QUANDO o lume bendito proferira
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Acabando S. Tomás de falar, ajunta-se à primeira coroa de doze espíritos resplendentes, mais uma coroa de igual número de espíritos. Um destes, S. Boaventura, franciscano, tece louvores a S. Domingos. Depois dá notícia acerca dos seus companheiros.
- QUANDO o lume bendito proferira
- Do discurso a palavra derradeira,
- A coréia, como eu já a vira,
- Inda uma volta não fizera inteira,
- Logo outra turma em círculo a encerrava
- Em voz acordes ambas e em carreira.
- Essa harmonia tanto superava
- Das Musas e sereias a cadência,
- Quanto ao reflexo a luz que rutilava.
- Como arcos dois das nuvens na aparência
- Curvam-se iguais na cor e equidistantes,
- Se de Íris Juno exige diligência,
- Nascendo um do outro, em forma semelhantes,
- Qual voz da que de amor foi consumida
- Como do sol as névoas alvejantes,
- E crer fazendo que há de ser mantida
- A promessa, a Noé por Deus firmada,
- De não ser mais a terra submergida:
- Assim de nós em torno ia agitada
- Cada grinalda das perpétuas rosas,
- Uma com outra em tudo conformada.
- Tanto que a dança e festa jubilosas,
- Por cantos e esplendores flamejantes
- Dessas luzes suaves e amorosas,
- Quedar eu vi nas rotações brilhantes,
- Quais olhos, juntamente ao nosso grado,
- Se abrindo e se fechando vigilantes,
- De um dos novos clarões voz, que, enlevado,
- Volver-me para si fez de repente,
- Qual à estrela polar ímã voltado:
- — “Amor” — diz — “que a beleza dá-me ingente
- Me induz a te falar do Mestre Santo,
- Que ao meu foi de louvor causa eminente.
- “Um se memore onde outro bilha tanto:
- Sob a mesma bandeira hão militado;
- Brilha a glória dos dois também no canto.
- De Cristo, a tanto custo restaurado,
- O exército o estandarte seu seguia,
- Já raro, lento, de temor tomado,
- “Quando à milícia, que o valor perdia
- O Eterno Imperador deu provimento,
- Só por Graça: esse bem não merecia;
- “E da Esposa enviou por salvamento
- Dois campeões, de cuja voz movida,
- A transviada gente cobra o alento.
- “Na terra, em que, ao seu hábito, convida
- O Zéfiro a se abrirem novas flores,
- De que se vê a Europa revestida,
- “Em plaga, onde se embate em seus furores
- O mar, em que, o seu curso terminado,
- O sol esconde às vezes seus ardores,
- “Jaz Calaroga em solo afortunado,
- Que o poderoso escudo protegera,
- No qual leão subjuga e é subjugado.
- “Ali o atleta heróico à luz viera,
- Da fé cristã esse indefesso amante,
- Que, aos seus beni’no, aos maus guerra fizera.
- “Foi virtude em sua alma tão possante,
- Que, ainda estando no materno seio,
- Do porvir fez a mãe vaticinante.
- “Quando a firmar-se o desposório veio
- Entre ele e a Fé, na fonte consagrada,
- De muita salvação seguro meio,
- “De dar pôr ele o assento a encarregada
- A messe viu em sonhos milagrosa,
- Que dele e herdeiros seus era esparada.
- “Do seu destino em prova portentosa,
- Anjo baixou ao fim só de chamá-lo
- Do Senhor de quem era a alma piedosa.
- “Domínico foi dito e eu dele falo,
- Como o operário, que elegera Cristo,
- Da vinha no lavor para ajudá-lo.
- “Servo e enviado mostrou ser de Cristo
- Por quanto o amor primeiro, que há mostrado,
- Foi a primeira lei que nos deu Cristo.
- “Muitas vezes a mãe o achou prostrado,
- Em profundo silêncio e bem desperto,
- Como a dizer: — A isto eu fui mandado.
- “Oh! foi seu genitor feliz por certo!
- Oh! sua mãe realmente foi Joana
- Se há no sentido que lhe dão, acerto!
- “Não pelo amor do mundo, que se engana,
- Do Ostiense e Tadeu nos livros lendo,
- Mas de Jesus pelo maná se afana,
- “Sapiente doutor em breve sendo,
- Da santa vinha guarda vigilante,
- Que presto seca, pouco zelo havendo.
- “De Roma à sede quando foi perante,
- Que aos justos era compassiva outrora,
- Hoje, por culpa do que a rege, errante,
- “Onzenárias dispensas não lhe implora,
- Nem primeira prebenda, que vagasse,
- Nem dízimas, que são do pobre, exora.
- “Mas contra o mundo, que no qual compraz-se,
- Pede o favor de defender a planta,
- Da qual tens flores vinte e quatro em face.
- “Com seu querer e com doutrina santa,
- Como a torrente, que da altura desce,
- De apóstolo por zelo o mundo espanta.
- “Dos hereges se arroja à infanda messe,
- E onde a resistência mais porfia
- Das forças suas o ímpeto recresce.
- Dele brotaram rios, que hoje em dia
- Têm o jardim católico regado
- E aos seus arbustos dão viço e valia.
- “Se tal foi uma roda do afamado
- Carro, em que defendeu-se a Santa Igreja,
- E a civil guerra em campo há superado,
- “Da outra o alto mérito qual seja
- Já te disse Tomás, eu stando ausente:
- Dele nas vozes seu louvor lampeja.
- “Porém daquela roda o sulco ingente
- Ficou em desamparo tal, que o lodo
- Onde era a flor domina tristemente.
- “Vê-se a família sua por tal modo
- Da vereda de outrora transviada,
- Que esqueceu-lhe as pegadas já de todo.
- “Logo a cultura má será provada
- Na seara, zizânia sendo ao vento,
- Em vez de ir ao celeiro, arremessada.
- “Que nosso livro folheasse atento
- Veria, creio, página, em que lesse:
- — Sou, como sempre, de impureza isento. —
- “Em Casal e Água-Sparta igual não vê-se:
- Lá de tal jeito entende-se a Escritura,
- Que um tíbio a foge, outro excessivo a empece.
- “De Bargnoregio eu sou Boaventura,
- Que, exercendo altos cargos, repelia
- Dos interesses temporais a cura.
- “Vê, dos irmãos descalços primazia,
- Iluminato, de Agostinho ao lado:
- Cada qual no burel por Deus ardia.
- “Hugo vê de S. Vítor premiado
- Como Pedro Mangiadore e Pedro Hispano
- Pelos seus doze livros celebrado.
- “Natã Profeta e o Metropolitano
- João Crisóstomo, Anselmo e o afamado
- Donato, na primeira arte sob’rano.
- “Vê Rabano, a brilhar vê ao meu lado
- O calabrês Abade Giovachino,
- De espírito profético dotado.
- “Aos louvores do excelso paladino
- Moveu-me a caridosa cortesia,
- O dizer sábio de Tomás de Aquino,
- E comigo a esta santa companhia.”