COMO, quando os primeiros raios vibra
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Para chegar à escada que do sétimo e último compartimento leva ao cimo do monte, Dante é obrigado por um Anjo a atravessar as flamas. Pouco depois de ter começado a subir, o ar escurece e sobrevém a noite. Param e Dante, cansado, adormece. Despertado pela madrugada, os Poetas recomeçam a subir, chegando ao Paraíso Terrestre.
- COMO, quando os primeiros raios vibra
- Lá onde Cristo sangue derramara,
- Sotopondo-se o Ebro à excelsa Libra,
- E, ao meio-dia, o Gange aquece e aclara
- Stava o sol; declinando a luz já se ia:
- Eis ledo o anjo de Deus se nos depara.
- Fora da flama, à borda ele se erguia,
- Beati mundo corde modulando.
- Em tom de voz, que a humana precedia.
- “Para avante passar” — acrescentando —
- “Apurai-vos no fogo, almas piedosas!
- Entrai, de além nos hinos atentando.”
- Lhe ouvindo ao perto as vozes sonorosas,
- Sossobrei, como quem, perdido o alento,
- Da tumba às trevas desce pavorosas.
- Mãos cruzadas, quedei sem movimento;
- De olhos na chama, os vivos relembrava,
- Que das fogueiras vira no tormento.
- A mim cada um dos Vates se voltava.
- — “Não temas, filho! Aqui dor se padece,
- Mas não morte” — Virgílio me exortava.
- “Lembra! Lembra ou memória em ti falece?
- Já sobre Gerião levei-te a salvo:
- De Deus mais perto, em mim virtude cresce.
- “Se destas chamas, crê, tu foras alvo
- Em todo o espaço de um milheiro de anos,
- De um só cabelo ficarias calvo.
- “Se cuidas no que digo haver enganos,
- Te acerca e por ti próprio experimenta,
- Ao fogo expondo de tua veste os panos.
- “Todo o temor do ânimo afugenta!
- Vem, pois! Mostra que tens peito seguro!” —
- Ouvi, mas o valor meu não se aumenta.
- Vendo-me ainda pertinace e duro,
- Merencório me disse: — “Ó filho amado,
- De Beatriz a ti só este muro!” —
- De Tisbe ao nome, Píramo chegado
- À morte, os olhos para vê-la abria,
- Quando há seu sangue à amora cor mudado;
- A resistência minha assim cedia.
- A Virgílio volvi-me, o nome ouvindo,
- Que sempre o pensamento me alumia.
- Então a fronte meneou; sorrindo,
- Como a infante, que um pomo há seduzido,
- Disse: — “Aqui ficaremos persistindo?” —
- Sou por ele no fogo antecedido;
- Estácio, que antes sempre caminhara,
- Depois de mim seguia a seu pedido.
- Eu pelo fogo apenas penetrara,
- Ardor tanto senti, que, pra recreio,
- Em vidro derretido me lançara.
- De confortar-me procurando o meio,
- De Beatriz Virgílio assim falava:
- — “Seu gesto julgo ver de fulgor cheio.” —
- Voz peregrina ouvi, que ali cantava:
- Fora saímos nós, dos sons guiados,
- Na parte, onde a subida se mostrava.
- — “Vinde, ó vós de meu Pai abençoado!” —-
- Do seio de um luzeiro retinia,
- Tal que os olhos cerram-se ofuscados.
- “Transmonta o sol, a noite segue ao dia,
- Não vos detende; a passo andai ligeiro,
- Que o Ponente já trevas anuncia.” —
- A trilha no penhasco sobranceiro
- Direita sobe à parte em que tolhia
- A sombra minha o lume derradeiro.
- Vencido apenas nosso passo havia
- Alguns degraus, a sombra, que fenece,
- Mostra que o sol já luz não difundia.
- Antes que em todo apresentado houvesse
- O imenso horizonte igual aspeito,
- E a noite os seus véus todos estendesse,
- Um degrau cada qual tomou por leito;
- Que nos tirara da montanha a agrura,
- Mais que o desejo de subir o jeito.
- Como as cabras das penhas sobre a altura,
- Antes de fartas, rápidas e ardentes,
- Têm, ruminando, mansidão, brandura;
- Pousam à sombra, enquanto o sol candentes
- Lumes despede, e as guarda o pegureiro
- Com seu cajado e os olhos previdentes;
- E como o guardador, que no terreiro
- Quedo pernoita em sentinela aos gados
- Contra assaltos do lobo carniceiro:
- Assim nós três estávamos pousados,
- Eu como cabra, os Vates quais pastores,
- Da rocha a um lado e a outro conchegados.
- Escassa aberta deixa ver fulgores
- De estrelas, que do céu naquela parte,
- Contemplava mais lúcidas, maiores.
- Nessa vista engolfei-me por tal arte,
- Que o sono me prendeu, sono que à mente
- Do que há de ser a provisão comparte.
- Naquela hora em que Vênus do Oriente
- Seus lumes sobre o monte difundia,
- Parecendo de amor star sempre ardente,
- Jovem formosa em sonho ver eu cria,
- Dama que em veiga amena passeando,
- Flores colhendo, a modular dizia:
- — “Quem meu nome pedir, vá me escutando:
- Sou Lia e uma grinalda, cuidadosa,
- Co’as minhas belas mãos a tecer ando.
- “Mirar-me, hei-de no espelho mais garbosa:
- De sua mana, Raquel se não separa,
- Sentada o inteiro dia descuidosa.
- “De ver os belos olhos seus não pára,
- Como eu em me adornar sou diligente:
- Ela contempla, eu trabalhar tornara!”
- Já vem do dia o precursor splendente,
- Que tanto alenta a esp’rança ao peregrino,
- Quando o seu lar já próximo pressente.
- Fugia a treva ao lume matutino
- — E com ela o meu sono: ergui-me ativo,
- Dos mestres tendo no exemplo o ensino.
- — “O pomo, que é tão doce, quanto esquivo,
- Que a ambição dos mortais procura ansiosa,
- Hoje à fome há de dar-te o lenitivo.” —
- Estas palavras proferiu donosa
- Do Mestre a voz: janeiras não dariam
- Jamais satisfação tão graciosa.
- Tão vividos anelos me pungiam
- De alar-me ao cimo excelso, que julgava
- Que asas o passo meu favoreciam.
- Quando a comprida escada terminava
- E o pé firmamos no degrau superno,
- Virgílio, me encarando, assim falava:
- — “O fogo temporário e o fogo eterno
- Tens visto, filho, e a altura hás atingido.
- Além de cuja extrema não discerno:
- “Te hei com engenho e arte conduzido:
- Seja-te agora o teu querer o guia;
- Angústias e fraguras tens vencido.
- “Olha: o semblante o sol já te alumia;
- Flores, ervinhas, árvores virentes
- Vê que a terra espontânea brota e cria.
- “Antes que os olhos venham refulgentes,
- Que em teu prol me enviaram por seu pranto,
- Repousa, ou pelos prados vai florentes.
- “Não mais te falo, nem te aceno, entanto;
- Possuis vontade livre, reta e boa,
- Cumpre os ditames seus: a ti, portanto,
- Pois de ti és senhor, dou mitra e c’roa.