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A Divina ComédiaPurgatório · Canto III
PurgatórioIII

ENQUANTO aquela fuga repentina

145 versos · 37 de 100


Os dois Poetas se aprestam a subir o monte. Enquanto estão procurando o lugar onde a subida seja mais fácil, vêem um grupo de almas que lhes vêm ao encontro. Perguntam a elas onde seja a subida. Uma das almas se dá a conhecer a Dante. É Manfredo, rei de Nápoles e da Sicília. Ele narra como morreu, pedindo a Deus, na hora extrema. Estão juntas com ele, as almas dos que foram inimigos da Santa Igreja.

  1. ENQUANTO aquela fuga repentina
  2. Pela planície as sombras impelia
  3. Ao monte, que a razão a amar ensina,
  1. Ao sócio meu fiel eu me cingia:
  2. Como sem ele houvera prosseguido?
  3. Quem para alçar-me esforço me daria?
  1. De remorsos parece possuído.
  2. Ó consciência pura e sublimada,
  3. Leve falta pesar te dá subido!
  1. Quando atalhava a pressa, que é vedada
  2. A quem dos atos no decoro atente,
  3. Eu, que sentira a mente angustiada,
  1. Tornando ao meu intento afoutamente
  2. Os olhos à eminência levantava,
  3. Que para o céu mais alto eleva a frente.
  1. Nas espaldas o sol nos dardejava
  2. Rubra luz, que o meu corpo interrompia,
  3. Pois aos seus raios óbice formava.
  1. Escuro ante mim só aparecia
  2. O solo: eu, de abandono receoso,
  3. Voltei-me ao lado onde era o sábio Guia.
  1. Virgílio então me encara. — “Suspeitoso
  2. Te mostras?” — diz — “Cuidavas, porventura,
  3. Que eu não mais te acompanhe cuidadoso?
  1. “Surge Vésper lá onde a sepultura
  2. Guarda o corpo em que sombra já fizera
  3. Tomando-o a Brindes, Nápole o assegura.
  1. “Se ante mim não a vês, não te devera
  2. Dar pasmo como lá no firmamento
  3. Se a luz a luz não tolhe e não movera.
  1. “Para calma sentir, frio ou tormento
  2. Dispôs-nos corpo a suma Potestade.
  3. Como o fez? Não nos deu conhecimento.
  1. “Fátuo é quem julga à humana faculdade
  2. Franco o infindo caminho e sempiterno,
  3. Por onde segue o Ente Uno em Trindade.
  1. “Homem, vos baste o quia: se ao superno
  2. Saber alevantar-vos fosse dado,
  3. Da Virgem ao seio não baixara o Eterno.
  1. “Já viste porfiar sem resultado
  2. Os que, cevar podendo seu desejo,
  3. Em perpétua aflição o têm tornado.
  1. “De Aristóteles falo neste ensejo,
  2. De Platão, de outros mais.” — Baixando a fronte,
  3. Calou; mostrava torvação e pejo.
  1. Chegamos nós em tanto ao pé do monte
  2. Onde era a rocha de tal modo erguida,
  3. Que de subir capaz ninguém se conte.
  1. A vereda mais erma e desabrida,
  2. Que de Léria a Túrbia se encaminha,
  3. Dá, confrontada, cômoda subida.
  1. E o Mestre, assim falando, os pés detinha:
  2. “Quem sabe onde a este monte o passo ascende?
  3. Como aqui sem ter asas se caminha?”
  1. Enquanto, baixo o rosto, o Mestre entende
  2. Na jornada, em sua mente interrogando,
  3. E pela altura a vista se me estende,
  1. Divisei turba a nós endireitando
  2. Da mão destra; o seu passo era tão lento,
  3. Que não me parecia estar andando.
  1. — “Aos que vêm” — disse ao Mestre — “mira atento;
  2. Por eles pode ser conselho dado,
  3. Se o não te of’rece o próprio pensamento...” —
  1. Olhou-me, e com semblante asserenado
  2. — “À turba vagarosa” — tornou — “vamos,
  3. E a esperança te esforce, ó filho amado!” —
  1. Passos mil para a grei nos caminhamos
