AS vozes, que eu lhe ouvia, ela remata
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Da floresta aparece um súbito esplendor. Dante vê avançar uma procissão de espíritos bem-aventurados em cândidas vestes, e, no fim da procissão, um carro tirado por um grifo. Ouve-se um trovão e o carro e o grifo param.
- AS vozes, que eu lhe ouvia, ela remata,
- Qual dama namorada, assim cantando:
- Beati quorum tecta sunt peccata!
- Como das ninfas o formoso bando,
- Que nas umbrosas selvas sós andavam,
- Qual ver, qual evitar o sol buscando:
- Contra o ribeiro os passos a levavam,
- Sobre a margem seguindo lentamente;
- E pelos seus os meus se regulavam.
- Cinqüenta assim andáramos somente,
- Quando o álveo curvou a linfa pura,
- E, pois, da banda achei-me do oriente.
- Pouco éramos avante na espessura,
- Eis, voltando-se, a dama desta sorte
- Falou-me: — “Escuta, irmão, e ver procura.” —
- Refulge de repente uma luz forte,
- Por todo o espaço imenso da floresta.
- Relâmpago julguei, que os ares corte.
- Mas luz após relâmpagos não resta;
- E o fulgor mais e mais resplendecia.
- Disse entre mim: — “Que maravilha é esta?” —
- Pelo ar luminoso se esparzia
- Dulcíssima harmonia: e em zelo ardendo
- De Eva o feito imprudente eu repreendia,
- Pois, céu e terra a Deus humildes vendo,
- A mulher só, que a vida começara,
- Violava o preceito, os véus rompendo.
- Se fiel fora e as ordens respeitara,
- Mais cedo e por mais tempo essa morada,
- Em delícia inefável, eu gozara.
- Prosseguia, tendo a alma transportada
- Nas primícias da eterna f’licidade,
- Em desejos mais vivos abrasada,
- Quando vimos de intensa claridade
- Sob a rama tornar-se o ar brilhante
- E o som tomou de um hino a suavidade.
- Ó Musas, santas virgens, se, constante
- Fome, frio, vigílias hei sofrido,
- Da mercê vos rogar assoma o instante:
- Das águas de Hipocrene bem provido
- Para em metro cantar idéia imensa
- De Urânia e das irmãs seja eu valido!
- De ver, um tanto além, eu tive a crença
- Árvores sete de ouro: era aparência,
- Emprestava a distância parecença.
- Mas, quando me acerquei, quando a evidência
- Provou-me quanto a semelhança engana,
- Dando das cousas falsa inteligência,
- A faculdade, que à razão aplana
- O discurso, fez ver distintamente
- Candelabros e ouvir no hino: Hosana!
- Cada qual flamejava refulgente,
- Mais que no azul do céu rebrilha a lua
- Da noite em meio, em seu maior crescente.
- De pasmo, que no espírito me atua,
- A Virgílio me volto; ele me encara:
- Também revela espanto a vista sua.
- Tornei-me ao lampadário, que não pára,
- Prosseguindo, porém, solene e lento:
- Noiva ao altar mais presta caminhara.
- Eis a dama gritou-me: — “Por que atento
- Às vivas luzes stás com tanto excesso,
- Que desvias do mais o pensamento?” —
- Trajadas de alva cor a ver começo
- Pessoas, que os luzeiros têm por guia:
- Candor igual na terra não conheço.
- Do rio a linfa à sestra resplendia:
- Espelho, minha imagem, desse lado,
- Oscilando, aos meus olhos refletia.
- Dos lumes tanto estava apropinquado,
- Que pelo rio só fiquei distante:
- Parei, por ver melhor, maravilhado.
- Esses clarões eu vi passar avante;
- Trás si no ar matiz vário espalhavam,
- A pendões desfraldados semelhante.
- Sete listras bem claras desenhavam,
- As cores que contém de Delia o cinto
- Ou stão do sol no arco, figuravam.
- Cada estandarte, atrás asas distinto,
- Se perdia â vista; entre eles pareciam
- Dez passos se no cálculo não minto.
- Por baixo de tão belo céu seguiam
- Vinte e quatro anciões emparelhados:
- Brancos lírios as frontes lhes cingiam.
- Todos cantavam juntos: compassados
- — “Entre as filhas de Adam sejas bendita!
- Benditos teus excelsos predicados.” —
- Quando da margem bem de fronte sita,
- De fresca relva e flores guarnecida,
- A grei se foi que alcançava a santa grita,
- Como no céu a luz de outro é seguida,
- Quatro animais após se apresentavam,
- Coroados de fronde entretecida:
- A cada qual seis asas adornavam,
- Cobertas de olhos tantos, quantos Argo
- Tinha, quando os seus vida gozavam.
- De descrevê-los não faço cargo,
- Leitor; a tanto ora me falta ensejo:
- Nem posso neste ponto ser mais largo.
- Contenta Ezequiel o teu desejo:
- Ele os viu, que, do norte se arrojando,
- Vinham com vento, nuve’, ígneo lampejo.
- Como os pintou, estava os contemplando:
- Dif’rença quanto às asas há somente;
- João eu sigo, Ezequiel deixando.
- Entre os quatro volvia resplendente
- Com dupla roda um carro triunfante,
- Por um grifo tirado altivamente,
- As asas estendendo ia pujante;
- No meio às listras três de cada lado,
- Sem nenhuma empecer seguia avante.
- Não sobe a vista ao ponto sublimado
- A que se erguem; são d’ouro os membros d’ave
- No mais o róseo e o níveo misturado.
- Roma um plaustro não viu tão belo e grave
- Do Africano em triunfo ou no de Augusto;
- O do sol fora ante ele humilde trave:
- Esse que, transviado foi combusto,
- Da Terra quando as súplicas bradaram
- E em seus arcanos Júpiter foi justo.
- Dançando à destra aos olhos se mostraram
- Três damas: tão rubente uma parece,
- Que chamas se a cercassem a ocultaram.
- A segunda tão verde resplandece,
- Como composta de esmeralda bela;
- A candura da neve outra escurece.
- A dança dirigindo, se desvela
- Ora a branca ora a rubra: o canto desta
- Detém, apressa o passo ao querer dela,
- À sestra fazem outras quatro festa
- De púrpura vestidas: uma guia
- As outras e três olhos tem na testa.
- Dous anciões no couce depois via
- Dif’rentes no vestir; mas igualdade
- Nos gestos seus e acatamento havia.
- Aluno um parecia na verdade
- De Hipócrates sublime que criado
- Natura tem por bem da humanidade.
- Mostrava o companheiro outro cuidado
- Trazendo espada tão aguda e clara,
- Que onde eu stava de susto fui tomado.
- De humilde aspeito a vista me depara
- Mais quatro: segue o velho, que, distante,
- Cerra os olhos mas luz a face aclara.
- Os sete como os quatro de diante
- Trajando a fronte sua têm cingida,
- Não de c’roa de lírios alvejante,
- Mas de purpúreas flores rubescida:
- Um tanto longe ao vê-los me parece,
- Que a testa a cada qual stava incendida.
- E, quando o carro em face me aparece,
- Rompe um trovão e a santa companhia,
- Atendendo ao sinal pronta obedece:
- Pára o cortejo e quanto o antecedia.