Ó MESQUINHA nobreza de alto sangue!
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O poeta orgulha-se pela nobreza da sua família. Cacciaguida continua falando a respeito da própria família e da antiga Florença. Deplora a chegada em Florença de cidadãos de outras terras. Lembra as maiores famílias da cidade, muitas das quais, no tempo de Dante, eram empobrecidas ou maculadas de infâmia.
- Ó MESQUINHA nobreza de alto sangue!
- Se tanto homem de haver-te se gloria
- Neste mundo, em que o afeto enfermo langue,
- Maravilhar-me já não poderia,
- Pois me senti, por causa tal, ufano
- No céu, onde o apetite não varia.
- És manto exposto em breve a estrago e dano:
- Se te faltar reparação constante,
- A mão do tempo te cerceia o pano.
- A responder começo à luz brilhante
- Por “vós” de que, primeira, Roma usara,
- Mas que em vulgar dicção não foi avante.
- Beatriz, que algum tanto se afastara,
- Fez, sorrindo-se, como a que tossira,
- Quando a primeira vez Ginevra errara.
- — “Vós sois meu pai” — disse eu — “em vós se inspira
- Para falar-vos do ânimo a ousadia,
- Me alçais mais do que a mente própria aspira.
- “Por tantos rios se enche de alegria
- Minha alma que em ledice é transformada,
- Pois do prazer não vence-a a demasia.
- “Dizei-me, pois, minha primícia amada,
- Os ascendentes vossos e em qual era
- Foi a vossa puerícia assinalada.
- “De São João a grei como vivera
- Dizei-me e os que em seu seio se mostraram,
- A quem mais alta distinção coubera.” —
- Como ao sopro do vento mais se aclaram
- As flamas no carvão, dessa arte àquela
- Luz, me ouvindo, os fulgores se avivaram;
- E quanto aos olhos se ostentou mais bela,
- Tanto com voz mais doce e mais suave
- Respondeu, sem falar vulgar loquela.
- Disse: — “Do dia, em que se ouvia o Ave
- Ao momento, em que ao mundo a mãe querida,
- Hoje santa me deu no transe grave,
- Do Leão foi aos pés reacendida
- De Marte a luz quinhentos e cinqüenta
- Vezes mais trinta na incessante lida.
- “O lugar, onde o sesto último assenta,
- Dos jogos anuais termo à carreira,
- Meu berço e o dos avós te representa.
- Deles te baste esta noção primeira:
- O que hão sido, onde é sua permanência
- Calar prefiro a dar notícia inteira.
- “Dos que haviam então suficiência
- Para a guerra, entre Marte e João Batista,
- São quíntuplo os que têm ora existência.
- “Toda gente, porém, que se vê mista
- Co’a de Campi, Certaldo, e mais Figghine
- Pura estava, do nobre até o artista.
- “Acerto fora do que bem combine
- Tê-los vizinhos, linha demarcando,
- Que com Trepiano e com Galuz confine,
- “Em lugar de hospedar o infeto bando
- Dos vilões de Aguglion junto aos de Signa,
- Da fraude expertos no mister nefando.
- “Se a gente, hoje no mundo a mais maligna,
- A César não se houvesse declarado
- Cruel madrasta em vez de mãe benigna,
- “Quem se diz Florentino e à usura é dado,
- Vende e merca, tornava a Simifonte,
- Onde o avô mendigava esfarrapado.
- “Ainda em Montemurli foram Conti,
- Os seus Cerchi ainda Acone conservara
- E, talvez, Valdigrieve os Buodelmonti.
- “Sempre de castas confusão depara,
- Como a de cibo em corpo mal disposto,
- Mal à cidade, e danos lhes prepara.
- “Touro cego primeiro em terra é posto
- Que anho cego; e melhor corta uma espada
- Do que cinco num feixe bem composto.
- “Se de Urbisaglia a sorte desgraçada
- E a de Luni tu vês, se igual espera
- Chiusi e Sinigaglia malfadada:
- “Dos solares mau fim não perecera
- À tua mente estranheza ou caso forte,
- Pois no exício de Estados considera.
- “Terrenas cousas todas sofrem morte,
- Como vós; mas de algumas, perdurando,
- Quem curta vida tem não sabe a sorte.
- “E como a lua, sem cessar girando
- Cobre ou descobre as praias do oceano,
- De Florença a fortuna vai mudando;
- “Assim que não suponhas mais que humano
- O que eu disser de exímios florentinos,
- A cuja fama o tempo já fez dano.
- “Eu vi os Ughi, vi os Catellinos,
- Fillippe, Greci, Ornami e os Albericos
- Decadentes, mas ainda nobres, di’nos.
- “Grandes em fama, de virtudes ricos
- Os de Sanella vi; também os de Arca,
- Soldanieri, Ardingos e Bastichos.
- “À porta de São Pedro, que ora abarca
- Infâmia nova tanto em peso ingente,
- Que fará soçobrar em breve a barca,
- “Estavam Ravignans; seu descendente
- Foi Conde Guido e quantos ao diante
- De Bellincione o nome têm fulgente.
- “Della Pressa em governo era prestante
- E Galligaio no solar dourara
- Punho e copos da espada fulgurante.
- “A Coluna do Esquilo se elevara,
- Sacchetti, Giuochi Fifanti e Barucci
- Galli e quem pelo alqueire se pejara.
- Era já grande o tronco dos Calfucci
- E às cadeiras curuis tinham subido,
- Assumindo o poder, Sizi e Arragucci.
- “Quanto lustre daqueles, que abatido
- Tem soberba! Que feito viu Florença
- Sem ser de Esfera de Ouro enobrecido?
- “Eram pais dos que julgam glória imensa
- No concistório, vago o episcopado,
- Cevar-se dos banquetes na licença.
- “Surgia o bando já sem pejo e ousado,
- Dragão que investe a quem lhe teme a ira,
- Cordeiro em vendo bolsa ou braço armado;
- “De princípio tão vil a origem tira,
- Que Donato Ubertino se afrontava,
- Quando a um desses o sogro a filha unira.
- “Já Caponsacco no Mercado estava,
- De Fiésole vindo; e lá já era
- Giuda, Infangato: o nome os ilustrava.
- “Incrível cousa vou dizer, mas vera:
- No recinto uma porta outrora havia,
- À qual deu nome a gente della Pera.
- “Fidalgo, que o brasão belo trazia
- Do barão cujo nome, glória e vida
- De São Tomé celebra-se no dia;
- “Lhe deve o privilégio e honra subida;
- Mas hoje ao popular partido se une
- Trazendo de ouro a faixa guarnecida.
- “Já Gualterotti viam-se e Importuni;
- E em Borgo a paz de todo se perdera,
- Quando uma turba nova em si reúne.
- “A casa, de que o mal vosso nascera,
- Que vos deu morte, justamente irada,
- E ao feliz viver vosso o fim pusera,
- “Em si, na prole sua fora honrada:
- Por que sua aliança recusaste
- Por sugestão, o Buondelmonte, errada?
- “Quando à cidade a vez primeira entraste,
- Se do Ema às águas Deus te houvesse dado,
- Ledice fora o pranto, que causaste:
- “Forçado era que ao mármore quebrado,
- Da ponte guarda, vítima imolasse
- Florença, de sua paz o fim chegado.
- “Com esses e outros, que inda eu mais lembrasse,
- Florença vi gozar fausto repouso,
- Sem motivo que pranto lhe excitasse.
- Com esses e outros vi tão glorioso
- E junto o povo, que ao rever lançado
- Não era na hástea o lírio seu formoso,
- Nem por facções em rubro transformado.” —