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A Divina ComédiaPurgatório · Canto XXXIII
PurgatórioXXXIII

DEUS, venerunt gentes, alternando

145 versos · 67 de 100


Beatriz anuncia, com linguagem misteriosa, que brevemente aparecerá quem libertará a Igreja e a Itália da servidão e da corrupção. Impõe-lhe que escreva o que viu. Pede, depois, a Matilde que o mergulhe nas águas do rio Eunoé. Dante, depois da imersão, sente-se mais forte e disposto a subir às estrelas.

  1. DEUS, venerunt gentes, alternando,
  2. Em coros dois, suave melodia
  3. Cantam as ninfas, pranto derramando.
  1. E Beatriz, a suspirar, ouvia
  2. Tão dorida, que pouco mais, outrora
  3. Junto da Cruz mostrara-se Maria.
  1. Quando lhe coube alçar a voz canora,
  2. Entre as formosas virgens posta em pé,
  3. Com santo ardor, que as faces lhe colora:
  1. “Modicum et non videbitis me,
  2. Caras irmãs, et iterum” — tornava —
  3. “Modicum et vos videbitis me”.
  1. Depois, antes de si as colocava,
  2. E a mim e a dama e ao Vate, que restara,
  3. Pra seguir os seus passos acenava.
  1. Ia assim: que ela houvesse eu não julgara
  2. O seu décimo passo em terra posto,
  3. Eis sua vista na minha se depara.
  1. — “Mais perto” — disse com sereno rosto —
  2. “Caminha; pois falar quero contigo,
  3. E o leves a me ouvir star bem disposto.” —
  1. Beatriz, logo em tendo-me contigo,
  2. — “Por que” — prossegue —“irmão não hás querido
  3. Me inquirir, quando vens assim comigo?” —
  1. Fiquei, como o que o espírito aturdido,
  2. Ao seu superior falando sente,
  3. E apenas balbucia confundido.
  1. Falei, com voz cortada, reverente:
  2. — “Quanto hei mister sabeis mui bem, senhora,
  3. O que seja em prol meu sabeis prudente.” —
  1. — “De temor e vergonha desde agora” —
  2. Tornou — “isento sê, stando ao meu lado:
  3. Como quem sonha as vozes não demora!
  1. “A caixa, que a serpente há devastado,
  2. Já foi: de Deus castigo aos criminosos
  3. Ser não pode por sopa obliterada.
  1. “Não faltarão herdeiros cuidadosos
  2. Da águia, que ao carro as suas plumas dera,
  3. E o tornou monstro e presa aos cobiçosos.
  1. “Vejo o porvir e a voz minha assevera
  2. O que propínquos astros anunciam:
  3. Nada os estorva, nem seu curso altera.
  1. “Um quinhentos dez cinco prenunciam,
  2. Que o céu manda a punir a depravada
  3. E o gigante: ambos juntos delinquiam.
  1. “A narração, talvez, de treva inçada,
  2. Como as do Esfinge e Têmis não a entendas,
  3. Por parecer-te ao spírito enleada.
  1. “Farão, porém, os fatos que a compreendas;
  2. Quais Náiades, darão do enigma a chave,
  3. Sem dano ao trigo, ao gado, sem contendas
  1. “Que na memória tua isto se grave:
  2. Como te falo, assim o ensina aos vivos
  3. Que se afanam em buscar morte insuave.
  1. “Lembra os que hás visto feitos aflitivos.
  2. Da árvore o stado narra, que te espanta,
  3. Quanto sofreu assaltos dois esquivos.
  1. “Quem despoja ou mutila a sacra planta
  2. Blasfema a Deus, de fato o ofende ousado:
  3. Para o seu uso só a criou santa.
  1. “Sperou a primeira alma, que há provado
  2. Do seu fruto, anos mil cinco gemendo
  3. Por quem penas em si deu do pecado.
  1. “Tua alma dorme, se não stá sabendo
  2. A causa singular, que a planta há feito
  3. Tão alta, o cimo tal largura tendo.
  1. “Se da água d’Elsa não trouxesse o efeito
  2. O teu vão cogitar sobre essa mente,
