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A Divina ComédiaParaíso · Canto XVI
ParaísoXVI

Ó MESQUINHA nobreza de alto sangue!

154 versos · 83 de 100


O poeta orgulha-se pela nobreza da sua família. Cacciaguida continua falando a respeito da própria família e da antiga Florença. Deplora a chegada em Florença de cidadãos de outras terras. Lembra as maiores famílias da cidade, muitas das quais, no tempo de Dante, eram empobrecidas ou maculadas de infâmia.

  1. Ó MESQUINHA nobreza de alto sangue!
  2. Se tanto homem de haver-te se gloria
  3. Neste mundo, em que o afeto enfermo langue,
  1. Maravilhar-me já não poderia,
  2. Pois me senti, por causa tal, ufano
  3. No céu, onde o apetite não varia.
  1. És manto exposto em breve a estrago e dano:
  2. Se te faltar reparação constante,
  3. A mão do tempo te cerceia o pano.
  1. A responder começo à luz brilhante
  2. Por “vós” de que, primeira, Roma usara,
  3. Mas que em vulgar dicção não foi avante.
  1. Beatriz, que algum tanto se afastara,
  2. Fez, sorrindo-se, como a que tossira,
  3. Quando a primeira vez Ginevra errara.
  1. — “Vós sois meu pai” — disse eu — “em vós se inspira
  2. Para falar-vos do ânimo a ousadia,
  3. Me alçais mais do que a mente própria aspira.
  1. “Por tantos rios se enche de alegria
  2. Minha alma que em ledice é transformada,
  3. Pois do prazer não vence-a a demasia.
  1. “Dizei-me, pois, minha primícia amada,
  2. Os ascendentes vossos e em qual era
  3. Foi a vossa puerícia assinalada.
  1. “De São João a grei como vivera
  2. Dizei-me e os que em seu seio se mostraram,
  3. A quem mais alta distinção coubera.” —
  1. Como ao sopro do vento mais se aclaram
  2. As flamas no carvão, dessa arte àquela
  3. Luz, me ouvindo, os fulgores se avivaram;
  1. E quanto aos olhos se ostentou mais bela,
  2. Tanto com voz mais doce e mais suave
  3. Respondeu, sem falar vulgar loquela.
  1. Disse: — “Do dia, em que se ouvia o Ave
  2. Ao momento, em que ao mundo a mãe querida,
  3. Hoje santa me deu no transe grave,
  1. Do Leão foi aos pés reacendida
  2. De Marte a luz quinhentos e cinqüenta
  3. Vezes mais trinta na incessante lida.
  1. “O lugar, onde o sesto último assenta,
  2. Dos jogos anuais termo à carreira,
  3. Meu berço e o dos avós te representa.
  1. Deles te baste esta noção primeira:
  2. O que hão sido, onde é sua permanência
  3. Calar prefiro a dar notícia inteira.
  1. “Dos que haviam então suficiência
  2. Para a guerra, entre Marte e João Batista,
  3. São quíntuplo os que têm ora existência.
  1. “Toda gente, porém, que se vê mista
  2. Co’a de Campi, Certaldo, e mais Figghine
  3. Pura estava, do nobre até o artista.
  1. “Acerto fora do que bem combine
  2. Tê-los vizinhos, linha demarcando,
  3. Que com Trepiano e com Galuz confine,
  1. “Em lugar de hospedar o infeto bando
  2. Dos vilões de Aguglion junto aos de Signa,
  3. Da fraude expertos no mister nefando.
  1. “Se a gente, hoje no mundo a mais maligna,
  2. A César não se houvesse declarado
  3. Cruel madrasta em vez de mãe benigna,
  1. “Quem se diz Florentino e à usura é dado,
  2. Vende e merca, tornava a Simifonte,
  3. Onde o avô mendigava esfarrapado.
  1. “Ainda em Montemurli foram Conti,
  2. Os seus Cerchi ainda Acone conservara
  3. E, talvez, Valdigrieve os Buodelmonti.
  1. “Sempre de castas confusão depara,
  2. Como a de cibo em corpo mal disposto,
  3. Mal à cidade, e danos lhes prepara.
  1. “Touro cego primeiro em terra é posto
  2. Que anho cego; e melhor corta uma espada
