CHEGADA essa hora, em que o calor diurno
145 versos · 53 de 100
No sono, Dante tem uma visão misteriosa. Acordando, conta-a a Virgílio, o qual a explica. Sobem, depois, os Poetas ao quinto compartimento, no qual se purificam os avarentos, debruçados no chão. Entre eles está o papa Adriano V, Ottobuono de Fieschi, que lhe pede que a recomende à sua sobrinha Alagia.
- CHEGADA essa hora, em que o calor diurno
- Não mais da lua a frigidez aquece,
- Pela terra vencido ou por Saturno,
- Quando ao geomante fúlgida aparece
- A Fortuna Maior lá no Oriente,
- Donde rápida a noite se esvaece,
- Sonhando vi mulher balbuciente,
- Que vesga era nos olhos, nos pés torta,
- De mãos truncadas e de tez palente.
- Eu a encarava; e como o sol conforta
- Os membros a que a noite o frio agrava,
- Ao meu olhar assim a quase morta
- Língua movia; o corpo já se alçava,
- E no terreno e lívido semblante
- A cor, que amor estima, se mostrava.
- Soltando a voz, há pouco titubante,
- Doce canto entoava tão donosa,
- Que me absorvia o enlevo inebriante.
- — “Sereia sou” — cantava — “deleitosa,
- Que da rota desvia os mareantes,
- Tanto prazer lhes movo poderosa.
- “Detiveram meus cantos fascinantes
- Ulisses vago; e raros me deixaram,
- A todos prende o som dos meus descantes.” —
- Junto a mim, mal seus lábios se fecharam,
- Eis se mostrava dama santa e presta:
- A sereia os seus olhos conturbaram.
- — “Dize, ó Virgílio: que mulher é esta?” —
- Bradava irosa; e o Vate lhe acorria.
- Respeitoso ante aquela face honesta.
- Dela a dama travava e prosseguia,
- Seus véus rasgava, o ventre desnudando:
- Desperto ao cheiro infando que saía.
- Olhos abri. Virgílio, me falando:
- — “Três vezes te chamei” — disse — “eia! asinha
- Vamos, o passo onde entres, procurando.” —
- Ergui-me logo. Alumiados tinha
- O dia os círculos todos do alto monte;
- Pelas costas surgindo o sol nos vinha.
- Após o Mestre se me inclina a fronte,
- Como a quem, de cuidados oprimido,
- Curva a cerviz, semelha arco de ponte,
- — “Aqui se passa: vinde!” — proferido
- Foi por voz tão suave, tão beni’na,
- Que não fora igual som na terra ouvido.
- Da rocha entre os dois muros nos desi’na
- Quem falara, o caminho, asas abrindo,
- Que tem do cisne a alvura purpurina.
- Depois as níveas plumas sacudindo,
- — “Os que choram” — bradou — “são venturosos
- De consolo a esperança possuindo!” —
- — “Por que os olhos no chão fitas cuidosos?” —
- O Mestre perguntou, depois que alçou-se
- Voando o anjo aos ares luminosos.
- — “Em recente visão, Senhor, mostrou-se
- Imagem” — respondi — “que tanto instiga
- Que inda a sua impressão não mitigou-se.” —
- — “A mágica” — me disse — “viste antiga,
- Que lá mais alto tanta dor motiva?
- Como o homem viste dela se desliga?
- “Não mais! Avante segue, o alento aviva!
- Olhos volve ao reclamo, com que gira
- Do Rei Eterno cada esfera altiva.” —
- Como faz o falcão, que os pés remira,
- Depois ao grito acode e, acelerado,
- Contra a ralé, que avista, ao ar se atira:
- Assim eu; e por onde era cortado,
- Para trânsito dar ao monte erguido,
- Corri té outro círculo, apressado.
- Tendo ao círculo quinto já subido,
- Jazer vi turba inúmera em lamento:
- Para baixo era o rosto seu volvido.
- “Adhaesit anima mea pavimento” —
- Com tanta dor diziam suspirando,
- Que da voz mal caí no entendimento.
- — “Dizei, de Deus eleitos, que, penando,
- Colheis alívio na justiça e esp’rança,
- Por onde ao cimo iremos caminhando.” —
- — “Se a nossa punição não vos alcança
- E mais pronta quereis ter a subida,
- À direita e por fora que se avança.” —
- Do meu Guia a pergunta respondida
- Foi por uma alma, que adiante estava:
- Ser outra idéia eu cri nisso escondida.
- Então, olhos voltando, interrogava
- Virgílio, que aprovou com ledo gesto
- O desejo, que o rosto denotava.
- Da permissão do Mestre usando presto,
- Daquele ente acerquei-me doloroso,
- Que se fez por palavras manifesto.
- — “Tu, que, expiando as culpas lacrimoso,
- Apressas de te erguer à glória o dia,
- Por mim pára em teu pranto fervoroso.
- “Quem foste? Por que assim jazeis?” — dizia
- “No mundo, donde venho vivo, impetre
- Por teu bem querer cousa da valia?” —
- — “Convém que o teu espírito penetre
- Desta pena a razão; porém primeiro
- Scias quod ego fui sucessor Petri.
- “Do meu solar o título altaneiro
- Origem teve nesse rio belo,
- Que entre Chiaveri e Siestre flui ligeiro
- “Em pouco mais de um mês vi que desvelo
- Custa guardar o grande manto puro:
- Todo outro fardo é pluma em paralelo.
- “Quanto — ai de mim! — de converter fui duro!
- Mas, apenas Pastor em Roma eleito,
- Eu soube quanto mente o mundo impuro.
- “Não gozou paz, nem quietação meu peito;
- Mais alto já subir se não pudera:
- Então da vida eterna ardi no afeito.
- “Minha alma, triste e mísera, perdera
- De Deus o amor em sórdida avareza:
- Esta pena, que vês, bem merecera
- “De tal pecado mostra-se a graveza
- Aqui pelo castigo, em que se expia:
- No monte outro não há de mor asp’reza.
- “Como ao céu nossa vista não se erguia,
- Nas cousas terreais embevecida,
- Assim justiça à terra a prende e lia.
- “Como a avareza em nós tinha extinguida
- A propensão ao bem, aos santos feitos,
- Assim nos tem justiça a ação tolhida.
- “Pés e mãos ata em vínculos estreitos:
- Enquanto a Deus prouver, nós, estendidos,
- Imóveis estaremos nesses leitos.” —
- De joelhos e de olhos abatidos
- Quis falar-lhe; mas ele, conhecendo
- Esse meu ato só pelos ouvidos,
- — “Por que te curvas?” — me atalhou dizendo.
- — “Em reverência à vossa dignidade:
- Cumpro um dever dessa arte procedendo.” —
- — “Ergue-te, irmão! Não erres! Em verdade,
- Eu como tu, e o universo inteiro
- A lei seguimos de uma só vontade.
- “Do Evangelho o sentido verdadeiro
- Que disse — neque nubente — se entendeste,
- Verás o meu pensar quanto é certeiro.
- “Vai-te agora, demais te detiveste.
- Saudável pranto empece a tua estada:
- Perdão apressam lágrimas, disseste.
- “Sobrinha tenho, Alagia foi chamada:
- É boa, se da raça tão funesta
- Não pervertê-la a tradição danada.
- Somente esta no mundo ora me resta.” —