COM tão sôfregos olhos saciava
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Dante olha com amor a Beatriz. No entanto o carro, seguido pela procissão dos bem-aventurados, se move em direção a um árvore elevadíssima e despida de folhagem. O grifo ata o carro à árvore e esta logo cobre-se de flores. O Poeta adormece. Ao despertar vê Beatriz, rodeada das sete damas, sentada ao pé da árvore. Acontecem, depois, no carro fatos maravilhosos que causam ao Poeta surpresa e medo.
- COM tão sôfregos olhos saciava
- A sede, em que anos dez eu me incendia,
- Que aos mais sentidos toda a ação cessava.
- Quase murada a vista se imergia
- No santo riso ao mais indiferente,
- E nos laços de outrora me prendia.
- Desse êxtase arrancou-me de repente
- A voz das santas, que da esquerda soa:
- — “Demais contemplativa tens a mente!” —
- Os ofuscados olhos me nevoa
- Torvação semelhante ao vivo efeito,
- Que do sol causa a face em quem fitou-a.
- Mas quando à pouco luz estive afeito
- (Pouca em confronto ao lume deslumbrante,
- Que por força deixara e a meu despeito),
- Vi que à destra volvia o triunfante
- Exército celeste à frente estando
- Os candelabros sete e o sol flamante.
- Qual hoste a se salvar broquéis alçando,
- Se volta, e co’a bandeira não prossegue
- Senão mudada a direção, girando;
- A celeste milícia avante segue,
- Na marcha procedendo desfilava
- Antes que o santo carro a volver chegue.
- Cada coréia as rodas escoltava,
- E o Grifo a carga santa removia
- Sem parecer que as penas agitava.
- Quem pelo rio me arrastado havia,
- Estácio e eu a roda acompanhamos,
- Que por arco menor volta fazia.
- Na alta floresta caminhando vamos,
- Erma por culpa da que a serpe ouvira:
- Pelo cântico os passos regulamos.
- Andáramos espaço que medira
- Uma seta três vezes disparada:
- Desceu Beatriz do carro, em que eu a vira.
- “Adam!” — disse em murmúrio a grei sagrada,
- Todos depois uma árvore cercaram,
- De folhas e de flores despojada.
- Tanto aos lados seus ramos se alargaram,
- Quanto erguiam-se ao céu: como portento
- índios nas selvas suas os mostrariam.
- “Ó Grifo! Glória a ti! De culpa isento,
- Não provaste do lenho doce ao gosto,
- Que tanta dor causou, tão cru tormento!” —
- Daquele tronco excelso em torno posto,
- Diz o préstito; e o Grifo lhe contesta:
- — “Assim justiça é sempre no seu posto.” —
- E ao carro que tirara na floresta,
- Voltou-se e o conduziu ao tronco anoso:
- Dele foi parte, a ele atado resta.
- Quando o astro rebrilha poderoso,
- Juntando os seus clarões aos que desprende,
- Depois do Peixe o signo luminoso,
- Brotando as plantas cada qual resplende
- De esmalte novo, e ainda de outra estrela
- Abaixo os seus frisões o sol não prende:
- Súbito assim refloresceu aquela
- Árvore nua, gradações formando
- Entre rosa e violeta em cópia bela.
- Então de um hino as notas escutando,
- Quais nunca sobre a terra se cantaram,
- Não pude resistir a som tão brando.
- Se eu narrasse como olhos se fecharam
- De Argo impiedosos, de Sírius ao conto
- Que o seu nímio velar caro pagaram,
- Pintor, tirara ao natural e em ponto
- O sono em que engolfei-me docemente;
- Mas faça-o quem nessa arte forma pronto!
- Passo ao momento em que espertou-se a mente:
- Fulgor ao sono intenso o véu rompia,
- — “Eia! que fazes?” — ouço incontinênti.
