FORMA assumindo de uma branca rosa
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Enquanto Dante contempla a rosa do Paraíso, Beatriz sobe e vai ocupar o lugar que lhe pertence, no meio dos bem-aventurados. S. Bernardo é o último guia de Dante. Ele lhe indica a Virgem Maria, toda brilhante de luz celeste.
- FORMA assumindo de uma branca rosa,
- Tinha ante os olhos a milícia santa,
- Que em seu sangue fez Cristo sua Esposa.
- A outra, que, adejando, vê, decanta
- Do Onipotente a glória, que a enamora,
- E a bondade, que deu-lhe alteza tanta,
- Bem como abelhas, cujo enxame agora
- Nas flores se apascenta, agora torna
- À colmeia, onde os favos elabora,
- Descia à flor imensa que se adorna
- De folhas tantas, e depois subia
- Ao centro, onde o amor seu sempre sojorna.
- Nas faces viva flama refulgia,
- Nas asas ouro, em tudo mais alvura,
- Que a candidez da neve escurecia.
- De sólio em sólio entrando na flor pura
- E as asas agitando, derramavam
- Ardor e paz, colhidos lá na altura.
- As multidões aladas, que giravam,
- Ao Senhor se interpondo e à flor brilhante,
- Nem vista, nem splendores atalhavam,
- Que a luz divina cala penetrante
- No universo, segundo ele merece;
- Nada lhe empece o brilho triunfante.
- O gaudioso império, onde aparece
- A par da grei antiga a grei recente
- De olhos, de amor num fito se embevece.
- Trina luz, que, num astro unicamente,
- Fulgindo, alma lhes tens inebriada,
- Conosco nas procelas sê clemente!
- Se os Bárbaros, da terra enregelada
- Vindos, que Hélice cobre cada dia
- No seu giro, do filho acompanhada,
- A pompa ao ver, que a Roma enobrecia,
- Pasmavam, quando já Latrão famoso
- Do mundo as maravilhas precedia;
- Da terra eu ido ao trono luminoso,
- Exalçado do tempo à eterna vida
- E de Florença ao reino virtuoso,
- Quanto havia de ter a alma transida!
- Nem ouvir, nem falar apetecera:
- Tanta alegria ao passo estava unida!
- Bem como o peregrino considera
- O templo, a que seu voto o conduzira,
- E o que vê recontar, tornando, espera,
- Na ardente luz a minha vista gira
- De degrau em degrau, e agora acima,
- Abaixo logo e em derredor remira.
- Rostos eu vi, que a caridade anima
- Com lume divinal; seu doce riso
- Por suave atrativo se sublima.
- Sem deterem-se mais do que o preciso,
- Os olhos meus haviam rodeado
- Em sua forma geral o Paraíso:
- Vivo desejo em mim stando ateado,
- A Beatriz voltei-me; ter queria
- A solução do que era inexplicado
- Ao que eu pensava o oposto respondia:
- Nos gloriosos trajos de um eleito,
- Em vez de Beatriz, um velho eu via.
- Nos olhos transluzia-lhe e no aspeito
- Alegria beni’na e o continente
- De pai era, à ternura sempre afeito.
- — “E Beatriz?” — exclamo eu de repente.
- Tornou-o: — “Baixar me fez do meu assento
- Por contentar o teu desejo ardente.
- “Verás, do cimo ao círc’lo tércio atento,
- Beatriz nesse trono colocada,
- Que lhe há dado imortal merecimento.” —
- Olhos alçando, à Dama sublimada,
- Divisei que de c’roa era cingida,
- Da eterna luz, em refração, formada.
- Da região etérea a mais subida
- Vista mortal, no pego profundando,
- De tão longe não fora dirigida,
- Como olhos meus, em Beatriz fitando.
- Via-a, porém: a efígie livremente
- Descia a mim do vulto venerando.
- — “Senhora! Esp’rança minha permanente!
- Que não temeste, por me dar saúde,
- Teus vestígios deixar no inferno horrente!
- “De tantas cousas, quantas eu ver pude
- Ao teu grande valor e alta bondade
- A graça referir devo e virtude.
- “Sendo eu servo, me deste a liberdade,
- Pelos meios e vias conduzido,
- De que dispunha a tua potestade.
- “Seja eu do teu valor fortalecido,
- Porque minha alma, que fizeste pura
- Te agrade ao ser seu vínculo solvido.” —
- Desta arte orei. Lá da sublime altura,
- Em que estava sorrindo-se encarou-me;
- Depois voltou-se à eterna Formosura.
- — “Por chegares” — o velho assim falou-me —
- “Ao termo da jornada, como anelas,
- A que seu rogo e santo amor mandou-me,
- “Teus olhos voem pelas flores belas:
- Eles mais hão-de se acender, no esguardo
- Para alçar-se ao divino raio, em vê-las.
- “E a Rainha do céu, por quem eu ardo
- Cheio de amor, nos há de ser beni’na,
- Pois sou seu servo, o seu fiel Bernardo.” —
- Como quem da Croácia se destina
- A ver Santo Sudário em romaria,
- Por fama antiga da feição divina;
- Devoto a contemplar se não sacia,
- Dizendo em si: “ó Jesus! meu Deus piedoso!
- Tal o semblante vosso parecia!”
- Assim notei o afeito caridoso
- Daquele, que em seus êxtases no mundo
- A paz celeste prelibou ditoso.
- — “Filho da graça, este viver jucundo
- Ser-te não pode” — prosseguia — “noto,
- Se os olhos teus não alças cá do fundo.
- “Dos círculos atenta ao mais remoto:
- Lá no trono a Rainha está sentada;
- Seu reino, o céu, lhe é súdito e devoto.” —
- O rosto ergui. Bem como na alvorada
- A parte, em que o sol nasce no horizonte
- Excede a que franqueia à noite entrada,
- Assim, quase a subir de vale a monte,
- No píncaro eminente parte eu via
- Vencer em lume a qualquer outra fronte.
- Como lá donde espera-se do dia
- O carro, que perdeu Fetonte, a flama
- Aumenta e noutros pontos se embacia,
- Assim essa pacífica oriflama
- Se avivava no meio; e a cada lado
- Por modo igual se enfraquecia a chama.
- De milhares o centro rodeado
- Stava de anjos voando como em festa,
- Cada um na arte e no brilho assinalado.
- De os ver e ouvir contento manifesta
- A Beldade: que extremos de alegria
- A outros santos nos seus olhos presta.
- Se eu tivera opulenta fantasia
- E a eloqüência não menos, desse encanto
- Um só traço exprimir não poderia.
- No vivo lume e ao ver Bernardo quanto
- Os meus olhos, absortos, se fitavam,
- Volveu-lhe os seus, acesos de ardor tanto,
- Que a mais fervor meu êxtase enalçavam.