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A Divina ComédiaParaíso · Canto XXIV
ParaísoXXIV

“Ó SODALÍCIO, à ceia convidado

154 versos · 91 de 100


Beatriz roga aos santos que iluminem o intelecto de Dante. Eles manifestaram o seu assentimento. O mais luminoso entre os santos, S. Pedro, aproxima-se mais do Poeta, o interroga sobre a Fé. O apóstolo aprova inteiramente as respostas de Dante o abençoa, cingindo-o três vezes com o seu esplendor.

  1. “Ó SODALÍCIO, à ceia convidado
  2. Do cordeiro de Deus, que dá sustento
  3. Tal, que o apetite heis sempre saciado,
  1. Se inda antes de chegar ao passamento
  2. Preliba este homem — assim Deus dispensa —
  3. Da mesa, em que comeis, tênue fragmento:
  1. Alívio dai-lhe em sua sede imensa.
  2. Na fonte sempre hauris, de que deriva
  3. Quanto ele, sôfrego aspirando, pensa.” —
  1. Disse então Beatriz. Com flama viva,
  2. À guisa de cometa, a grei contente,
  3. Como esferas em pólos, gira ativa.
  1. Em relógio quem põe atenta a mente,
  2. Das rodas uma cuida estar sem moto
  3. E correndo estar outra velozmente:
  1. Pelo vário compasso que lhes noto
  2. Nas coréias, já lento, já apressado,
  3. Da glória sua a estimativa adoto.
  1. Do círc’lo em mor beleza assinalado
  2. Um lume vi surgir tão venturoso,
  3. Que outro nenhum ficara avantajado.
  1. Em torno a Beatriz girou formoso
  2. Por vezes três com tão divino canto,
  3. Que trasladar não posso o som donoso.
  1. Screver não cabe à pena enlevo tanto,
  2. Cores não tem palavra ou fantasia,
  3. Que exprimam propriamente o doce encanto.
  1. — “Santa irmã nossa, que dessa arte envia
  2. Devotos rogos, teu ardente afeito
  3. Dessa bela coréia me desvia.” —
  1. Parando, o bento lume ao claro aspeito
  2. De Beatriz o sopro há dirigido,
  3. Que falou do que eu disse pelo jeito.
  1. — “Eterna luz desse varão subido,
  2. Que de Deus” — torna — “as chaves da alegria
  3. Que infinda à terra deu, hás recebido,
  1. “Deste homem como queiras avalia
  2. O saber sobre a Fé lhe perguntando,
  3. Pela qual sobre o mar andaste um dia.
  1. “Se bem crê, se bem spera, terno amando,
  2. Certo sabeis, pois tens fitado a vista
  3. Onde tudo se está representando.
  1. “Mas como cidadãos o céu conquista
  2. Pela Fé verdadeira, para honrá-la
  3. Explique ele por que na Fé persista.” —
  1. O bacharel apresta-se e não fala
  2. Té que o Mestre a questão haja of’recido,
  3. Por aprová-la, não por terminá-la:
  1. Assim, de todas as razões munido,
  2. Dispus-me, enquanto Beatriz se explica,
  3. A tal assunto, por tal Mestre arguido.
  1. — “Teu pensar, bom cristão, me significa:
  2. O que é Fé?” — Presto, ouvindo, o rosto alçava
  3. Para a luz, que a questão desta arte indica.
  1. Voltei-me a Beatriz: já me acenava
  2. Para que sem detença água fizesse
  3. Brotar da interna fonte, onde a guardava.
  1. — “A graça, que concede eu me confesse
  2. Ao sublime Primópilo” — assim digo —
  3. “Permita que os conceitos claro expresse!
  1. “Como escrito, Pai meu,” — depois prossigo —
  2. “Foi com verdade pelo irmão amado,
  3. Que Roma em bom caminho pôs contigo,
  1. “É a Fé a substância do esperado
  2. E argumento evidente do invisível:
  3. Da Fé a essência assim tenho julgado.” —
  1. Tornou-me: — “O parecer teu é plausível,
  2. Se o porque foi substância definida
  3. E argumento te fica inteligível.” —
  1. — “De mistérios” — disse eu — “soma crescida,
  2. A mim nestas esferas revelada,
  3. Está na terra aos olhos escondida.