- Quais vendo que de flores se cobria
- O linho cujo pomo apetecido
- Na boda eterna os anjos extasia,
- João, Pedro e Tiago ao seu sentido,
- Depois da prostração à voz tornaram,
- Que sono inda maior tinha vencido,
- E a companhia decrescida acharam
- De Elias e Moisés enquanto as cores
- Sobre a estola do Mestre se mudaram:
- Tal despertei da luz aos esplendores,
- Vi perto a dama que me fora guia
- Do rio à margem sobre a relva e as flores.
- — “Onde é Beatriz?” — cuidoso lhe dizia.
- — “Da fronde nova à sombra a vês sentada,
- Junto à raiz” — Matilde respondia.
- “Da companhia sua é rodeada;
- Ao céu após o Grifo os mais subiram,
- Com mais doce canção, mais sublimada.” —
- Não sei se as vozes suas prosseguiram
- Pois aquela aos meus olhos se mostrara,
- Em quem meus pensamentos se imergiram.
- Sobre a terra bendita se assentara,
- Só, como em guarda ao plaustro portentoso,
- Que ao tronco antigo o Grifo vinculara.
- Rodeiam-na, com círculo formoso,
- As ninfas sete, os lumes empunhando,
- Seguros de Austro e de Aquilão ruidoso.
- — “Na selva a tua estada abreviando,
- Serás comigo na eternal morada
- Da Roma, onde tem Cristo o régio mando.
- “Do mundo em prol, perdido em rota errada,
- O carro observa e cada cousa atento
- Guarda, por ser ao mundo registrada.” —
- Falou Beatriz; e eu, pois, que o entendimento
- Do seu querer aos pés tinha prostrado,
- Fitei no carro a vista e o pensamento.
- Dos etéreos confins arremessado,
- Não rasga o raio à densa nuve, o seio,
- Com tanta rapidez precipitado,
- Como da alta ramada pelo meio,
- Córtice fronde, flores destruindo,
- O pássaro de Jove irado veio.
- Com força imane o carro foi ferindo,
- Que aos golpes, qual navio, se agitava,
- Que o mar combate os bordos lhe investindo.
- E logo após eu vi que se enviava
- Ao carro triunfal uma raposa,
- Que bom cibo não ter manifestava.
- Increpando-lhe a vida criminosa,
- Beatriz pô-la em fuga, e em tanta pressa,
- Quanto sofreu-lhe a ossada cavernosa.
- Depois do carro à caixa a Águia se apressa
- A vir por onde, há pouco, descendera;
- De inçar de plumas seus coxins não cessa.
- Qual gemido que a dor no peito gera,
- Ouvi do céu baixar voz, que dizia:
- — “Ó barca! bem má carga ora se onera!” —
- A terra então me pareceu se abria,
- Entre as rodas um drago arrevessando
- Que pelo carro a cauda introduzia.
- Depois a cauda atroce retirando,
- Qual vespa o seu ferrão, feita a ferida,
- Arranca o fundo e vai-se coleando.
- Como em terra vivaz relva crescida,
- Cobre o resto plumagem de repente,
- Com tenção casta e pura oferecida;
- Timão e rodas vestem-se igualmente
- Tão presto, que um suspiro vem lançado
- À flor dos lábios menos prontamente.
- Daquele plaustro santo, assim mudado,
- Nos ângulos cabeças irromperam,
- Três no timão e uma em cada lado.
- Essas, como as de boi, armadas eram;
- Uma só ponta as quatro guarnecia:
- Monstros iguais já nunca apareceram.
- Qual penhasco em montanha excelsa, eu via
- No carro nua meretriz sentada,
- Lascivos olhos em redor volvia.
- Como para não ser-lhe arrebatada
- Em pé ao lado seu stava um gigante,
- Com quem trocava beijos despejada.
- Que os olhos requebrava a torpe amante
- Pra mim notando, fero a flagelava
- Dos pés a fronte o barregão farfante.
- No ciúme e na ira, que o inflamava
- Desprende o carro e à selva o vai tirando,
- Que depressa aos meus olhos ocultava
- A prostituta e o novo monstro infando.