  2. E de tiro de pedra inda à distância,
  3. Por mão destra arrojada, nos chamamos
  1. Quando aqueles espíritos estância
  2. Junto aos penhascos vi fazer, cerrados,
  3. Qual transviado da incerteza em ânsia.
  1. “Vós, eleitos ao bem, no bem finados” —
  2. Disse Virgílio — “pela paz ditosa,
  3. Em que sois todos, creio, esperançados,
  1. “Dizei-me onde a montanha alta e fragosa
  2. Subir permite, um pouco se inclinando:
  3. Do tempo a perda ao sábio é desgostosa.” —
  1. Como as ovelhas o redil deixando
  2. A uma, duas, três e a cerviz tendo
  3. Baixa as outras vão tímidas ficando;
  1. Todas como a primeira, se movendo,
  2. Conchegam-se-lhe ao dorso, se ela pára,
  3. O porque, simples, quietas não sabendo:
  1. Assim a demandar-nos se apressara
  2. A venturosa grei, que no meneio
  3. Traz a moléstia e o pudor na cara.
  1. Tomada foi, porém, de tanto enleio,
  2. Por minha sombra em vendo a luz cortada
  3. A destra, em direção da rocha ao seio,
  1. Que a vanguarda parou, como torvada:
  2. Pelos mais sem detença foi seguida,
  3. Mas sem lhes star a causa revelada.
  1. — “A explicação previno apetecida:
  2. Que um vivo corpo vedes confesso
  3. E a luz do sol por este interrompida.
  1. “Não haja em vós de maravilha excesso;
  2. Do céu pela virtude socorrido,
  3. Da montanha atingir quer o cabeço.” —
  1. Disse Virgílio. — E foi-lhe respondido:
  2. — “Voltai-vos; caminhai de nós diante.” —
  3. E o lugar indicavam referido.
  1. — “Sem que um momento deixes ir avante,
  2. Quem quer que sejas, olha-me e declara”, —
  3. Disse um deles, — “se hás visto o meu semblante.” —
  1. Volvi-me, olhos fitando em quem falara.
  2. Formoso e louro, tinha heróico aspeito;
  3. Um golpe o seu sobrolho separara.
  1. Tornei-lhe — “não” — tomado de respeito.
  2. — “Olha!” — falou a sombra me indicando
  3. Larga ferida no alto do seu peito.
  1. “Vês Manfredo — sorriu-se me falando —
  2. Que neto foi da Imperatriz Constança.
  3. A minha bela filha diz, voltando,
  1. (Mãe daqueles por quem tanta honra alcança
  2. Aragão com Sicília) o que hás sabido,
  3. Qual a verdade seja lhe afiança.
  1. “Depois que foi o corpo meu ferido
  2. De golpes dois mortais, a Deus piedoso
  3. Alma entreguei, chorando arrependido.
  1. “Fui de horrendos pecados criminoso,
  2. Mas a Bondade Infinda acolhe e abraça
  3. Quem perdão lhe suplica pesaroso.
  1. “Se o Bispo que enviou Clemente à caça
  2. Do meu cadáver, respeitado houvesse
  3. Esse preceito da Divina Graça,
  1. “Do corpo meu os ossos me parece,
  2. Que em frente à ponte, ao pé de Benevento,
  3. Em guarda o grave acervo inda tivesse.
  1. “Agora os banha a chuva e açouta o vento,
  2. Do reino meu distantes, junto ao Verde,
  3. Onde os lançou sem luz, sem saimento.
  1. “Mas anátema tanto alma não perde
  2. Que, quando verde a esp’rança lhe floresce,
  3. Do eterno amor do Criador deserde.
  1. “Por certo, em contumácia o que fenece
  2. Contra a Igreja, ainda quando se arrependa
  3. Na hora extrema sua, aqui padece
  1. “Tempo, que trinta vezes compreenda
  2. Da impenitência o espaço, se ao decreto
  3. Preces não trazem benfazeja emenda.
  1. “Vês, pois, que podes me tornar quieto:
  2. Revelando à piedade de Constança
  3. Que interdito me hás visto ainda exceto
  1. Pelas preces de lá muito se alcança.” —
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