DA descida era o passo tão fragoso
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O Minotauro está de guarda ao sétimo círculo. Vencida a ira dele, chegam os Poetas ao vale, em cujo primeiro compartimento vêem um rio de sangue fervendo, no qual são punidos os que praticaram violências contra a vida ou as coisas do próximo. Uma esquadra de Centauros anda em volta do paul vigiando os condenados, frechando-os se tentam sair do rio de sangue. Alguns desses Centauros pretendem deter os Poetas, porém Virgílio os domina, conseguindo que um deles os escolte e transporte na garupa a Dante. Na passagem o Centauro, que é Nesso, fala a respeito dos danados que sofrem a pena no rio de sangue.
- DA descida era o passo tão fragoso
- E tal por quem lá estava à guarda e atento,
- Que se fazia à vista pavoroso.
- Como a ruína, que daquém de Trento,
- O Ádige feriu, por terremoto
- Ou por faltar de chofre o fundamento;
- Do viso ao val do monte, que foi roto,
- Tão derrocada vê-se a penedia,
- Que a descê-la o caminho é quase imoto.
- A ribanceira assim nos parecia.
- E à borda do penedo fracassado
- De Creta o monstro infame se estendia,
- Da falsa vaca torpemente nado.
- Apenas viu-nos, se mordeu fremente,
- Como quem pela raiva é devorado.
- “Cuidas” — bradou-lhe o sábio incontinente —
- “Ser de Atenas o príncipe, o que à morte
- Lá sobre a terra te arrojou valente?
- “Arreda, bruto! Que este é de outra sorte;
- Da tua irmã não recebera ensino;
- De vós outros vem ver a pena forte”.
- Qual touro desprendido, quando o tino
- Mortal golpe lhe rouba, que não pode
- Correr, mas salta a vacilar mofino:
- Assim o Minotauro. O Mestre acode
- Dizendo-me: “Demanda presto a entrada
- E desce, enquanto em vascas se sacode”. —
- A quebrada descíamos formada
- De pedras soltas; cada qual, movida,
- Cedia, em sendo por meus pés calcada.
- E eu cismava. Ele disse: — “Tens sorvida
- A mente na ruína, que do horrendo
- Monstro a ira defende já vencida.
- “Deves saber que, de outra vez descendo
- Até o extremo lá do baixo inferno,
- Esta rocha não vi, como a estás vendo,
- “Mas, pouco antes de vir se bem discerno,
- Aquele que há tomado a grande presa,
- A Dite, lá no círculo superno,
- “Deste val tremeu tanto a profundeza,
- Que sentisse pensei todo o universo
- O amor, com que alguém diz ter certeza
- “De que ao caos muita vez será converso.
- Foi aqui, noutras partes, nesse instante,
- Roto o velho penhasco em treva imerso.
- “Mas olha o vale: o rio é não distante
- De sangue, onde verás fervendo aquele,
- Que violência exerceu no semelhante.
- “Ó ira louca, ó ambição, que impele
- Na curta vida nossa, ao inferno arrasta
- E para sempre nos submerge nele!” —
- Eis uma cava divisei mui vasta,
- Que abrangia, arqueada, o plano inteiro,
- Como dissera quem do mal me afasta.
- No espaço, a que o penhasco é sobranceiro,
- Centauros correm, setas agitando,
- Como soíam no viver primeiro.
- Descer nos vendo, pára o ardido bando.
- Três de entre eles então nos demandaram,
- Os arcos e arremessos preparando.
- Os brados de um de longe nos soaram:
- — “Vós, que desceis, dizei a pena vossa;
- De lá falai, ou tiros se disparam!” —
- Virgílio respondeu: — “Resposta nossa
- Terá Quiron de perto, sem demora.
- Sempre te dana a pressa que te apossa”. —
- Tocou-me e disse: — “Quem nos fala agora
- É Nesso, o que morreu por Dejanira;
- Mas se vingou de quem fatal lhe fora.
- “Esse do meio, que o seu peito mira,
- Aio de Aquiles, é Quiron famoso;
- Esse outro é Folo, sempre aceso em ira”. —
- Aos mil em volta ao rio sanguinoso
- As almas seteavam, que excediam,
- Mais do que é dado, o líquido horroroso.
- Àqueles monstros que ágeis se moviam,
- Chegamo-nos. Quiron com seta ajeita
- Os cabelos, que os lábios lhe encobriam.
- Quando desta arte a larga boca afeita,
- Disse à companha: — “Haveis já reparado
- Que move aquele tudo, em que os pés deita?
- “Nunca assim pés de morto hão caminhado”.
- O Guia meu, que junto já lhe estava
- Do peito, onde era um ser noutro enleado,
- — “Vivo está, vem comigo” — lhe tornava —
- “A visitar o val maldito, escuro
- Para cumprir dever, que lho ordenava.
- “Deixando de cantar o hosana puro
- Alguém me há cometido o cargo novo.
- Não é ladrão, nem eu esp’rito impuro:
- Em nome do poder, por quem eu movo
- Os passos meus em tão medonha estrada,
- Envia algum, que escolhas no teu povo,
- “Por nos mostrar a parte acomodada
- Ao vau, e no seu dorso haver transporte
- Quem não é sombra ao vôo aparelhada”.
- Quiron volveu-se à destra e a Nesso forte
- — “Torna atrás” — disse — “e serve-lhes de guia:
- Que outro bando o caminho lhes não corte!” —
- Já partimos na fida companhia,
- As ondas costeando rubras, quentes,
- Donde agudo estridor ao ar subia.
- Té os cílios no sangue os padecentes
- Eu vi. Disse o Centauro: — “São tiranos
- Truculentos e em roubo preminentes.
- “Chora-se aqui por feitos desumanos.
- Alexandre aqui está, Dionísio antigo
- Que gemer fez Sicília tantos anos.
- “De negra coma, aqui sofre o castigo
- Azzolino; e o que está, louro, ao seu lado
- Obizzio d’Este, ao qual (verdade eu digo)
- “Roubara a vida o pérfido enteado”. —
- E o Vate, a quem voltei-me, assim dizia:
- — “O segundo lugar me é reservado”. —
- Pouco além parou Nesso: olhar queria
- Uma turba, que, estando submergida,
- Toda a cabeça para fora erguia,
- Disse, indicando uma alma retraída:
- “Perante Deus um coração ferira,
- Que inda Londres venera estremecida”. —
- A cabeça vi de outros, que subira
- Do rio à superfície e o inteiro busto,
- Suas feições no mundo eu distinguira:
- Ia baixando o sangue até que a custo
- Os pés cobria a quem passar quisesse:
- O fosso ali vencemos já sem custo.
- “Se desta parte o borbulhão parece
- Do rio escassear, eu te asseguro”
- — Disse Nesso — “que mais engrossa e desce
- “Na parte oposta até juntar-se ao escuro
- Pego em que, como hás visto, a tirania
- As penas dá no seu tormento duro.
- “A divina justiça lá crucia
- Esse Átila, que açoite foi da terra,
- Pirro e Sexto; e redobrar-se a agonia
- “Dos dois Renatos, que tamanha guerra
- Fizeram nas estradas, salteando,
- — O Pazzo e o de Corneto”. — E a fala cerra.
- Voltou depois do rio o vau passando.