O MUNDO com perigo verdadeiro
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Dante e Beatriz elevam-se à estrela de Vênus, onde estão os espíritos daqueles que outrora foram propensos às paixões amorosas. Encontro com Carlos Martelo, o qual referindo-se à índole mesquinha de seu irmão Roberto, explica-lhe como se dá que de um bom pai possa nascer um filho mau e, enfim, quanto providencial é a Natureza nos seus decretos e quão vaidosos são os homens que não lhe seguem as indicações.
- O MUNDO com perigo verdadeiro
- Creu que Ciprina bela dardejava
- Louco amor do epiciclo que é terceiro.
- Sacrifícios não só lhe consagrava,
- Preces e votos essa antiga gente
- No erro antigo fatal, que a transviava,
- Mãe e filho adoravam juntamente,
- Dione e o seu Cupido, que fingiram
- De Dido reclinado ao seio ardente;
- Dessa falsa deidade o nome uniram
- Ao planeta, que o sol sempre namora,
- Quando raiam seus lumes, quando expiram.
- Como ao astro eu me alcei, a mente ignora,
- Mas certo fui de haver lá penetrado,
- Mais formosa por ver minha senhora.
- Como se vê fagulha em fogo ateado,
- Como uma voz é de outra discernida,
- Firme o som de uma, o de outra variado,
- Outros clarões notei na luz subida,
- Mais ou menos velozes se volvendo,
- Lá da eterna visão, creio, à medida.
- Ou visíveis ou não, ventos rompendo,
- Em rápida invasão, de nuve’ escura,
- Demorados stariam parecendo,
- A quem pudesse ver cada luz pura,
- Que ao nosso encontro vem deixando a dança
- Que marcam serafins dos céus na altura.
- Trás a grei, que primeiro nos alcança.
- Tão doce hosana soa, que, incessante,
- De inda ouvi-lo o desejo jamais cansa.
- Dos espíritos um, que vem diante
- Só principia: — “Todos nós queremos
- Quanto para aprazer-te for prestante.
- “Num só ardor e giro nos movemos
- Cos Príncipes, celestes esplendores
- De quem no mundo hás dito (bem sabemos):
- — “Vós, do terceiro céu sábios motores!” —
- Por te agradar nos é doce o repouso
- Tão vivos são do nosso amor fervores!” —
- De Beatriz ao gesto luminoso
- Depois que alcei os olhos reverente
- E certo fui do seu querer donoso,
- À luz, que se mostrou condescendente
- Em tanto grau — “Quem és” — falei, de afeito
- Estremecido possuída a mente.
- Ó das palavras minhas raro efeito!
- Maior a vi brilhar; nova delice
- A alegria aumentou do claro aspeito.
- — “Bem pouco o mundo” — a refulgir-me, disse —
- “Me teve; se algum tempo mais vivesse,
- Mal, que há de vir, por certo ninguém visse.
- “O júbilo que em torno me esclarece,
- Aos teus olhos me encobre, como inseto,
- Que dos seus véus de seda se guarnece.
- “Com razão me votaste o extremo afeto;
- Pois, em mais longa vida, eu te mostrava
- Por ações quanto me eras tu dileto.
- “Aquela região, que o Rone lava
- À sestra, quando ao Sorga corre unido,
- Por senhor seu um dia me esperava.
- “Como da Ausônia o litoral partido
- Por Bari, por Gaeta e por Crotona.
- Onde é do Tronto e Verde o mar nutrido.
- “Da c’roa a fronte minha já se entona
- Do vasto reino, que o Danúbio rega,
- Quando as plagas tudescas abandona.
- “Trinácria, a cujos céus névoa carrega
- Sobre o golfo, em que mais Euro embravece,
- De Paquino a Peloro, em mor refega,
- “Que não Tifeu, mas súlfur escurece,
- O trono guardaria à prole minha,
- Que de Carlo e Rodolfo antigos desce,
- “Se o mau jugo, que os povos amesquinha,
- A gritar — morra! morra! — não movesse
- Palermo, a quem temor não mais continha.
- “Se mais prudência meu irmão tivesse,
- Dos Catalanos a indigência avara
- Fugira, por que o mal seu não crescesse.
- “Urgente, na verdade, se tomara
- Que, por si ou por outrem, não deixasse
- Mais onerar a barca, que adernara.
- “Quando a índole nobre transtornasse
- Avareza, milícia ter devia,
- Que só de encher seus cofres não curasse.” —
- — “Como creio” — tornei-lhe — “a essa alegria,
- Que me infundes, Senhor, a origem tira
- De Deus que todo bem finda e inicia.
- “Comigo a sentes: mor prazer me inspira.
- Quanto me hás dito, me é no extremo caro,
- Pois vês, de Deus no espelho tendo a mira.
- “Ledo me hás feito; assim tornar-me claro
- O que por teu dizer stá duvidoso:
- Semente doce brota fruto amaro?” —
- — “Vendo a verdade” — disse — “pressuroso
- Darás o dorso ao que ora dás o rosto,
- Verás claro o que julgas tenebroso.
- “O Bem, que os céus, que sobes, há disposto,
- Os move e alegra, sem pôr providência
- Nestes corpos que vês virtude posto.
- “E não só com perfeita previdência
- Cousas terrestres acham-se ordenadas,
- Mas as preserva a sua onipotência;
- “Porque as setas, deste arco arremassadas,
- Predestinadas são a um ponto certo,
- Infalíveis ao alvo enderaçadas.
- “O céu aliás, aos olhos teus aberto,
- Só feituras sem arte produzidas
- Abrangera e ruínas no deserto.
- “Foram então de perfeição despidas
- As Substâncias, que regem as estrelas
- E a mão, que as fez assim destituídas.
- “Verdades são: mais claras queres vê-las?” —
- — “Não” — repliquei — “supor não poderia
- Natura escassa em suas obras belas.” —
- — “Um mal, dize-me, fora” — prosseguia —
- “Não ser o homem cidadão na terra?” —
- — “Por certo; e a razão sei” — lhe respondia.
- — “Sociedade haverá, se não encerra
- Misteres vários, que cada um pratica?
- Não, se o teu Mestre em seu pensar não erra.” —
- Deduzindo, a evidência significa,
- E logo concluiu: — “Causa dif’rente
- Efeito diferente sempre indica.
- “Nasce um Sólon, e Xerxe outro é furente,
- Melquisedeque ou Dédalo perito,
- Que no ar perdeu o filho seu demente.
- “Perfeito é o giro pelos céus descrito;
- Na cera humano o seu sinal fazendo,
- Mas solar não distingue, nem distrito.
- “Daí vem que Esaú, logo em nascendo,
- Difere de Jacó; toma Quirino
- Marte por genitor, seu pai vil sendo.
- “Natureza gerada, em seu destino
- Seria sempre igual à que a fizera,
- Se não vencesse o decretar divino.
- “O rosto ora diriges à luz vera;
- Mas inda um corolário te ofereço,
- Pois de agradar-te em mim desejo impera.
- “Sempre natura, se da sorte excesso
- A contraste, produz fruto danado,
- Como semente posta em solo avesso.
- “Se meditasse o mundo, desvelado,
- Nos fundamentos, que natura lança,
- De melhor gente fora povoado.
- “Mas quem próprio seria à militança
- Na soledade monacal definha,
- Bem pregara quem, Rei, em vão se cansa.
- E fora assim da estrada se caminha.” —