JÁ clareava de Titão antigo
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Ao despontar do novo dia Dante adormece e, no sono é transportado por Luzia até a Porta do Purgatório. Aproximam-se da entrada e aqui um anjo abre-lhes a porta, depois de ter gravado na testa de Dante sete PP.
- JÁ clareava de Titão antigo
- A concubina as fímbrias do oriente,
- Deixando os braços do seu doce amigo;
- Era-lhe a fronte de astros refulgente,
- Figura do animal frio formando,
- Que vibra a cauda contra a humana gente.
- No lugar, em que estávamos, se alçando
- Dos passos seus havia a Noite andado,
- E o terceiro ia as asas inclinando,
- Quando eu, tendo o que Adam nos há legado,
- De sono sobre a relva fui vencido,
- Lá onde junto aos quatro era sentado.
- Ante-manhã, na hora, em que gemido
- Triste a andorinha a soluçar começa,
- Talvez na antiga dor pondo o sentido;
- Já não stando da carne mais opressa
- A mente e livre do pensar terreno,
- Quase divina por visões pareça,
- Pairar sonhei que via no ar sereno
- De áureas plumas uma águia, que mostrava
- Querer baixar, das asas pelo aceno.
- Estar eu na montanha imaginava,
- Onde os seus Ganimede abandonara
- Alado à corte excelsa, que o esperava.
- E eu pensava: talvez esta ave rara,
- Caçar aqui soindo, a nédia preia
- Fazer noutros lugares desdenhara;
- A traçar giros vários avistei-a:
- Eis, terrível, qual raio, a mim se envia,
- E lá do fogo à região me alteia.
- Esta águia, então julguei, comigo ardia
- Tanto, que foi o sonho meu quebrado
- Pelo fingido incêndio, que eu sentia.
- Como, acordando, Aquiles espantado
- Ficou por não saber onde se achava
- No lugar aos seus olhos devassado,
- Quando a mãe que a Quíron o arrebatava,
- O transportou a Sciro adormecido,
- Donde astúcia depois lho retirava:
- Assim fiquei ao ser desvanecido
- Das pálpebras o sono, semelhante
- A quem desmaia em cor de horror transido.
- Junto a mim eu só vi naquele instante
- Virgílio; o sol duas horas já media;
- Ao mar tinha eu voltado inda o semblante.
- — “Não teme!” — estas palavras proferia —
- “Sê tranqüilo, o bom porto não mais dista,
- Alarga o coração, não entibia;
- “O Purgatório já daqui se avista.
- Onde a rocha é fendida está a entrada,
- A rocha o cinge e tolhe o aspeto à vista.
- “Ao romper da alva ao dia antecipada,
- Quando no vale em sono eras jazendo
- Sobre a ervinha de flores esmaltada,
- “Eis mostrou-se uma Dama nos dizendo:
- Sou Luzia; pois dorme, vou trazê-lo,
- Leve assim a jornada lhe fazendo —
- “Ficando as nobres almas com Sordelo,
- Tomou-te; e como já raiasse o dia
- Subiu: seguiu seus passos, com desvelo
- “Depôs-te; e por seus olhos me dizia
- Que próxima ali stava a entrada aberta.
- Ela se foi e o sono te fugia.” —
- Como quem stando em dúvida, se acerta,
- Converte o seu temor em confiança,
- Logo em sendo a verdade descoberta:
- Assim me achei mudado. Ele que alcança
- Que esforçado já stou, vai por diante
- Pela altura; o meu passo após avança.
- Vês, leitor, que assunto altissonante
- Se faz; e não estranhes se mais arte
- Mor lustre lhe acrescenta de ora avante.
- Acercamo-nos, pois, da rocha à parte,
- Onde eu antes rotura divisava
- Como em muralha fenda que reparte;
- Ora uma porta e degraus três notava
- Para entrar, cada qual de cor dif’rente,
- E um porteiro que tácito ficava.
- E, de mais perto olhando, claramente
- No mais alto degrau o vi sentado:
- Ofuscava-me a face refulgente.
- Na destra um gládio eu tinha empunhado,
- que tão vivos lampejos refletia,
- Que em vão fitava os olhos deslumbrado.
- — “Parai e respondei-me” — principia —
- “Que intentais? Quem vos guia na jornada?
- Efeitos não temeis dessa ousadia?” —
- — “Dama do céu, de tudo isso inteirada”
- — Falou Virgílio — “disse-nos: — Avante!
- Não longe fica a porta desejada.” —
- — “Seja ela aos vossos passos luz brilhante”
- — Logo beni’no o anjo nos tornava —
- “Aos degraus nossos vinde por diante.” —
- Chegamos: o degrau primeiro estava
- De alvo mármor tão terso, tão polido,
- Que a minha imagem nele se espelhava.
- Era escuro o segundo e não brunido,
- Tosca pedra o formava e calcinada;
- Ao longo a via e de través fendido.
- De pórfiro o terceiro e carregada
- Tinha a cor de vermelho flamejante,
- Qual sangue, que da veia flui rasgada.
- Neste firmava o anjo rutilante
- Os pés, ao limiar sentado estando,
- Que ser me pareceu de um só diamante.
- Tirado por Virgílio vou-me alçando
- Jubiloso. Ele disse — “Humildemente
- Requer, que te abra a porta deprecando.” —
- Aos sacros pés dobrei devoto a frente;
- Misericórdia, vezes três batendo
- Nos peitos, para abrir pedi fervente.
- Da espada a ponta sete PP me havendo
- Na testa aberto, disse o anjo: — “Lava
- Lá dentro estes sinais te arrependendo.” —
- Chaves duas tomou quando acabava,
- De sob as vestes, onde a cor, atento
- De terra seca eu cinzas observava.
- Uma era de ouro, a outra era de argento.
- Primeiro a branca, após a flava aplica
- À porta: foi completo o meu contento.
- — “Se emperrada das duas uma fica
- E não dá volta” — disse — “à fechadura,
- Isto entrada defesa significa.
- “Se mais preço um tem, noutra se apura
- Mais arte para abrir e mais engenho,
- Das molas cede-lhe a prisão mais dura.
- “Mandou Pedro de quem as chaves tenho
- Que em abri-la antes erre que em cerrá-la
- Aos que a exoram com ardente empenho.” —
- Tocando a santa entrada, ainda nos fala:
- — “Penetrai; mas, de agora, vos previno,
- Quem olha para trás pra fora abala.” —
- Os portões já se movem do divino
- Recinto, e os espigões, rangendo, giram
- Nos gonzos de metal sonoro e fino:
- Quando, vãos de Metelo os esforços, viram
- Roubado o erário, com estrondo tanto
- As portas de Tarpéia não se abriram.
- Aos rumores atento, doce canto —
- Te Deum laudamus escutar julgava,
- De conceitos unido ao meigo encanto.
- Ouvindo, em mim a sensação calava,
- Que a voz bem modulada nos motiva,
- Quando com ternos sons de órgão se trava;
- Que uma voz emudece, outra se esquiva.