QUANDO o jogo da zara é terminado
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Dante promete às almas que a eles se recomendaram que não se esquecerá delas quando voltar ao mundo dos vivos. Os dois Poetas encontram o poeta Sordello, o qual, ao ouvir o nome da sua pátria, Mântua, abraça o mantuano Virgílio. Esse espisódio move Dante a uma violenta invectiva contra as divisões e as guerras internas que devastam a Itália.
- QUANDO o jogo da zara é terminado,
- Na amargura, o que perde, só ficando,
- Os bons lances ensaia contristado.
- A turba o vencedor acompanhando,
- Qual vai diante qual por trás o prende,
- Ao lado qual se está recomendando:
- A este e àquele sem deter-se atende;
- O que lhe alcança a mão parte se apressa;
- De importunos desta arte se defende.
- Cerca-me assim a multidão espessa,
- Ora a uns ora a outros me volvendo,
- De cada qual me livro por promessa.
- O Aretino aqui stava: golpe horrendo,
- De Ghin Tacco por mau, cortou-lhe a vida,
- E o que na fuga se afogou, horrendo.
- Aqui rogou-me em súplica sentida,
- Frederico Novello e esse Pisano
- Por quem Mazucco ação fez tão subida.
- Vi o Conde Orso e aquele que o seu dano
- Mortal, pelo ódio e inveja, recebera,
- Como dizia, não por feito insano.
- Aludo a Pedro Brosse. A que ora impera,
- Do Brabante, se apressa a ter cautela,
- Se não, da grei maldita a estância a espera.
- Quando enfim, pude me esquivar àquela
- Turba, que preces sôfrega pedia
- Para a entrada apressar na mansão bela,
- — “Em texto expresso” — eu disse — “ó douto Guia,
- Do teu livro afirmaste que a vontade
- Do céu por orações não se movia.
- “Mas pede-as essa grei com ansiedade:
- Seria acaso vã sua esperança?
- Ou compreender não pude essa verdade?” —
- — “Seu sentido a tua mente” — disse — “alcança;
- Por vã essa esperança não falece;
- Quanto é certa a razão nô-lo afiança:
- “A Justiça do céu não desfalece,
- Porque flama de amor num só momento
- O devedor redime, que padece.
- “Lá onde expus aquele pensamento
- Não podia oração solver pecado,
- Pois distante de Deus estava o intento.
- “Porém neste problema sublimado
- À mente por que há suma ciência
- Te será puro lume revelado.
- “Por quem? Por Beatriz. A continência
- Feliz ridente lhe verás, ao viso
- Quando houveres subido da eminência.” —
- Tornei: — “Andar mais presto ora é preciso;
- Como de antes, não sinto mor fadiga,
- E da montanha a sombra já diviso.” —
- — “Como podemos, é mister prossiga
- O passo, enquanto o dia não se finda;
- Mas te engana o desejo que te instiga.
- “Antes do cimo aguardarás a vinda
- Desse astro oculto agora pela encosta;
- Não refranges os raios seus ainda.
- “Aquela sombra vê, de parte posta,
- Que, em soledade, atenta nos esguarda:
- A vereda dirá melhor disposta.” —
- Chegamo-nos. Ó nobre alma lombarda,
- Como estavas altiva e desdenhosa.
- Dos olhos no meneio grave e tarda!
- Ela em nós encarou silenciosa,
- Mas deixava-nos vir, nos observando,
- Qual leão no repouso, majestosa.
- Virgílio apropinquou-se, lhe rogando
- Nos mostrasse a mais cômoda subida:
- Respondeu-lhe, somente perguntando
- Qual fora a pátria nossa e a nossa vida.
- A falar o meu Guia começava:
- “Em Mântua...” quando a sombra, comovida,
- A ele se enviou donde se achava,
- “Sordello sou” — dizendo — “em Mântua amada
- Nasci também.” — E amplexo os estreitava.
- Ah! serva Itália, da aflição morada!
- Nau sem piloto em pego tormentoso!
- Rainha outrora em lupanar tornada!
- Esse espírito nobre e deleitoso
- Nome escutando só da doce terra,
- Logo o patrício acolhe carinhoso:
- Os vivos raivam no teu solo em guerra;
- Se encarniça um no outro ferozmente
- Os que um só muro, uma só cava encerra.
- Busca, ó mísera Itália, diligente
- No mantimo teu, busca em teu seio:
- Onde acha paz a tua infausta gente?
- Justiniano em vão te ajeitar veio
- A brida; a sela fica abandonada:
- Maior vergonha te há causado o freio.
- Ah! Cúria! Aos teus deveres dedicada
- Deixar-te cumpre a César todo o mundo,
- Como a lei quer por Cristo decretada!
- Vê como, aos maus instintos se entregando
- Ira-se a fera por faltar-lhe espora,
- Depois que inábil mão stá governando.
- Alberto de Germânia! Atente agora
- Que é tornada indômita e bravia:
- Cavalgado a deveras ter outrora!
- Do céu justo castigo deveria
- Os teus ferir — tão novo e tão sabido,
- Que espante o sucessor da monarquia!
- Tu e o teu genitor heis consentido,
- Distantes, por cobiça, em terra estranha,
- Que do Império o jardim steja esquecido.
- Vê, descuidoso, na aflição tamanha,
- Capelletti e Montecchi entristecidos.
- Monaldi e Filippeschi, alvo de sanha.
- Vem, cruel, ver fiéis teus suprimidos:
- De tanto opróbrio seu toma vingança.
- Vê como em Santaflor estão regidos!
- Vem ver tua Roma! De carpir não cansa!
- Viúva e só a todo o instante clama:
- Vem, César! Vem! Não mates minha esp’rança!
- Vem ver como a si próprio o povo se ama!
- E se por nós piedade não te move,
- Mova-te o zelo pela tua fama!
- Se me é dado dizer, Supremo Jove,
- Dos homens por amor sacrificado,
- Mal tanto a nos olhar não te comove?
- Ou tens ao nosso mal aparelhado,
- Lá dos conselhos teus no abismo imenso,
- Algum bem, ao saber nosso vedado?
- As cidades de Itália um tropel denso
- De tiranos subjuga e, qual Marcelo
- Se aclama o faccioso, à pátria infenso.
- Hás de, Florença minha, haver por belo
- Este episódio a ti não referente,
- Mercê do povo teu, de outros modelo.
- Muitos, justiça tendo em peito e mente,
- Por desfechar seu arco ensejo aguardam:
- Teu povo a tem nos lábios permanente.
- Muitos de encargos públicos se guardam;
- Mas teu povo solícito se of’rece,
- Gritando: — ”Pronto estou! em darmos tardam!” —
- Exulta! A causa o mundo bem conhece:
- Tens prudência, tens paz, possuis riqueza.
- Falo a verdade, e o efeito transparece.
- Atenas, Sparta, que a tão suma alteza
- Por leis e instituições se sublimaram,
- Sem governo viveram na incerteza,
- Se, Florença, contigo se comparam,
- Que em novembro tens visto revogadas
- Leis sutis, que em outubro se forjaram.
- Quantas vezes hão sido transformadas,
- Em breve tempo, lei, moeda, usança?
- Quantas índoles e forma renovadas?
- Se vês ao claro e tens viva a lembrança,
- Ao enfermo hás de achar que és semelhante,
- Que, no leito jazendo, não descansa;
- Em vão se agita, a dor vai por diante.