DE Beatriz no gesto o entendimento
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Dante sobe do céu de Júpiter ao de Saturno, no qual encontra as almas dos que se dedicaram na vida à celeste contemplação, onde vê uma escada altíssima pela qual vai subindo o descendo uma multidão de almas resplendentes. S. Pedro Damião vai ao encontro do poeta e lhe fala do dogma da predestinação.
- DE Beatriz no gesto o entendimento,
- Acompanhando os olhos, embebia;
- De ai não cuidava absorto o pensamento
- Beatriz, sem sorrir-se, me dizia:
- — “O sorriso contenho; de outra sorte,
- Como Semele, em cinzas te veria.
- “Minha beleza, viste já, mais forte
- Refulge, quanto mais se eleva a escada,
- Por onde ascende para a eterna corte.
- “Teu vigor, se não fora moderada,
- Ao seu fulgor, de todo fenecera,
- Qual fronde, pelo raio espedaçada.
- “À sétima chegamos clara esfera,
- Que sob o peito do Leão ardente
- Da luz mais viva do que de antes era.
- “Teus olhos acompanhe pronta a mente;
- Sejam-te espelho a quanto este astro belo,
- Que um espelho é também, fará patente.” —
- Quem bem coubesse a força do desvelo,
- Com que a vista em seu gesto se pascia,
- Quando voltei-me a impulso de outro anelo,
- Quanto contente fui conheceria,
- Minha guia celeste obedecendo,
- Após uma gozando outra alegria.
- No cristal, que, em seu giro se movendo,
- O nome do Monarca tem querido,
- Que a todo vício foi flagelo horrendo,
- De áurea cor, em que o sol é refletido,
- Escada vi de tão sublime altura,
- Que o topo aos olhos stava-me escondido.
- Pelos degraus brilhando com luz pura
- Descia soma tanta de esplendores,
- Que os clarões todos ver se me afigura.
- Como, ao seu modo, aos matinais albores,
- As gralhas, pelos ares se movendo,
- Aquecem-se, do frio nos rigores,
- Umas se vão não mais voltar querendo,
- Tornam outras, buscando o pouso amado,
- Rodam outras, os vôos seus contendo:
- Tal dos lumes o bando sublimado
- Pela escada formosa parecia,
- Até certo degrau terem tocado.
- E o que parou mais perto resplendia
- Tão claro, que eu pensei: — Luz, que eu venero
- Em ti, amor, em que ardes, denuncia.
- Mas Beatriz de quem sinal espero
- Pra dizer ou calar, grave emudece:
- Eu pois o anelo meu, reprimir quero.
- Ela, que o meu pensar então conhece,
- Pois quem tudo prevê lho manifesta,
- — “Cumpre” — disse — “o que a mente ora apetece.” —
- E comecei: — “Direito não me presta
- A resposta o meu mérito apoucado:
- Mas por aquela, que o valor me empresta,
- “Espírito ditoso, que velado
- Stás por tua alegria, me declara
- Por que tão perto a mim te hás colocado;
- “E por que muda está na esfera clara
- Do paraíso a doce sinfonia,
- Que tão devota noutras escutara.” —
- — “Como os olhos o ouvido” — respondia —
- “Tens mortal: nesta esfera não se canta,
- Nem Beatriz sorri, como soía.
- “Tantos degraus desci da escala santa
- De prazer por te dar mostra evidente
- Em vozes e na luz que me abrilhanta.
- “Não que me apresse o afeto mais ardente,
- Pois lá por cima igual ou mais se acende,
- Como te prova o flamejar ingente.
- “Mas alta caridade, que nos prende
- A quem por seu querer tudo governa,
- Quais vês, marca os lugares como entende.” —
- — “Bem conheço” — tornei — “sacra luzerna,
- Como o livre amor do céu na corte
- Basta para cumprir vontade eterna;
- “Mas como, entre a dos teus santa coorte,
- Tu só chamado a este cargo hás sido,
- Por discernir não hei mente assaz forte.” —
- A voz final não tendo proferido,
- Qual veloz roda, sobre si girando,
- Volveu-se o lume, súbito movido.
- O amor, que encerrava, então falando
- — “Em mim dardeja” — disse — “a luz divina,
- Esta, que me circunda, penetrando.
- “Com meu ver, sua ação, que assim combina,
- Tanto me alteia, que a Suprema Essência,
- Donde ela emana, a mim se descortina.
- “Daí vem do meu júbilo esta ardência;
- Pois a minha visão quanto é mais clara,
- Da claridade em mim sobe a eminência.
- “Alma, porém, que mais no céu se aclara,
- O serafim, que em Deus mais se embevece,
- Resposta ao teu dizer não deparara.
- “Tanto o que me perguntas desparece
- Dos eternos conselhos no infinito,
- Que a vista a todos pávida esmorece.
- “Ao mundo isto por ti deve ser dito,
- Que da verdade saiba quanto aberra,
- Os pés movendo ao transcedente fito.
- “Alma, que é flama aqui, fumo é na terra:
- O que no céu jamais saber alcança,
- Como ver pode, quando a cinza a encerra?” —
- Em tanto enleio o seu dizer me lança,
- Que humilde, outras perguntas evitando,
- Em lhe saber o nome pus a esp’rança.
- — “De mares dois no meio demorando,
- De Florenca não longe, estão rochedos,
- Aos trovões sobranceiros se empinando.
- “Catria chama-se a giba dos penedos:
- Ao pé se vê um claustro consagrado
- Da alma com Deus aos místicos segredos.” —
- Terceira vez o santo me há tornado.
- E disse, prosseguindo: — “Nessa ermida
- Somente a Deus servir me hei dedicado.
- “Com suco de oliveira por comida,
- Contente a calma e frio suportava,
- Passando ali contemplativo a vida.
- “Nesse retiro ao céu se aparelhava
- Ampla seara; estéril tanto agora,
- Que o véu já cai que o mal dissimulava.
- “Fui Pedro Damiano; um Pedro outrora
- Dito Pecador junto ao Ádria esteve
- Na casa em que invocou Nossa Senhora.
- “Da vida me restava espaço breve,
- Quando ao claustro arrancado, me cingiram
- Chapéu, que a indignas fontes já se deve.
- “Magros descalços a missão cumpriram,
- O Vaso de Eleição e Cefas, tendo
- O pão de cada dia, que pediram.
- “Hoje o pastor, a custo se movendo,
- Anda de um lado ao do outro carregado,
- Quem o sustente por de trás querendo.
- “Seu manto, o palafrém tendo embuçado,
- Dois brutos numa pele está fingindo:
- Ó paciência, quanto hás suportado!” —
- Calou-se. Luzes mil eu vi, fulgindo,
- Descer em veloz giro a excelsa escada:
- Seu brilho, em cada volta, ia subindo.
- Parando em torno a essa alma afortunada,
- A voz em som tão alto despediram,
- Que não pudera ser de outro igualada.
- Não sei, torvado, o que elas proferiram.