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A Divina ComédiaPurgatório · Canto XXXII
PurgatórioXXXII

COM tão sôfregos olhos saciava

160 versos · 66 de 100


Dante olha com amor a Beatriz. No entanto o carro, seguido pela procissão dos bem-aventurados, se move em direção a um árvore elevadíssima e despida de folhagem. O grifo ata o carro à árvore e esta logo cobre-se de flores. O Poeta adormece. Ao despertar vê Beatriz, rodeada das sete damas, sentada ao pé da árvore. Acontecem, depois, no carro fatos maravilhosos que causam ao Poeta surpresa e medo.

  1. COM tão sôfregos olhos saciava
  2. A sede, em que anos dez eu me incendia,
  3. Que aos mais sentidos toda a ação cessava.
  1. Quase murada a vista se imergia
  2. No santo riso ao mais indiferente,
  3. E nos laços de outrora me prendia.
  1. Desse êxtase arrancou-me de repente
  2. A voz das santas, que da esquerda soa:
  3. — “Demais contemplativa tens a mente!” —
  1. Os ofuscados olhos me nevoa
  2. Torvação semelhante ao vivo efeito,
  3. Que do sol causa a face em quem fitou-a.
  1. Mas quando à pouco luz estive afeito
  2. (Pouca em confronto ao lume deslumbrante,
  3. Que por força deixara e a meu despeito),
  1. Vi que à destra volvia o triunfante
  2. Exército celeste à frente estando
  3. Os candelabros sete e o sol flamante.
  1. Qual hoste a se salvar broquéis alçando,
  2. Se volta, e co’a bandeira não prossegue
  3. Senão mudada a direção, girando;
  1. A celeste milícia avante segue,
  2. Na marcha procedendo desfilava
  3. Antes que o santo carro a volver chegue.
  1. Cada coréia as rodas escoltava,
  2. E o Grifo a carga santa removia
  3. Sem parecer que as penas agitava.
  1. Quem pelo rio me arrastado havia,
  2. Estácio e eu a roda acompanhamos,
  3. Que por arco menor volta fazia.
  1. Na alta floresta caminhando vamos,
  2. Erma por culpa da que a serpe ouvira:
  3. Pelo cântico os passos regulamos.
  1. Andáramos espaço que medira
  2. Uma seta três vezes disparada:
  3. Desceu Beatriz do carro, em que eu a vira.
  1. “Adam!” — disse em murmúrio a grei sagrada,
  2. Todos depois uma árvore cercaram,
  3. De folhas e de flores despojada.
  1. Tanto aos lados seus ramos se alargaram,
  2. Quanto erguiam-se ao céu: como portento
  3. índios nas selvas suas os mostrariam.
  1. “Ó Grifo! Glória a ti! De culpa isento,
  2. Não provaste do lenho doce ao gosto,
  3. Que tanta dor causou, tão cru tormento!” —
  1. Daquele tronco excelso em torno posto,
  2. Diz o préstito; e o Grifo lhe contesta:
  3. — “Assim justiça é sempre no seu posto.” —
  1. E ao carro que tirara na floresta,
  2. Voltou-se e o conduziu ao tronco anoso:
  3. Dele foi parte, a ele atado resta.
  1. Quando o astro rebrilha poderoso,
  2. Juntando os seus clarões aos que desprende,
  3. Depois do Peixe o signo luminoso,
  1. Brotando as plantas cada qual resplende
  2. De esmalte novo, e ainda de outra estrela
  3. Abaixo os seus frisões o sol não prende:
  1. Súbito assim refloresceu aquela
  2. Árvore nua, gradações formando
  3. Entre rosa e violeta em cópia bela.
  1. Então de um hino as notas escutando,
  2. Quais nunca sobre a terra se cantaram,
  3. Não pude resistir a som tão brando.
  1. Se eu narrasse como olhos se fecharam
  2. De Argo impiedosos, de Sírius ao conto
  3. Que o seu nímio velar caro pagaram,
  1. Pintor, tirara ao natural e em ponto
  2. O sono em que engolfei-me docemente;
  3. Mas faça-o quem nessa arte forma pronto!
  1. Passo ao momento em que espertou-se a mente:
  2. Fulgor ao sono intenso o véu rompia,
  3. — “Eia! que fazes?” — ouço incontinênti.
  1. Quais vendo que de flores se cobria
  2. O linho cujo pomo apetecido
