DIZER o sangue e as chagas espantosas
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No nono compartimento os Poetas encontram os semeadores de cismas e escândalos civis e religiosos. Dante vê Maomé, que o encarrega de uma embaixada para o herege rei Dolcino; fala também com outros danados.
- DIZER o sangue e as chagas espantosas,
- Que eu vi neste lugar, quem poderia,
- Em livre prosa e em vezes numerosas?
- Nenhuma língua, certo, bastaria;
- Fraca a palavra, inábil nossa mente
- Para horror tanto compreender seria.
- Quando junta estivesse toda gente,
- Que lá da Apúlia na infelice terra,
- Perdera o sangue seu na luta ingente
- Dos romanos por mãos; e em crua guerra
- A que tantos de anéis deixou vencida,
- Como refere Lívio, que não erra;
- E a que fora por golpes abatida,
- Quando a Roberto Guiscardo resistia;
- E a que tem sua ossada inda espargida
- De Ceperan no campo, onde traía
- Cada Apulhês; e que no Tagliacozzo
- O Velho Alard sem combater vencia:
- Das feridas o aspecto lastimoso
- Não fora, qual no fosso nono imundo
- Apresentava o bando criminoso.
- Qual tonel, que aduelas perde ao fundo,
- Estava um pecador, que roto eu via
- Das fauces ao lugar que é menos mundo.
- As entranhas pendiam-lhe; trazia
- Patentes os pulmões e o saco feio,
- Onde o alimento de feição varia.
- A contemplá-lo estava de horror cheio,
- Eis me encara e me diz, abrindo o peito:
- “Vê como eu tenho lacerado o seio!
- “Mafoma sou, quase pedaços feito;
- Antecede-me Ali, que se lamenta:
- Do mento à testa o rosto lhe é desfeito.
- “Todos, que a dor aqui tanto atormenta,
- De escândalos, de cismas inventores,
- Pendidos têm, qual vês, pena cruenta.
- “Demônio deixo atrás que os pecadores
- Aos fios passa de cruel espada.
- Da multidão nenhum aos seus furores
- “No giro escapa da afrontosa estrada.
- Cerrar-se em todo cada golpe horrendo
- Antes que torne a olhar-lhe a face irada.
- “Mas quem és, que, na rocha te detendo,
- Estás dessa arte a dilatar a pena,
- Que Minos te aplicou, teus crimes vendo?”
- — “Não é morto; sentença o não condena” —
- Torna o Mestre — “não vem por seu castigo,
- Mas, para ter experiência plena.
- “Descendo ao mais profundo vai comigo,
- Que morto sou, dos círculos temidos:
- Tão certo é como falo ora contigo”.
- Ouvindo mais de cento dos punidos,
- De espanto a me encarar se demoraram,
- Dos seus próprios tormentos esquecidos.
- — “A Frei Dolcino diz, pois não findaram
- Teus dias e hás de ao sol tornar em breve,
- Se desejos de ver-me o não tomaram,
- “Que se aperceba; pois, cercando-o, a neve
- Dará triunfo à gente de Novara,
- A quem vencê-lo assim há de ser leve”.
- Para partir um pé Mafoma alçara
- Ao tempo, em que palavras tais dizia:
- Baixou-o e foi-se, apenas rematara.
- De guela golpeada outro acorria;
- Té as celhas nariz tendo truncado,
- Uma orelha somente possuía.
- Como os mais, contemplando-me pasmado,
- Aos mais se antecipou e, escancarando
- O canal, que de sangue era inundado,
- “Ó tu” — falou-me — “que não stás penando,
- Que outrora hei visto em região latina,
- Se eu não erro, aparências aceitando,
- “Recorda-te de Pier de Medicina
- Se tornar-te for dado ao belo plano,
- Que de Vercello a Marcabó se inclina.
- “E aos dois nobres varões dize de Fano,
- Misser Angiolello e Misser Guido,
- Se o futuro antevendo, eu não me engano,
- “Que do baixel, que os haja conduzido,
- De Católica ao pé, ao mar lançados
- Serão por ordem de um tirano infido.
- “Por Gregos, por piratas perpetrados,
- Entre Chipre e Maiorca ao infame feito
- Não viu Netuno crimes igualados.
- “O traidor, que de um olho tem defeito,
- Dessa terra opressor, que um companheiro
- Meu tivera em não vê-la mor proveito,
- “Irão a seu convite prazenteiro
- Para acordo; mas votos de Foscara
- Não fará por temer vento ponteiro”.
- “Revela-me” tornei-lhe — “e me declara,
- Desse favor, que deprecaste, em troca,
- Quem de ver essa terra se pesara”.
- As mãos de um pecador alçando à boca,
- Escancarou-a e disse-me gritando:
- — “É este; a voz, porém, se lhe sufoca.
- “Exulado, ele foi quem, dissipando
- Hesitações de César, lhe afirmava
- Que a ocasião perdia demorando”.
- Oh! quão pávido Cúrio se mostrava,
- Tendo cortada a língua na garganta,
- Que outrora tanta audácia aconselhava!
- Dos decepados braços alevanta
- Outro os cotos ao ar caliginoso:
- Banha-lhe o sangue a face, que me espanta.
- Gritou: — “Memora Mosca desditoso!
- Fui quem disse: — O seu fim tem cousa feita!
- Fatal dito, à Toscana, ai! bem danoso!”
- “E à tua raça, que à morte foi sujeita!”
- Atalhei. Sobre a dor, dor se acendendo
- Em desesp’rança se partiu desfeita.
- Aquela multidão stava atendendo,
- Cousa assombrosa eis vejo, que inda hesito
- Em narrar, provas outras eu não tendo.
- Da consciência já me alenta o grito,
- Sócia fiel, que o homem torna forte,
- Sob o arnês da verdade, sempre invicto.
- Eu via, e cuido ver na mesma sorte
- Apropinquar-se um corpo sem cabeça,
- Por entre os outros da infeliz coorte,
- Caminha, alçando-a pela coma espessa,
- Da mão pendente a modo de lanterna:
- Gemendo, os olhos seus nos endereça.
- Servia ele a si próprio de luzerna,
- Eram duas em um, era um em duas:
- Como ser pode, sabe o que governa.
- Chegado ao pé da ponte, das mãos suas
- Um ao alto a cabeça levantava
- Para lhe ouvirmos as palavras cruas.
- “Vê meu duro castigo!” — assim falava —
- “Tu, que os mortos visitas, sendo em vida:
- Outro já viste igual ao que me agrava?
- “Eu sou — faz minha história conhecida,
- Voltando à luz — Bertran de Born, que há dado
- Ao jovem Rei consulta, em mal tecida.
- “Pai e filho inimigos hei tornado:
- As iras de Absalão mais não movera.
- Contra Davi Aquitofel malvado.
- “Laços tais como eu, pérfido, rompera,
- Meu cérebro assim levo desunido
- Desse princípio, que no corpo impera:
- Por lei sou, pois, de talião punido”.