Do santo amor me conduzindo à vida.
  1. “As flores, de que o horto é todo ornado,
  2. Do Jardineiro eterno, eu amo tanto,
  3. Quanto ele em perfeição lhes tem doado.” —
  1. Calei-me e resoou melífluo canto
  2. Pelo céu, que Beatriz acompanhava,
  3. Dizendo todos: — Santo! Santo! Santo! —
  1. Como pungente luz olhos destrava
  2. Do sono, a vista, o brilho procurando,
  3. Que as pálpebras descerra, invade, agrava;
  1. E o desperto, os motivos ignorando
  2. Da súbita vigília, olhos desvia,
  3. Na mente, entanto, a reflexão calando:
  1. Em mim, dessa arte, a névoa desfazia
  2. De Beatriz o olhar, que pelo espaço
  3. De mais de milhas mil resplendecia.
  1. Então mais claro que antes a ver passo:
  2. Quarta luz perto a nós, maravilhado,
  3. Diviso e uma pergunta logo faço.
  1. E ela: — “Nesse lume, ora chegado,
  2. Seu Criador contempla a alma primeira
  3. Que a Virtude primeira haja criado.” —
  1. Qual fronde, que, ao soprar da aura ligeira,
  2. O cimo curva e, logo após, se erguendo
  3. Pela força, que a torna sobranceira,
  1. Tal eu, essas palavras lhe entendendo
  2. Atônito fiquei; depois seguro
  3. Fez-me um desejo, que me estava ardendo.
  1. — “Único pomo, que nasceu maduro!
  2. Dos homens pai, que hás visto filha e nora
  3. Em cada esposa então e no futuro!
  1. “Devota e humilde a minha voz te exora!
  2. Fala-me, pois! Do meu desejo és certo;
  3. Almejo ouvir-te, e não to expresso agora.” —
  1. Como de manto um animal coberto
  2. Movimento, que os membros seus agita
  3. Pelo envoltório, deixa descoberto:
  1. Assim essa primeira alma bendita
  2. Pelo tremor da sua luz mostrava
  3. O prazer de agradar-me quanto a excita.
  1. — “Não hei mister declares” — me tornava —
  2. “Teu desejo, melhor que tu sabendo
  3. Quanto a certeza em tua mente grava.
  1. “Nesse espelho infalível estou lendo,
  2. Em que é todo o visível refletido,
  3. Cousa nenhuma o refletir podendo.
  1. “Ouvir aspiras quando vindo hei sido
  2. Lá no santo jardim, donde, guiado
  3. Por tão comprida escada, tens subido;
  1. “Quanto tempo ali fui deliciado;
  2. Da cólera divina a causa vera;
  3. Que idioma falei, por mim formado.
  1. “O pomo, ó filho meu, não considera
  2. Motivo só por si do acerbo exílio,
  3. Mas ordens transgredir, que Deus me dera.
  1. “Lá donde Beatriz moveu Virgílio
  2. Quatro mil e trezentos e dois anos
  3. A ventura anelei deste concílio.
  1. “Do desterro senti na terra os danos,
  2. Enquanto vezes novecentas trinta
  3. Seu giro fez o sol do céu nos planos.
  1. “Antes que a gente de Nemrod consinta
  2. Em meter mãos à obra interminável,
  3. A língua, que falei, se achava extinta.
  1. “De homem feitura sempre perdurável
  2. Não é; vem do capricho e um dia cessa,
  3. Do céu segundo o influxo variável.
  1. “A humana fala a natureza expressa;
  2. Por ela o modo de falar deixado
  3. Ao homem está, segundo lhe interessa.
  1. “Antes de eu ter no inferno penetrado
  2. El o supremo bem significava,
  3. Que desta leda luz me há circundado;
  1. “Depois em Eli o nome se mudava;
  2. Qual rama dos mortais uso varia,
  3. Sucede a folha nova à que secava.
  1. “No monte, que mais alto ao ar se envia
  2. Santa vida vivi, depois culpada,
  3. Da hora prima à sétima do dia,
  1. Noutro quadrante o sol fazendo entrada.”
Próximo cantoXXVIIGLÓRIA ao Pai! Glória ao Filho! ao Espírito Santo!