  3. Na boda eterna os anjos extasia,
  1. João, Pedro e Tiago ao seu sentido,
  2. Depois da prostração à voz tornaram,
  3. Que sono inda maior tinha vencido,
  1. E a companhia decrescida acharam
  2. De Elias e Moisés enquanto as cores
  3. Sobre a estola do Mestre se mudaram:
  1. Tal despertei da luz aos esplendores,
  2. Vi perto a dama que me fora guia
  3. Do rio à margem sobre a relva e as flores.
  1. — “Onde é Beatriz?” — cuidoso lhe dizia.
  2. — “Da fronde nova à sombra a vês sentada,
  3. Junto à raiz” — Matilde respondia.
  1. “Da companhia sua é rodeada;
  2. Ao céu após o Grifo os mais subiram,
  3. Com mais doce canção, mais sublimada.” —
  1. Não sei se as vozes suas prosseguiram
  2. Pois aquela aos meus olhos se mostrara,
  3. Em quem meus pensamentos se imergiram.
  1. Sobre a terra bendita se assentara,
  2. Só, como em guarda ao plaustro portentoso,
  3. Que ao tronco antigo o Grifo vinculara.
  1. Rodeiam-na, com círculo formoso,
  2. As ninfas sete, os lumes empunhando,
  3. Seguros de Austro e de Aquilão ruidoso.
  1. — “Na selva a tua estada abreviando,
  2. Serás comigo na eternal morada
  3. Da Roma, onde tem Cristo o régio mando.
  1. “Do mundo em prol, perdido em rota errada,
  2. O carro observa e cada cousa atento
  3. Guarda, por ser ao mundo registrada.” —
  1. Falou Beatriz; e eu, pois, que o entendimento
  2. Do seu querer aos pés tinha prostrado,
  3. Fitei no carro a vista e o pensamento.
  1. Dos etéreos confins arremessado,
  2. Não rasga o raio à densa nuve, o seio,
  3. Com tanta rapidez precipitado,
  1. Como da alta ramada pelo meio,
  2. Córtice fronde, flores destruindo,
  3. O pássaro de Jove irado veio.
  1. Com força imane o carro foi ferindo,
  2. Que aos golpes, qual navio, se agitava,
  3. Que o mar combate os bordos lhe investindo.
  1. E logo após eu vi que se enviava
  2. Ao carro triunfal uma raposa,
  3. Que bom cibo não ter manifestava.
  1. Increpando-lhe a vida criminosa,
  2. Beatriz pô-la em fuga, e em tanta pressa,
  3. Quanto sofreu-lhe a ossada cavernosa.
  1. Depois do carro à caixa a Águia se apressa
  2. A vir por onde, há pouco, descendera;
  3. De inçar de plumas seus coxins não cessa.
  1. Qual gemido que a dor no peito gera,
  2. Ouvi do céu baixar voz, que dizia:
  3. — “Ó barca! bem má carga ora se onera!” —
  1. A terra então me pareceu se abria,
  2. Entre as rodas um drago arrevessando
  3. Que pelo carro a cauda introduzia.
  1. Depois a cauda atroce retirando,
  2. Qual vespa o seu ferrão, feita a ferida,
  3. Arranca o fundo e vai-se coleando.
  1. Como em terra vivaz relva crescida,
  2. Cobre o resto plumagem de repente,
  3. Com tenção casta e pura oferecida;
  1. Timão e rodas vestem-se igualmente
  2. Tão presto, que um suspiro vem lançado
  3. À flor dos lábios menos prontamente.
  1. Daquele plaustro santo, assim mudado,
  2. Nos ângulos cabeças irromperam,
  3. Três no timão e uma em cada lado.
  1. Essas, como as de boi, armadas eram;
  2. Uma só ponta as quatro guarnecia:
  3. Monstros iguais já nunca apareceram.
  1. Qual penhasco em montanha excelsa, eu via
  2. No carro nua meretriz sentada,
  3. Lascivos olhos em redor volvia.
  1. Como para não ser-lhe arrebatada
  2. Em pé ao lado seu stava um gigante,
  3. Com quem trocava beijos despejada.
  1. Que os olhos requebrava a torpe amante
  2. Pra mim notando, fero a flagelava
  3. Dos pés a fronte o barregão farfante.
  1. No ciúme e na ira, que o inflamava
  2. Desprende o carro e à selva o vai tirando,
  3. Que depressa aos meus olhos ocultava
  1. A prostituta e o novo monstro infando.
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