QUANDO tudo em seus véus a noite esconde
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Descem Cristo e Maria no meio de anjos e de almas bem-aventuradas. Cristo, porém, logo desaparece; e o arcanjo Gabriel, em forma de chama, coroa a Maria. Depois, Maria sobe no Empíreo reunindo-se ao seu divino filho.
- QUANDO tudo em seus véus a noite esconde,
- Sobre o ninho dos filhos seus amados
- Ave, pousada entre a dileta fronde,
- Para ver os seus gestos desejados
- E buscar cibo que lhes dê sustento,
- Desvelos, que lhes são bem compensados,
- Da rama espia o tempo de olho atento
- E com sôfrego anelo espera o dia,
- Da alvorada aguardando o nascimento;
- Tal vigilante Beatriz eu via
- Para a plaga voltada luminosa,
- Onde mais lento o sol me parecia.
- Vendo-a assim pronta em vista e cuidadosa,
- Homem fiquei, que melhorar-se aspira
- E na esperança alenta a alma cuidosa.
- Porém, breve, a demora logo expira
- Entre atentar e ver que o céu se aclara
- Com luz, que, viva mais e mais, subira.
- — “Eis a milícia” — a dama diz preclara —
- “Da vitória de Cristo! Eis a colheita,
- Que o giro entre as esferas nos depara!”
- Parece a face ter de flamas feita;
- Arde nos olhos seus tanta alegria,
- Que a palavra a dizê-la não se ajeita.
- Qual Trívia em plenilúnios irradia
- Entre as ninfas eternas se sumindo,
- De que o céu nos recessos se alumia,
- Sobre milhões de fogos refulgindo
- Um sol vi, que os clarões seus lhes prestava,
- Como aos astros o nosso a luz partindo.
- Por entre o aceso lume fulgurava
- A Divina Substância tão brilhante
- Que a vista, contemplando-a, desmaiava.
- — “Ó Beatriz! Ó guia doce e amante!” —
- Tornou-me: — “O que te enleia a inteligência
- Força invencível tem, sem semelhante.
- “Aqui stá o Saber e a Onipotência,
- Que para o céu caminho abrindo à terra,
- Cumpriu-lhe inextinguivel apetência.”
- Como o fogo da nuvem se descerra,
- No seio, estreito já, se dilatando,
- E, devendo subir, baixa e se aterra,
- Assim, entre delícias se alargando,
- Alma senti num êxtase arroubada;
- Qual fui não sei, de todo me olvidando.
- “Abre os olhos e vê qual sou tornada;
- Pois te foi dado ver tanto portento
- Já posso, ora a sorrir ser contemplada.” —
- Estava eu como quem, no pensamento
- De passada visão vestígio tendo
- Salvá-los quer em vão do esquecimento,
- Quando a sublime oferta recebendo,
- De gratidão me entrei, que não se apaga
- Do livro, em que o passado está vivendo.
- Se quantos c’as irmãs Polínia afaga,
- Com dulcíssimo leite os alentando,
- Por eloqüência me ajudassem maga,
- Na milésima parte eu, me afanando,
- Cantar não conseguira o santo riso,
- Que raiava no aspeito venerando.
- Desta arte, descrevendo o Paraíso
- Saltar deve este meu sacro poema,
- Como em caminho às vezes é preciso.
- Mas quem pensar que é ponderoso o tema
- E débil o ombro, que lhe está sujeito,
- A mal não levará, se ao cargo eu trema.
- Não é para baixel pequeno e estreito
- O mar que a proa vai cortando agora,
- Nem para nauta a se poupar afeito.
- — “Porque tanto o meu gesto te enamora,
- Que não contemplas o jardim formoso,
- Que aos doces raios de Jesus se enflora?
- “Tem a Rosa, em que o Verbo milagroso
- Carne se fez; os lírios têm, que ensinam
- O bom caminho pelo odor mimoso.” —
- Assim diz Beatriz. Pois me dominam
- Seus conselhos, aos transes se oferecem
- Meus olhos, que ante a luz débeis se inclinam.
- À sombra estando, às vezes me aparecem
- Prados vestidos de formosas flores
- Do sol aos raios que entre nuvens descem;
- Assim turbas distingo de esplendores,
- A que do alto baixaram mil ardentes
- Clarões sem ver a causa dos fulgores.
- Ó Virtude beni’na que esplendentes
- Os fazes, deste espaço, assim subindo,
- Aos meus olhos, pra ver-te inda impotentes.
- Da bela flor o doce nome ouvindo,
- Que noite e dia invoco sempre, atento
- No lume, que maior stava fulgindo,
- Quando em sua grandeza e luzimento
- Vi com meus olhos essa viva estrela,
- Que vence, como aqui, no firmamento;
- Do céu baixando flama se revela,
- Que em forma circular, como coroa
- Cingiu-a, se agitando em torno dela.
- A melodia que mais branda soa
- Na terra e as almas para si mais tira,
- Trovão seria, que das nuvens troa,
- Comparada à doçura dessa lira,
- Que, do azul mais suave em céu vestido,
- C’roava a bela, divinal safira.
- — “Sou angélico amor, que, assim movido,
- Mostro o prazer, que vem do seio santo,
- Que ao Salvador do mundo albergue há sido.
- “Hei de girar, do céu Senhora, enquanto
- Deres, do filho entrando em companhia,
- À suma esfera mais divino encanto.” —
- Cantava assim da c’roa a melodia.
- Dos outros lumes todos almo canto
- O nome proclamava de Maria.
- Dos orbes o primeiro, régio manto,
- Que sente mais fervor, que mais se anima,
- Do Supremo Senhor ao sopro, tanto
- De nós distante se internava acima,
- Que o aspecto seu na imensidade pura,
- De distinguir a vista desanima.
- Dos olhos meus a força em vão se apura,
- Seguir querendo a flama coroada,
- Que após seu Filho ergueu-se para a altura.
- Qual criança, de leite saciada,
- Que, ávida ainda, à mãe estende os braços,
- No afeto seu mostrando-se inflamada,
- Cada esplendor, subindo nos espaços,
- Tendia-se, a Maria revelando
- Quanto os prendem de amor excelso os laços.
- Depois ver se fizeram modulando
- “Regina coeli” em tanta consonância,
- Que me perdura na alma esse hino brando.
- Oh! dos celestes prêmios que abundância
- Se contém nesses cofres, que hão guardado
- Frutos colhidos na terrena estância!
- No céu se frui tesouro acumulado,
- No pranto e em Babilônia conseguido,
- Onde o ouro ficara desdenhado.
- Do filho de Maria conduzido,
- Lá triunfa, por sua alta vitória,
- Das duas leis aos santos reunido,
- Quem guarda chaves da celeste glória.