POR uma dessas margens empedradas
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Prosseguindo os Poetas, encontram um grupo de violentos contra a natureza. Entre estes está Brunetto Latini, que reconhece o discípulo e lhe pede para aproximar-se dele, a fim de conversarem. Falam de Florença e das desventuras reservadas a Dante. Brunetto dá ao Poeta ligeiras notícias a respeito das almas que estão danadas com ele e foge para reunir-se a elas.
- POR uma dessas margens empedradas
- Imos: vapor do rio resguardava
- Das chamas o álveo e as bordas elevadas.
- Como do mar temendo a força brava
- De Bruge a Cadsand, Flamengos fazem
- Os diques, com que o mal se desagrava;
- Ou como o dano atalha, que lhe trazem
- Do Brenta as invasões de Pádua a gente,
- Se em Quiarentana os gelos se desfazem,
- Assim as bordas desse rio horrente,
- Posto altura e grossura lhes não desse
- Iguais, quem quer que fosse artista ingente.
- A selva já distante de nós era
- Tanto, que eu divisá-la não podia,
- Quando os olhos por vê-la atrás volvera,
- Eis encontramos multidão sombria,
- Que a margem costeava, nos olhando,
- Como sói caminhante, ao fim do dia,
- Que vai, por lua nova, outro encarando:
- Para nos ver os cílios contraindo,
- Qual a agulha o artesano aparelhando.
- Assim, de mira à turba nós servindo,
- Conhecido fui de um que me travava
- Da roupa — “Ó maravilha!” — repetindo.
- Quando o seu braço para mim se alçava,
- Atentei-lhe no rosto requeimado;
- Posto que demudado, não vedava
- Que de mim fosse nas feições lembrado.
- À sua face inclinando a mão, lhe digo,
- — “Messer Brunetto! vós aqui!” — torvado.
- “Filho meu! complacente sê comigo!
- Vir Brunetto Latini ora consente,
- Deixando a turba, um pouco assim contigo!” —
- Tornei: — “muito vos rogo; e que me assente
- Convosco se quereis, prazendo ao guia
- Dos passos meus, assentirei contente”. —
- — “Se um momento um de nós” — me respondia —
- Aqui parasse, imóvel anos cento,
- Pelo fogo ferido jazeria.
- “Caminha: que eu te irei no seguimento.
- Depois hei de juntar-me à companhia
- Dos que pranteiam no eternal tormento”. —
- Eu da estrada a descer não me atrevia
- Por ir com ele; mas a fronte inclino
- Reverente; e, falando prosseguia.
- — “Que fortuna” — me disse — “ou que destino
- Antes da morte aqui te há conduzido?
- De quem recebes na jornada ensino?”
- — “Antes de haver da idade o tempo enchido
- Sobre a terra na vida sossegada;
- Num vale” — respondi — “fiquei perdido.
- “Ontem costas lhe dei por madrugada;
- Ele acudiu-me, quando atrás voltava,
- E me conduz assim por esta estrada”. —
- — “Se bem vaticinei, quando gozava,
- Da vida bela, glorioso porto
- Te há de o teu astro conduzir” — tornava.
- “Se antes do tempo eu não stivesse morto.
- Vendo que tanto o céu te era benigno,
- Te dera nos trabalhos o conforto.
- “Mas esse ingrato povo é tão maligno,
- Que outrora de Fiesole viera
- E tem de penha o coração ferino,
- “Em ti, por seres bom, mal considera.
- É justo: que entre acerbos sovereiros
- Crescer doce figueira não se espera.
- “Velha fama os diz cegos, sempre useiros
- Na soberba, na inveja, na avareza.
- Deles te esquiva; em vícios são vezeiros.
- “Te guarda a sorte de honras tal grandeza,
- Que hás de ser dos partidos cobiçado;
- Mas das garras lhes fica longe a presa.
- “Ceve em si própria o fiesolano gado
- Os instintos brutais; não toque a planta,
- Que inda haja em tal nateiro germinado,
- “E em que a semente ressuscite santa
- Dos romanos, que ali restaram, quando
- Teceu-se o ninho de malícia tanta”. —
- — “Se o céu” — tornei — “meus votos escutando,
- Deferisse, da vida o lume agora
- Ainda aos olhos vos raiara brando;
- “Que a doce imagem vossa inda memora
- Saudosa a mente e o paternal desvelo
- Com que me heis ensinado de hora em hora
- “Como homem faz-se eternamente belo.
- Enquanto eu vivo for, agradecido
- Ao mundo bem patente hei de fazê-lo.
- “O vaticínio vosso, reunido
- A outro, há de explicar-me sábia Dama,
- Quando à sua presença houver subido.
- “E como a consciência me não clama,
- Sabei que, quando a sorte avessa esteja,
- A todo o mal sou prestes, que ela trama.
- “O que ouvi não cuideis novo me seja:
- Volva-se a roda como a sorte a lança,
- Lavre a terra o vilão como deseja”. —
- Então meu douto Mestre, que se avança,
- Girando à destra e me encarando, disse:
- “Bem compreende quem tem boa lembrança!” —
- Não me vedou, porém, que eu prosseguisse
- Na prática; e a Brunetto os mais famosos
- Pedi que dos seus sócios referisse.
- — “Alguns convém saber, mais numerosos
- Em silêncio deixar louvável sendo:
- Míngua o tempo aos discursos copiosos.
- “Sabe, em suma, que clérigos havendo
- Todos sido e letrados mui famosos.
- Se mancharam num só pecado horrendo.
- “Vão na turba daqueles desditosos
- Acúrio e Prisciano; alguns protervos
- Se ver quiseres, por tal lepra ascosos.
- “Olha o que, como quis servo dos servos,
- Pra Bacchiglione foi do Arno mudado
- E ali deixou seus deformados nervos.
- “Não mais dizer, nem ir posso ao teu lado,
- Pois do areal já vejo de repente
- Vapor novo surgir afogueado.
- “Não devo andar com bando diferente.
- O meu Tesouro eu muito te encomendo:
- Nele inda vivo, e rogo isto somente”. —
- Voltou-se; e foi tão rápido correndo,
- Como os que correm pelo pálio verde
- No campo de Verona, parecendo
- Mais ser quem vence do que ser quem perde.