  3. Do que cinco num feixe bem composto.
  1. “Se de Urbisaglia a sorte desgraçada
  2. E a de Luni tu vês, se igual espera
  3. Chiusi e Sinigaglia malfadada:
  1. “Dos solares mau fim não perecera
  2. À tua mente estranheza ou caso forte,
  3. Pois no exício de Estados considera.
  1. “Terrenas cousas todas sofrem morte,
  2. Como vós; mas de algumas, perdurando,
  3. Quem curta vida tem não sabe a sorte.
  1. “E como a lua, sem cessar girando
  2. Cobre ou descobre as praias do oceano,
  3. De Florença a fortuna vai mudando;
  1. “Assim que não suponhas mais que humano
  2. O que eu disser de exímios florentinos,
  3. A cuja fama o tempo já fez dano.
  1. “Eu vi os Ughi, vi os Catellinos,
  2. Fillippe, Greci, Ornami e os Albericos
  3. Decadentes, mas ainda nobres, di’nos.
  1. “Grandes em fama, de virtudes ricos
  2. Os de Sanella vi; também os de Arca,
  3. Soldanieri, Ardingos e Bastichos.
  1. “À porta de São Pedro, que ora abarca
  2. Infâmia nova tanto em peso ingente,
  3. Que fará soçobrar em breve a barca,
  1. “Estavam Ravignans; seu descendente
  2. Foi Conde Guido e quantos ao diante
  3. De Bellincione o nome têm fulgente.
  1. “Della Pressa em governo era prestante
  2. E Galligaio no solar dourara
  3. Punho e copos da espada fulgurante.
  1. “A Coluna do Esquilo se elevara,
  2. Sacchetti, Giuochi Fifanti e Barucci
  3. Galli e quem pelo alqueire se pejara.
  1. Era já grande o tronco dos Calfucci
  2. E às cadeiras curuis tinham subido,
  3. Assumindo o poder, Sizi e Arragucci.
  1. “Quanto lustre daqueles, que abatido
  2. Tem soberba! Que feito viu Florença
  3. Sem ser de Esfera de Ouro enobrecido?
  1. “Eram pais dos que julgam glória imensa
  2. No concistório, vago o episcopado,
  3. Cevar-se dos banquetes na licença.
  1. “Surgia o bando já sem pejo e ousado,
  2. Dragão que investe a quem lhe teme a ira,
  3. Cordeiro em vendo bolsa ou braço armado;
  1. “De princípio tão vil a origem tira,
  2. Que Donato Ubertino se afrontava,
  3. Quando a um desses o sogro a filha unira.
  1. “Já Caponsacco no Mercado estava,
  2. De Fiésole vindo; e lá já era
  3. Giuda, Infangato: o nome os ilustrava.
  1. “Incrível cousa vou dizer, mas vera:
  2. No recinto uma porta outrora havia,
  3. À qual deu nome a gente della Pera.
  1. “Fidalgo, que o brasão belo trazia
  2. Do barão cujo nome, glória e vida
  3. De São Tomé celebra-se no dia;
  1. “Lhe deve o privilégio e honra subida;
  2. Mas hoje ao popular partido se une
  3. Trazendo de ouro a faixa guarnecida.
  1. “Já Gualterotti viam-se e Importuni;
  2. E em Borgo a paz de todo se perdera,
  3. Quando uma turba nova em si reúne.
  1. “A casa, de que o mal vosso nascera,
  2. Que vos deu morte, justamente irada,
  3. E ao feliz viver vosso o fim pusera,
  1. “Em si, na prole sua fora honrada:
  2. Por que sua aliança recusaste
  3. Por sugestão, o Buondelmonte, errada?
  1. “Quando à cidade a vez primeira entraste,
  2. Se do Ema às águas Deus te houvesse dado,
  3. Ledice fora o pranto, que causaste:
  1. “Forçado era que ao mármore quebrado,
  2. Da ponte guarda, vítima imolasse
  3. Florença, de sua paz o fim chegado.
  1. “Com esses e outros, que inda eu mais lembrasse,
  2. Florença vi gozar fausto repouso,
  3. Sem motivo que pranto lhe excitasse.
  1. Com esses e outros vi tão glorioso
  2. E junto o povo, que ao rever lançado
  3. Não era na hástea o lírio seu formoso,
  1. Nem por facções em rubro transformado.” —
Próximo cantoXVIIQUAL a Climene explicações rogava