DEUS, venerunt gentes, alternando
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Beatriz anuncia, com linguagem misteriosa, que brevemente aparecerá quem libertará a Igreja e a Itália da servidão e da corrupção. Impõe-lhe que escreva o que viu. Pede, depois, a Matilde que o mergulhe nas águas do rio Eunoé. Dante, depois da imersão, sente-se mais forte e disposto a subir às estrelas.
- DEUS, venerunt gentes, alternando,
- Em coros dois, suave melodia
- Cantam as ninfas, pranto derramando.
- E Beatriz, a suspirar, ouvia
- Tão dorida, que pouco mais, outrora
- Junto da Cruz mostrara-se Maria.
- Quando lhe coube alçar a voz canora,
- Entre as formosas virgens posta em pé,
- Com santo ardor, que as faces lhe colora:
- “Modicum et non videbitis me,
- Caras irmãs, et iterum” — tornava —
- “Modicum et vos videbitis me”.
- Depois, antes de si as colocava,
- E a mim e a dama e ao Vate, que restara,
- Pra seguir os seus passos acenava.
- Ia assim: que ela houvesse eu não julgara
- O seu décimo passo em terra posto,
- Eis sua vista na minha se depara.
- — “Mais perto” — disse com sereno rosto —
- “Caminha; pois falar quero contigo,
- E o leves a me ouvir star bem disposto.” —
- Beatriz, logo em tendo-me contigo,
- — “Por que” — prossegue —“irmão não hás querido
- Me inquirir, quando vens assim comigo?” —
- Fiquei, como o que o espírito aturdido,
- Ao seu superior falando sente,
- E apenas balbucia confundido.
- Falei, com voz cortada, reverente:
- — “Quanto hei mister sabeis mui bem, senhora,
- O que seja em prol meu sabeis prudente.” —
- — “De temor e vergonha desde agora” —
- Tornou — “isento sê, stando ao meu lado:
- Como quem sonha as vozes não demora!
- “A caixa, que a serpente há devastado,
- Já foi: de Deus castigo aos criminosos
- Ser não pode por sopa obliterada.
- “Não faltarão herdeiros cuidadosos
- Da águia, que ao carro as suas plumas dera,
- E o tornou monstro e presa aos cobiçosos.
- “Vejo o porvir e a voz minha assevera
- O que propínquos astros anunciam:
- Nada os estorva, nem seu curso altera.
- “Um quinhentos dez cinco prenunciam,
- Que o céu manda a punir a depravada
- E o gigante: ambos juntos delinquiam.
- “A narração, talvez, de treva inçada,
- Como as do Esfinge e Têmis não a entendas,
- Por parecer-te ao spírito enleada.
- “Farão, porém, os fatos que a compreendas;
- Quais Náiades, darão do enigma a chave,
- Sem dano ao trigo, ao gado, sem contendas
- “Que na memória tua isto se grave:
- Como te falo, assim o ensina aos vivos
- Que se afanam em buscar morte insuave.
- “Lembra os que hás visto feitos aflitivos.
- Da árvore o stado narra, que te espanta,
- Quanto sofreu assaltos dois esquivos.
- “Quem despoja ou mutila a sacra planta
- Blasfema a Deus, de fato o ofende ousado:
- Para o seu uso só a criou santa.
- “Sperou a primeira alma, que há provado
- Do seu fruto, anos mil cinco gemendo
- Por quem penas em si deu do pecado.
- “Tua alma dorme, se não stá sabendo
- A causa singular, que a planta há feito
- Tão alta, o cimo tal largura tendo.
- “Se da água d’Elsa não trouxesse o efeito
- O teu vão cogitar sobre essa mente,
- Que escurece, qual sangue à amora o aspeito
- “Fora o que eu disse já suficiente
- Para o justo preceito compreenderes,
- Que Deus há posto sobre o tronco ingente.
- “Como te ofusca a luz dos meus dizeres.
- Porque de pedra tens o entendimento,
- Que, afeito à culpa, não permite veres,
- “Uma imagem te guarde o pensamento,
- Como palma ao bordão junta, voltando,
- Peregrino, em remédio ao esquecimento.” —
- — “No cérebro, qual cera conservando” —
- Tornei — “a marca do sinete impresso,
- Vosso verbo se irá perpetuando.
- “Mas por que se sublima em tanto excesso
- Vossa palavra, sempre apetecida,
- Que, alcançá-la tentando, desfaleço?” —
- — “Por veres” — diz — “que escola pervertida,
- Hás cursado, o que, pois, sua doutrina
- Ao verbo meu não pode ser erguida;
- “Pois a vereda vossa da divina
- É tão remota, quanto está distante
- Da terra o céu que ao alto mais se empina” —
- — “Não me lembro” — respondo à excelsa amante
- “De ter-me às vossas leis nunca esquivado:
- Não diz-mo a consciência vigilante.” —
- — “Possível é que estejas olvidado” —
- Respondeu-me a sorrir — “tem na lembrança
- Que inda há pouco, hás do Lete água tragado,
- “E se de flama o fumo dá fiança,
- Que o teu querer no erro andou perdido
- Demonstra o olvido teu com segurança.
- “Será da minha voz claro o sentido,
- Por que mais facilmente de ora avante
- Da rude mente seja percebido.” —
- Mais demorado, entanto, e coruscante
- No círc’lo entrava o sol do meio-dia,
- Como os climas diversos variante,
- Quando as damas, bem como astuto espia,
- Que, precedendo a tropa, de andar cessa,
- Se acaso novidade se anuncia,
- Paravam, ao sair da sombra espessa,
- Qual aos frios arroios murmurantes
- Dos Alpes bosque verde-negro of’reça.
- Julguei ver Tigre e Eufrates não distantes
- Brotar da mesma fonte juntamente
- E separar-se lentos, quais amantes.
- — “Ó glória! ó esplendor da humana gente!
- Qual é, dizei-me, essa água, bipartida
- Depois de proceder de uma nascente?” —
- — “Ser-te deve a pergunta respondida
- Por Matilde” — tornou-me então, falando
- Em tom de quem por falta fosse argüida,
- A dama disse: — “Tudo lhe explicando
- Já stive: não podia haver efeito
- Do Letes, a lembrança lhe apagando.” —
- E falou Beatriz: — “Pode ter feito
- Escura a mente sua o mor cuidado,
- Que o entendimento às vezes torna estreito.
- “Eis Eunoé, que o curso há derivado:
- Conduze-o e, como sabes, o imergindo,
- Seu coração alenta desmaiado.” —
- Como alma nobre, ao bem nunca fugindo,
- Faz do estranho querer própria vontade,
- Quando um simples sinal o está pedindo,
- A gentil dama, usando alta bondade,
- Guiou-me e a Estácio disse, que atendia:
- — “Segue-o também” — com garbo e majestade
- Esse doce licor, que não sacia,
- Eu cantara, leitor, se desse ensejo
- Da página uma parte inda vazia.
- Mas, porque todas ocupadas vejo
- E ao meu segundo Cântico aplicadas
- Da arte o freio me tolhe esse desejo.
- Como de planta as folhas renovadas
- Mais frescas na hástea mostram-se, mais belas,
- Puro saí das águas consagradas
- Pronto a me alar às lúcidas estrelas.