FOLGA, ó Florença! A fama tens tão grande
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Chegando os Poetas ao oitavo compartimento, distinguem infinitas chamas, dentro das quais são punidos os maus conselheiros. Numa chama bipartida estão Diômedes e Ulisses. Este último, a pedido de Dante, narra a sua última navegação, na qual perdeu a vida com os seus companheiros.
- FOLGA, ó Florença! A fama tens tão grande,
- Que asas bates por terra e mar, vaidosa!
- Até no inferno o nome teu se expande!
- Entre os ladrões, ó cousa vergonhosa!
- Principais cinco achei, que em ti nasceram:
- Serás por honra tal, vangloriosa?
- Se os veros sonhos por manhã se geram,
- Em breve hás de sentir o que os de Prato,
- Quanto mais outros, por teu dano esperam.
- Presto que venha, será tarde o fato;
- Se o mal tem de ferir, fira apressado:
- Mais velho me há de ser mais grave e ingrato.
- Partimos: do rochedo alcantilado
- Os degraus, em que havíamos descido,
- Sobe o Mestre e por ele eu fui levado.
- Em nosso ermo caminho e desabrido
- Prosseguimos por entre agras fraguras,
- Pelas mãos sendo o pé favorecido.
- Inda nalma exacerbam-se amarguras,
- Do que hei visto lembranças avivando;
- E, quanto posso, o coração nas puras
- Veredas da virtude vou guiando,
- Por que o bem, por bom astro ou Deus doado,
- Eu próprio não converta em mal nefando.
- O rústico, no outeiro reclinado,
- Na estação, em que o sol o mundo aclara,
- Mais lhe mostrando o seu semblante amado,
- Já quando a mosca o sucessor depara,
- Pririlampos não vê tão numerosos
- No vale, onde vindima, ou ceifa ou ara,
- Quando, no fosso oitavo, os temerosos
- Fogos, que avisto, dos que, ao cimo alçado,
- Fito no fundo os olhos curiosos.
- Como aquele que de ursos foi vingado,
- Quando voou de Elia o carro ardente,
- Ao céu por frisões ígneos transportado,
- Seguiu c’a vista o lume, que somente
- Dos ares na extensão aparecia,
- Qual nuvens se elevando velozmente;
- Assim naquele abismo se agitando
- As flamas via; em cada qual estava
- Uma alma, em seus fulgores se ocultando.
- Para ver, lá da ponte, me inclinava:
- Se amparado da rocha eu não stivesse,
- Tombara ao fundo dessa hiante cava.
- O Mestre, ao ver que a mente se embevece,
- “Em cada fogo” — diz-me — “um condenado,
- Como em hábito, envolto, arde e padece”.
- “Sou, te ouvindo” — tornei — “certificado
- Do que era, há pouco, em mim simples suspeita.
- Pretendia inquirir, maravilhado,
- Que significa o fogo, que endireita
- A nós, e se partindo, iguala a pira,
- Para imigos irmãos outrora feita”.
- — “Estão lá dentro dessa flama dira
- Diômedes e Ulisses: em castigo
- Sócios são, como outrora hão sido em ira.
- “Lá dentro geme o pérfido inimigo,
- Inventor do cavalo, que foi porta,
- Por onde a Roma veio o início antigo;
- “Chora-se a fraude, que Deidamia morta,
- Ainda exprobra a Aquiles, ressentida;
- Pelo Paládio a pena se suporta”.
- “Se à labareda, ó Mestre, é permitida
- A fala” — eu disse — “te suplico e rogo
- Com instância, mil vezes repetida,
- “Aguardar me concedas esse fogo,
- Que, bipartido para nós caminha.
- Vês meu anelo: ah! dá-lhe o desafogo!”
- “Merece toda a complacência minha
- Teu rogo: eu de bom grado o atendo e aceito.
- Mas cala-te; que hás de ser contente asinha.
- “Falar me deixa; sei qual teu conceito,
- Talvez que desses Gregos na alma esquiva
- Produza o teu dizer ingrato efeito”.
- Propínqua estando a nós a flama viva,
- E, asado ao Mestre, parecendo o ensejo,
- Nesta linguagem disse persuasiva:
- “Ó vós, que nesse fogo eu juntos vejo,
- Se por serviços meus, quando vivia,
- Revelei de aprazer-vos o desejo,
- “Nos sonoros versos que escrevia,
- Detende-vos: benévolo um nos diga
- Onde viu fenecer o extremo dia”.
- A parte superior da flama antiga
- A tremular começa murmurando,
- Como a que o vento lhe assoprando instiga.
- E a um lado e a outro o cimo meneando,
- Como se língua fora, que falasse,
- Estas vozes profere, e diz-nos: “Quando
- “De Circe a encantos me esquivei fugace,
- Em que um ano passei junto a Gaeta,
- Antes que assim Enéias a chamasse,
- “A saudade do filho, a mui dileta
- Velhice de meu pai, de alta consorte
- Santo amor, em que ardia sempre inquieta,
- “Não dominaram esse anelo forte
- Que me impulsava a ser do mundo esperto,
- Das manhas das nações, da humana sorte.
- “Lancei-me às vagas do alto mar aberto;
- Sobre um só lenho me seguiu companha
- De poucos, mas de afouto peito e certo.
- “As ondas perlustrando, hei visto a Espanha,
- Marrocos, logo a ínsula dos Sardos
- E as outras que o cerúleo pego banha.
- “Já da velhice nos sentidos tardos,
- Alfim chegamos ao famoso estreito,
- Onde Alcides aos nautas pôs resguardos,
- “Que devem respeitar por seu proveito.
- Deixei Septa, que jaz ao esquerdo lado,
- E Sevilha, que ao lado está direito.
- “Perigos mil vencendo e avesso fado”
- Lhes disse — “irmãos, chegastes ao Ponente!
- Da existência este resto, já minguado,
- “Razão não seja, que vos tolha a mente
- De além do sol, tentar nobre aventura,
- E o mundo ver, que jaz órfão de gente.
- “Da vossa raça refleti na altura!
- Viver quais brutos veda-o vossa origem!
- De glória vos impele ambição pura!
- “Com tanto esforço os ânimos se erigem,
- Falar me ouvindo assim, que ir por diante
- De entusiasmo sôfregos, exigem.
- “Já, com popa ao Nascente flamejante,
- Asas os remos são na empresa ousada,
- E o lenho sempre à esquerda voga avante.
- “Já do outro polo a noite levantada,
- Via os astros brilhar: o nosso, entanto,
- Na planície imergia-se salgada:
- “Cinco vezes a luz do etéreo manto
- A lua difundira e após minguara,
- Depois que arrosto do oceano o espanto,
- “Quando imensa montanha se depara:
- Envolta em cerração, longe aparece;
- Na altiveza outra igual nunca avistara.
- “O prazer nosso em pranto se esvaece:
- Da nova terra eis súbito irrompendo
- Contra o lenho um tufão medonho cresce.
- “Vezes três em voragens o torcendo,
- A quarta a popa levantou-lhe ao alto,
- E a proa, ao querer de outrem, foi descendo”.
- Cerrou-se o pego sobre nós de salto.