À GLÓRIA de quem tudo, aos seus acenos
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Invocando Apolo, o Poeta conta como do Paraíso Terrestre ele e Beatriz se alçaram ao Céu, atravessando a esfera do fogo. Beatriz explica-lhe como possa vencer o próprio peso e subir. É atraído pelo invencível amor. Seguindo as teorias de Ptolomeu, Dante põe a terra imóvel no centro do Universo e, em redor dela, em órbitas concêntricas, os céus da Lua, de Mercúrio, de Vênus, do Sol, de Marte, de Júpiter, de Saturno, a oitava esfera, que é a das estrelas fixas, a nona, ou primeiro móvel, e finalmente o Empíreo, que é imóvel. Transportado pela força que faz rodar os céus e pela luz sempre crescente de Beatriz, Dante eleva-se de um céu para outro, e em cada um deles aparecem-lhe os espíritos bem-aventurados que, quando vivos, possuíram a virtude própria do respectivo planeta.
- À GLÓRIA de quem tudo, aos seus acenos,
- Move, o mundo penetra e resplandece,
- Em umas partes mais em outras menos.
- No céu onde sua luz mais aparece,
- Portentos vi que referir, tornando,
- Não sabe ou pode quem à terra desce;
- Pois, ao excelso desejo se acercando,
- A mente humana se aprofunda tanto
- Que a memória se esvai, lembrar tentando.
- Os tesouros, porém, do reino santo,
- Que arrecadar-me pôde o entendimento,
- Serão matéria agora de meu canto.
- Faz-me neste final cometimento,
- Bom Febo, do teu estro eleito vaso,
- Que tenha ao louro amado valimento.
- Fora-me assaz um cimo do Parnaso;
- Daquele e do outro necessito agora
- Para vencer na liça a que me emprazo.
- Cala em meu peito, alenta o que te exora!
- Sê como quando a Marsias arrancado
- Hás do corpo a bainha protetora!
- Se, divinal virtude, eu for entrado
- Tanto de ti, que a sombra represente
- Do reino que em minha alma está gravado,
- Ao teu querido lenho eu, diligente,
- Irei, por ter a c’roa merecida
- De ti e deste assunto preminente.
- Tão rara vez é, Padre, igual colhida
- Quando triunfa César ou poeta
- (Culpa e vergonha do querer nascida)
- Que à Délfica Deidade a predileta
- Fronde excitar devera alta alegria,
- Se um coração por tê-la se inquieta.
- Grande incêndio em centelha principia;
- Voz, após mim, talvez, mais eloqüente
- Mais graça em Cirra alcance e mais valia!
- Por várias portas surge refulgente
- A lâmpada do mundo; mas daquela,
- Onde orbes quatro brilham juntamente
- Com três cruzes, caminha sob estrela
- Melhor, em modo que a mundana cera
- Mais ao seu jeito retempera e assela.
- Dali nascia a luz; daqui viera
- A noite; e um hemisfério branquejava
- Enquanto ao outro a treva enegrecera,
- Eis vi que à esquerda Beatriz fitava
- Olhos no sol: jamais águia afrontara
- Tanto desse astro o lume, que ofuscava.
- Como o raio, que a luz de si despara,
- Reflete outro, que preito retrocede,
- Qual romeiro, que à volta se prepara,
- Esse ato, com que assim Beatriz procede,
- Meu se tornou nos olhos infundido,
- E o fitei mais que a um homem se concede.
- Muito do que é na terra defendido,
- No Paraíso é dado à humana gente,
- A quem fora por dote prometido.
- Fitar o sol não pude longamente.
- Mas assaz para o ver fulgir no espaço,
- Qual ferro, que do fogo sai candente.
- Eis cuidei ver um dia, ao mesmo passo,
- Luzir com outro, qual se Deus fizera
- Do céu um sol segundo no regaço.
- Sorvidos Beatriz na eterna esfera
- Os olhos tinha; os meus que eu desviara
- Dali no seu semblante embevecera.
- Contemplando-a, o meu ser se transformara;
- Tal Glauco, portentosa erva comendo,
- Igual do mar aos Deuses se tornara.
- Significar per verba não podendo
- O que é transumanar o exemplo baste
- Ao que o exp’rimente, a graça recebendo.
- De ti, que por teu lume me exaltaste,
- Amor do meu Senhor é conhecido,
- Se em mim somente havia o que criaste.
- Quando as Sferas, no giro, conduzido
- Por ti no eterno anelo, me enlevaram
- Com hino ao teu compasso dirigido,
- Tantos etéreos plainos se mostraram
- Inflamados do sol, que nunca os rios,
- Nem as chuvas um lago igual formaram.
- Essa luz, esses sons (jamais ouvi-os)
- De saber tais desejos me acenderam
- Que tão pungentes de antes não senti-os.
- Ela em meu coração os viu como eram:
- Por serenar-me o ânimo agitado,
- Sem me escutar, seus lábios se moveram,
- E disse: — “O teu espírito anda errado
- Com falso imaginar: ’starias vendo
- O que não vês, se houveras afastado.
- “Te enganas, sobre a terra achar-te crendo:
- O raio tão veloz do céu não desce,
- Como tu que p’ra o céu vais ascendendo.” —
- Se a dúvida primeira desaparece,
- À voz que o riso segue, lhe escutando,
- Inda mais outra a mente me escurece.
- — “Modera-se o meu pasmo” — lhe tornando
- Falei — “mas ora muito mais me admira
- Como estes corpos leves vou passando.” —
- Ouvindo, Beatriz terna suspira
- E me encara piedosa, com semblante
- De mãe que fala ao filho que delira.
- — “Conservam” — respondeu-me — “ordem constante
- As cousas entre si: esta é a figura
- Que o universo ao Senhor faz semelhante.
- “Ali vê cada uma alta criatura
- Do Poder Sumo, bem ao claro, o selo,
- Alvo sublime, que essa lei procura.
- “Cada um entre na ordem, que eu revelo,
- Se vai por modos vários inclinando,
- Mais ou menos, ao seu princípio belo.
- “Para portos dif’rentes navegando
- No vasto mar do ser, cada qual segue
- Os instintos que Deus lhe deu, criando.
- “Por Ele a flama à lua alar consegue,
- Por Ele o coração mortal se agita
- E a terra em sua contração prossegue.
- “Seu poder não somente se exercita,
- Qual arco em seta, em bruto inconsciente,
- Mas nos entes, que amor, razão concita.
- “Tudo ordenando, o Autor Onipotente
- Com sua luz tem o céu sempre aquietado,
- Em que gira o que vai mais velozmente.
- “Até lá, como a um alvo decretado,
- Desse arco impele a força poderosa,
- Quem conduz tudo a venturoso estado.
- “Mas, como, às mais das vezes, revoltosa
- A forma não responde ao intento da arte,
- Porque a matéria é na surdez teimosa,
- “Assim desta vereda se desparte
- A criatura, para o bem guiada,
- Que pode propender para outra parte,
- “Se, de falso prazer sendo arrastada,
- Baixa à terra, qual fogo desprendido,
- De súbito, da nuvem carregada.
- “Não seja mais de espanto possuído:
- Como ao val rio cai de monte altivo,
- Para a esfera estelífera és erguido.
- “De maravilha fora em ti motivo
- Não subindo; pois stás de estorvo isento;
- Não fica imoto em terra o fogo vivo.” —
- Disse e os olhos fitou no firmamento.