  3. Que escurece, qual sangue à amora o aspeito
  1. “Fora o que eu disse já suficiente
  2. Para o justo preceito compreenderes,
  3. Que Deus há posto sobre o tronco ingente.
  1. “Como te ofusca a luz dos meus dizeres.
  2. Porque de pedra tens o entendimento,
  3. Que, afeito à culpa, não permite veres,
  1. “Uma imagem te guarde o pensamento,
  2. Como palma ao bordão junta, voltando,
  3. Peregrino, em remédio ao esquecimento.” —
  1. — “No cérebro, qual cera conservando” —
  2. Tornei — “a marca do sinete impresso,
  3. Vosso verbo se irá perpetuando.
  1. “Mas por que se sublima em tanto excesso
  2. Vossa palavra, sempre apetecida,
  3. Que, alcançá-la tentando, desfaleço?” —
  1. — “Por veres” — diz — “que escola pervertida,
  2. Hás cursado, o que, pois, sua doutrina
  3. Ao verbo meu não pode ser erguida;
  1. “Pois a vereda vossa da divina
  2. É tão remota, quanto está distante
  3. Da terra o céu que ao alto mais se empina” —
  1. — “Não me lembro” — respondo à excelsa amante
  2. “De ter-me às vossas leis nunca esquivado:
  3. Não diz-mo a consciência vigilante.” —
  1. — “Possível é que estejas olvidado” —
  2. Respondeu-me a sorrir — “tem na lembrança
  3. Que inda há pouco, hás do Lete água tragado,
  1. “E se de flama o fumo dá fiança,
  2. Que o teu querer no erro andou perdido
  3. Demonstra o olvido teu com segurança.
  1. “Será da minha voz claro o sentido,
  2. Por que mais facilmente de ora avante
  3. Da rude mente seja percebido.” —
  1. Mais demorado, entanto, e coruscante
  2. No círc’lo entrava o sol do meio-dia,
  3. Como os climas diversos variante,
  1. Quando as damas, bem como astuto espia,
  2. Que, precedendo a tropa, de andar cessa,
  3. Se acaso novidade se anuncia,
  1. Paravam, ao sair da sombra espessa,
  2. Qual aos frios arroios murmurantes
  3. Dos Alpes bosque verde-negro of’reça.
  1. Julguei ver Tigre e Eufrates não distantes
  2. Brotar da mesma fonte juntamente
  3. E separar-se lentos, quais amantes.
  1. — “Ó glória! ó esplendor da humana gente!
  2. Qual é, dizei-me, essa água, bipartida
  3. Depois de proceder de uma nascente?” —
  1. — “Ser-te deve a pergunta respondida
  2. Por Matilde” — tornou-me então, falando
  3. Em tom de quem por falta fosse argüida,
  1. A dama disse: — “Tudo lhe explicando
  2. Já stive: não podia haver efeito
  3. Do Letes, a lembrança lhe apagando.” —
  1. E falou Beatriz: — “Pode ter feito
  2. Escura a mente sua o mor cuidado,
  3. Que o entendimento às vezes torna estreito.
  1. “Eis Eunoé, que o curso há derivado:
  2. Conduze-o e, como sabes, o imergindo,
  3. Seu coração alenta desmaiado.” —
  1. Como alma nobre, ao bem nunca fugindo,
  2. Faz do estranho querer própria vontade,
  3. Quando um simples sinal o está pedindo,
  1. A gentil dama, usando alta bondade,
  2. Guiou-me e a Estácio disse, que atendia:
  3. — “Segue-o também” — com garbo e majestade
  1. Esse doce licor, que não sacia,
  2. Eu cantara, leitor, se desse ensejo
  3. Da página uma parte inda vazia.
  1. Mas, porque todas ocupadas vejo
  2. E ao meu segundo Cântico aplicadas
  3. Da arte o freio me tolhe esse desejo.
  1. Como de planta as folhas renovadas
  2. Mais frescas na hástea mostram-se, mais belas,
  3. Puro saí das águas consagradas
  1. Pronto a me alar às lúcidas estrelas.
Começa o ParaísoIÀ GLÓRIA de quem tudo, aos seus acenos