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A Divina ComédiaInferno · Canto XV
InfernoXV

POR uma dessas margens empedradas

124 versos · 15 de 100


Prosseguindo os Poetas, encontram um grupo de violentos contra a natureza. Entre estes está Brunetto Latini, que reconhece o discípulo e lhe pede para aproximar-se dele, a fim de conversarem. Falam de Florença e das desventuras reservadas a Dante. Brunetto dá ao Poeta ligeiras notícias a respeito das almas que estão danadas com ele e foge para reunir-se a elas.

  1. POR uma dessas margens empedradas
  2. Imos: vapor do rio resguardava
  3. Das chamas o álveo e as bordas elevadas.
  1. Como do mar temendo a força brava
  2. De Bruge a Cadsand, Flamengos fazem
  3. Os diques, com que o mal se desagrava;
  1. Ou como o dano atalha, que lhe trazem
  2. Do Brenta as invasões de Pádua a gente,
  3. Se em Quiarentana os gelos se desfazem,
  1. Assim as bordas desse rio horrente,
  2. Posto altura e grossura lhes não desse
  3. Iguais, quem quer que fosse artista ingente.
  1. A selva já distante de nós era
  2. Tanto, que eu divisá-la não podia,
  3. Quando os olhos por vê-la atrás volvera,
  1. Eis encontramos multidão sombria,
  2. Que a margem costeava, nos olhando,
  3. Como sói caminhante, ao fim do dia,
  1. Que vai, por lua nova, outro encarando:
  2. Para nos ver os cílios contraindo,
  3. Qual a agulha o artesano aparelhando.
  1. Assim, de mira à turba nós servindo,
  2. Conhecido fui de um que me travava
  3. Da roupa — “Ó maravilha!” — repetindo.
  1. Quando o seu braço para mim se alçava,
  2. Atentei-lhe no rosto requeimado;
  3. Posto que demudado, não vedava
  1. Que de mim fosse nas feições lembrado.
  2. À sua face inclinando a mão, lhe digo,
  3. — “Messer Brunetto! vós aqui!” — torvado.
  1. “Filho meu! complacente sê comigo!
  2. Vir Brunetto Latini ora consente,
  3. Deixando a turba, um pouco assim contigo!” —
  1. Tornei: — “muito vos rogo; e que me assente
  2. Convosco se quereis, prazendo ao guia
  3. Dos passos meus, assentirei contente”. —
  1. — “Se um momento um de nós” — me respondia —
  2. Aqui parasse, imóvel anos cento,
  3. Pelo fogo ferido jazeria.
  1. “Caminha: que eu te irei no seguimento.
  2. Depois hei de juntar-me à companhia
  3. Dos que pranteiam no eternal tormento”. —
  1. Eu da estrada a descer não me atrevia
  2. Por ir com ele; mas a fronte inclino
  3. Reverente; e, falando prosseguia.
  1. — “Que fortuna” — me disse — “ou que destino
  2. Antes da morte aqui te há conduzido?
  3. De quem recebes na jornada ensino?”
  1. — “Antes de haver da idade o tempo enchido
  2. Sobre a terra na vida sossegada;
  3. Num vale” — respondi — “fiquei perdido.
  1. “Ontem costas lhe dei por madrugada;
  2. Ele acudiu-me, quando atrás voltava,
  3. E me conduz assim por esta estrada”. —
  1. — “Se bem vaticinei, quando gozava,
  2. Da vida bela, glorioso porto
  3. Te há de o teu astro conduzir” — tornava.
  1. “Se antes do tempo eu não stivesse morto.
  2. Vendo que tanto o céu te era benigno,
  3. Te dera nos trabalhos o conforto.
  1. “Mas esse ingrato povo é tão maligno,
  2. Que outrora de Fiesole viera
  3. E tem de penha o coração ferino,
  1. “Em ti, por seres bom, mal considera.
  2. É justo: que entre acerbos sovereiros
  3. Crescer doce figueira não se espera.
  1. “Velha fama os diz cegos, sempre useiros
  2. Na soberba, na inveja, na avareza.
  3. Deles te esquiva; em vícios são vezeiros.
  1. “Te guarda a sorte de honras tal grandeza,
  2. Que hás de ser dos partidos cobiçado;
  3. Mas das garras lhes fica longe a presa.
  1. “Ceve em si própria o fiesolano gado
  2. Os instintos brutais; não toque a planta,
  3. Que inda haja em tal nateiro germinado,
  1. “E em que a semente ressuscite santa
  2. Dos romanos, que ali restaram, quando
  3. Teceu-se o ninho de malícia tanta”. —
  1. — “Se o céu” — tornei — “meus votos escutando,
  2. Deferisse, da vida o lume agora
  3. Ainda aos olhos vos raiara brando;
  1. “Que a doce imagem vossa inda memora
  2. Saudosa a mente e o paternal desvelo
  3. Com que me heis ensinado de hora em hora
  1. “Como homem faz-se eternamente belo.
  2. Enquanto eu vivo for, agradecido
  3. Ao mundo bem patente hei de fazê-lo.
  1. “O vaticínio vosso, reunido
  2. A outro, há de explicar-me sábia Dama,
  3. Quando à sua presença houver subido.
  1. “E como a consciência me não clama,
  2. Sabei que, quando a sorte avessa esteja,
  3. A todo o mal sou prestes, que ela trama.
  1. “O que ouvi não cuideis novo me seja:
  2. Volva-se a roda como a sorte a lança,
  3. Lavre a terra o vilão como deseja”. —
  1. Então meu douto Mestre, que se avança,
  2. Girando à destra e me encarando, disse:
  3. “Bem compreende quem tem boa lembrança!” —
  1. Não me vedou, porém, que eu prosseguisse
  2. Na prática; e a Brunetto os mais famosos
  3. Pedi que dos seus sócios referisse.
  1. — “Alguns convém saber, mais numerosos
  2. Em silêncio deixar louvável sendo:
  3. Míngua o tempo aos discursos copiosos.
  1. “Sabe, em suma, que clérigos havendo
  2. Todos sido e letrados mui famosos.
  3. Se mancharam num só pecado horrendo.
  1. “Vão na turba daqueles desditosos
  2. Acúrio e Prisciano; alguns protervos
  3. Se ver quiseres, por tal lepra ascosos.
  1. “Olha o que, como quis servo dos servos,
  2. Pra Bacchiglione foi do Arno mudado
  3. E ali deixou seus deformados nervos.
  1. “Não mais dizer, nem ir posso ao teu lado,
  2. Pois do areal já vejo de repente
  3. Vapor novo surgir afogueado.
  1. “Não devo andar com bando diferente.
  2. O meu Tesouro eu muito te encomendo:
  3. Nele inda vivo, e rogo isto somente”. —
  1. Voltou-se; e foi tão rápido correndo,
  2. Como os que correm pelo pálio verde
  3. No campo de Verona, parecendo
  1. Mais ser quem vence do que ser quem perde.
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