“VIRGEM Mãe, por teu Filho procriada
145 versos · 100 de 100
S. Bernardo pede à Virgem Maria que conceda a Dante contemplar a Deus. O Poeta vê um tríplice círculo no qual está revelada a Trindade divina. No círculo médio vê figurada a efígie humana. No espírito de Dante se forma o desejo de conhecer o modo da união da natureza divina com a humana. Um repentino esplendor lhe revela o mistério da encarnação de Cristo; e aqui termina a sublime visão.
- “VIRGEM Mãe, por teu Filho procriada,
- Humilde e sup’rior à criatura,
- Por conselho eternal predestinada!
- “Por ti se enobreceu tanto a natura
- Humana, que o Senhor não desdenhou-se
- De se fazer de quem criou, feitura.
- “No seio teu o amor aviventou-se,
- E ao seu ardor, na paz da eternidade,
- O germe desta flor assim formou-se.
- “Meridiana Luz da Caridade
- És no céu! Viva fonte de esperança
- Na terra és para a fraca humanidade!
- “Há tal grandeza em ti, há tal pujança,
- Que quer sem asas voe o seu anelo
- Quem graça aspira em ti sem confiança.
- “Ao mísero, que roga ao teu desvelo
- Acode, e, às mais das vezes, por vontade
- Livre, te praz sem súplica valê-lo.
- “Em ti misericórdia, em ti piedade,
- Em ti magnificência, em ti se aduna
- Na criatura o que haja de bondade.
- “Esse mortal, que da ínfima lacuna
- Do mundo até o empíreo, passo a passo,
- Viu quanto a vida esp’ritual reuna,
- “Te exora auxílio ao seu esforço escasso:
- A mente sublunar lhe seja dado
- A Suma Dita no celeste espaço.
- “Eu que, no meu ardor, nunca aspirado
- Hei mais por mim o que em prol dele peço
- Meus rogos todos alço esperançado.
- “Te digna conseguir que o véu espesso
- Da humanidade sua despareça,
- E assim lhe seja o Sumo Bem concesso.
- “Depois da alta visão dá que ainda eu peça
- Que conserves, Rainha Onipotente,
- Sempre pura sua alma e ao mal avessa.
- “De perversas paixões guarda-o clemente:
- Vê Beatriz e o céu inteiro unidos,
- Juntando as mãos, ao voto meu fervente!” —
- Os olhos, que por Deus são tão queridos
- No santo orador fitos demonstraram
- Que eram seus ternos rogos atendidos.
- Após ao Lume eterno se elevaram,
- Em que, se deve crer, da criatura
- Olhos, em modo tal, não profundavam.
- E dos desejos eu, que à mor altura
- Suba, o ardor cessar, como devia,
- Senti, me apropinquando da ventura.
- Bernardo, me acenando, me sorria,
- Que para cima olhasse; mas eu estava
- Já por mim mesmo tal qual me queria.
- A vista, que em pureza sublimava,
- Do alto, que é por si toda a Verdade,
- Mais e mais pelos raios penetrava.
- E o que eu vi, desde então, na imensidade
- Transcendeu quanto o verbo humano intente:
- Cede a memória a tanta majestade.
- Qual homem, que, a sonhar, vê claramente,
- Depois só guarda a sensação impressa,
- E o mais em todo lhe não volta à mente;
- Tal eu; quase a visão inteira cessa.
- Mas no meu coração quase destila
- Doçura que em seu êxtase começa.
- Assim ao sol a neve se aniquila,
- Assim na leve folha, entregue ao vento,
- Se dispersava o orác’lo da Sibila.
- Flama excelsa, que o humano pensamento
- Excedes tanto, oh! presta ao meu, piedosa,
- Um pouco de inefável luzimento.
- E a língua minha faz tão poderosa,
- Que uma centelha só da tua Glória
- Aos pósteros transmita venturosa;
- Pois que, em parte surgindo-me à memória
- E sendo por meus versos celebrada,
- Melhor se entenderá tua vitória.
- Da luz pela agudeza suportada,
- Eu me perdera, creio, com certeza,
- Se da luz fora a vista desviada.
- E, recordo-me, pois mor afouteza
- Tomei, tanto, que face a face olhando,
- Encarar pude na Infinita Alteza.
- Tu ó Graça abundante, me animando,
- Olhos fitar ousei na luz eterna,
- A visão almejada consumando.
- E lá na profundeza vi que se interna
- Unido pelo amor num só volume
- O que pelo universo se esquaderna:
- Acidente, substância e o seu costume,
- Conjuntos entre si por tal maneira,
- Que da verdade exprimo um frouxo lume.
- Creio que a forma universal inteira
- Vi desse nó; porquanto mais ao largo
- Sinto, ao dizer, ledice verdadeira.
- Um só instante à mente dá letargo
- Maior, que séc’los vinte e cinco à empresa
- Que admirar fez Netuno a sombra de Argo.
- De êxtase assim minha alma toda presa,
- Atenta, absorta, imóvel se imergia,
- E sempre em contemplar mais stava acesa.
- E essa Luz tal efeito produzia,
- Que em deixá-la por ver dif’rente aspeto
- Consentir impossível me seria:
- Que o Bem da sua aspiração objeto,
- Todo está nela; é tudo lá perfeito,
- Como fora de lá tudo é defeto.
- Meu dizer de ora avante mais estreito
- Será no que recordo que o do infante
- Ainda ao seio maternal afeito;
- Não porque presentasse outro semblante
- A viva Luz, que a contemplar eu stava,
- Antes, como depois, sempre constante;
- Mas, como, olhando, a vista se alentava,
- A Imutável Essência parecia
- Mudar, quando só eu me transformava.
- Na substância profunda e clara eu via
- Da excelsa Luz três círc’los dicernidos
- Por cores três, de igual periferia,
- Íris de íris, um de outro refletidos
- Estavam, flama o têrcio parecia
- Spirando, por igual, de um, de outro unidos,
- Quanto é curta expressão! Quanto a excedia
- Meu pensar, ao que eu vi, este já sendo
- Tal, que pouco bastante não diria.
- Lume eterno, que a sede em ti só tendo,
- Só te entendes, de ti sendo entendido,
- E te amas e sorris só te entendendo!
- O girar, que, dessa arte concebido
- Via em ti como flama refletida,
- Quanto foi dos meus olhos abrangido,
- No seio seu da própria cor tingida
- A própria efígie humana oferecia:
- Foi nela a vista minha submergida!
- Geômetra, que o espírito crucia
- Para o cir’lo medir, em vão procura
- Princípio, que ao seu fim mais conviria:
- Assim eu ante a nova visão pura
- Ver anelara como a image’ humana
- Ao círculo se adapta e ali perdura.
- Às asas minhas fora empresa insana,
- Se clareado a mente não me houvesse
- Fulgor, que a posse da verdade aplana.
- À fantasia aqui valor fenece;
- Mas a vontade minha a idéias belas,
- Qual roda, que ao motor pronta obedece,
- Volvia o Amor, que move sol e estrelas.