  1. “Sua existência em crença é só firmada,
  2. Em que se fundamenta alta Esperança:
  3. Substância, pois, tem sido intitulada.
  1. “E como em crença o raciocínio lança
  2. As premissas sem ter mais outra vista,
  3. Por isso de argumento o nome alcança.” —
  1. — “Se quanto lá na terra homem conquista
  2. Por doutrina, assim fosse comprendido,
  3. Lugar faltava ao engenho do sofista” —
  1. Daquele aceso amor foi respondido;
  2. E mais: — “Nesta moeda examinado
  3. Metal e peso muito bem tem sido.
  1. “Mas diz: na bolsa a tens arrecadado?” —
  2. — “Sim” — tornei — “tão redonda é, tão polida,
  3. Que do bom cunho estou certificado.” —
  1. A voz então, desse esplendor saída
  2. Perguntou-me: — “Essa pedra preciosa,
  3. Em que toda virtude se acha erguida
  1. “Donde a tens?” — Eu: — “A chuva copiosa,
  2. Pelo Espírito Santo derramada
  3. Na Lei antiga e nova portentosa,
  1. “Razão é, porque foi-me demonstrada
  2. Com agudeza tal, que outra seria
  3. Obtusa, se lhe fora comparada.” —
  1. — “Porque divina lei pareceria
  2. A nova e a antiga” — a voz logo retorna —
  3. “Que a tão profunda convicção te guia?” —
  1. — “É prova que a verdade clara torna
  2. De obras a série” — eu disse — “a que natura
  3. Nunca ferro aqueceu, bateu bigorna.” —
  1. A luz me replicou: — “Quem te assegura
  2. Que as obras fossem tais? Quem defendido
  3. Por provas deve ser. Quem mais to jura?
  1. Então falei: — “Se o mundo convertido
  2. Sem milagres de Cristo à lei se houvesse,
  3. Este o maior milagre houvera sido;
  1. “Porque pobre, em jejum, para ter messe
  2. Semeado hás na terra ótima planta:
  3. Onde foi vinha, hoje espinhal só cresce.” —
  1. Mal concluía, quando a corte santa
  2. Nas esferas — Louvemos Deus! — entoa
  3. Nessa toada, em que no céu se canta.
  1. Do sublime Barão, que até a c’roa
  2. De ramo em ramo me elevado havia,
  3. Naquele exame, a voz de novo soa.
  1. — “A graça com tua mente consorcia
  2. Tanto, que por teus lábios tem falado:
  3. Té aqui respondeste o que cumpria.
  1. “Dou, pois, assenso ao que me tens tornado;
  2. Mas tua crença exprime, lhe acrescendo
  3. De que fonte à tua alma ela há brotado.” —
  1. — “Ó Santo Padre, ó Spírito, que vendo
  2. Stás quanto creste, tanto que chegaste
  3. Ao Sepulcro, o mais moço antecedendo,
  1. “Direi” — lhe torno — “(assim determinaste)
  2. Da minha Fé a fórmula evidente,
  3. Sua origem direi como ordenaste.
  1. “Em um só Deus eu creio onipotente,
  2. Eterno, que, imutável, os céus move
  3. No desejo e no amor sempre clemente.
  1. “São, para que tal crença se comprove,
  2. Metafísica e física discretas;
  3. Mas da verdade a prova também chove
  1. “Por Moisés, pelos salmos, por profetas,
  2. Pelo Evangelho e escritos, que inspirado
  3. Vos tem o Esp’rito Santo, almas seletas.
  1. “Nas Três Pessoas creio afervorado;
  2. Creio na essência delas Una e Trina,
  3. Tanto que é stá com são bem conjugado.
  1. “O que de altos mistérios da divina
  2. Condição digo, em traços mil se assela
  3. Em mim pela evangélica doutrina.
  1. “Este o princípio, esta a fagulha bela,
  2. Que depois se dilata em flama ardente
  3. E em mim cintila, qual nos céus estrela.” —
  1. Qual patrão, que de servo diligente
  2. Aprazíveis notícias escutando,
  3. Feito o silêncio, o abraça de contente,
  1. Assim, quando acabei, me abençoando
  2. E cantando, três vezes me acercava
  3. O esplendor apostólico, mostrando
  1. Das respostas que eu dei quanto folgava.
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