QUANDO Juno, de Semele ciosa
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No décimo compartimento são punidos outras espécies de falsários. Os falsificadores de moedas, tornados hidrópicos, são constantemente atormentados por furiosa sede; entre eles está mestre Adão de Brescia, o qual narra que, à instigação dos condes Guidi, falsificou o florim de Florença. Os que falaram falsamente são perseguidos por febre ardentíssima. O canto termina com uma altercação entre mestre Adão e o grego Sinon. Virgílio repreende Dante pois este pára, escutando as injúrias que os dois trocam entre si.
- QUANDO Juno, de Semele ciosa,
- Contra o sangue tebano se inflamava,
- Como o provou por vezes impiedosa,
- Tanta insânia Atamante perturbava,
- Que a esposa ao ver, ao colo seu trazendo
- Os filhos dois, que a ele encaminhava,
- Gritou: “Redes tendamos! Já stou vendo
- Leoa e leõzinhos da embosacada!”
- Disse e, raivoso, os braços estendendo
- De um, Learco, travava e de pancada
- Rodou-o e o percutiu em penedia.
- Ao mar lançou-se a mãe com outro abraçada
- Quando a fortuna a cinzas reduzia
- A pujança de Tróia, em tudo altiva,
- E com seu reino o morto rei jazia,
- Hécuba triste, mísera, cativa,
- Depois de morta Polixena vira,
- Do Polidoro seu em plaga esquiva,
- Súbito quando o corpo descobrira
- Uivou qual cão, de angústia possuída.
- Tanto a pungente dor nalma a ferira!
- Mas em Tebas ou Tróia destruída
- Homens ou feras nunca revelaram
- Raiva, em tantos extremos desmedida,
- Como almas duas lívidas, que entraram
- Nuas correndo, os dentes amostrando,
- Quais cerdos, que à pocilga se esquivaram.
- Uma alcançou Capocchio e, lhe cravando
- No colo as presas, rábida, arrastava
- Sobre o ventre na rocha o miserando.
- Mas o de Arezzo, que tremendo estava
- “É Gianni Schicchi” — disse — esse raivoso:
- De outros a pena o seu furor agrava!”
- “Possas livrar-te do outro esp’rito iroso!”
- Falei — “Se não te causa assim fadiga,
- Diz quem seja, antes de ir-se o furioso”.
- “Aquele é” — respondeu — “uma alma antiga;
- É Mirra infame, que paixão impia
- Instigou ser do pai a sua amiga.
- “Para o seu crime consumar fingia
- De outra pessoa as formas e o semblante.
- Igual ardil usara Schicchi um dia:
- “Para em prêmio alcançar égua farfante:
- Contrafez Buoso morto e ao testamento
- Falso a norma legal deu, que é prestante”.
- Aos dois raivosos estivera atento
- Até que de ante os olhos se apartaram;
- De outros volvi-me ao cru padecimento.
- Num do alaúde as formas se notaram
- Se as pernas lhe tivessem cerceado
- Na parte, em que do tronco se separam.
- Da grave hidropisia molestado,
- Que tanto o humor vicia e tanto ofende,
- Que o rosto estreita e faz o ventre inchado,
- A boca ter cerrada em vão pretende,
- Qual hético de sede ressequido.
- A quem um lábio se alça e o outro pende.
- “Ó vós, que ao negro abismo haveis descido
- (Não sei por que razão) de pena isentos,
- Olhai” — disse — “prestando atento ouvido,
- “De mestre Adam miséria e sofrimentos
- Tive abastança; agora, ai! desejando
- De água uma gota, passo mil tormentos,
- “Dos ribeiros, que ao Arno, murmurando
- Do Casentino lá na verde encosta
- Se vão, por moles álveos inclinando,
- “Na mente a imagem sempre tenho posta.
- Não em vão: mais me seca e me fustiga
- Que o mal, de que esta face é descomposta.
- “Quer Justiça, que austera me castiga,
- Que o teatro, onde hei crimes cometido,
- Mais me acendendo anelos, me persiga.
- “Lá demora Romena, onde hei fingido
- Em falso cunho a imagem do Batista;
- Assim meu corpo o fogo há consumido.
- “Se a sombra achasse aqui, se aqui já exista,
- De Guido ou de Alexandre ou seu germano!
- Fonte-Branda esquecera ante essa vista.
- “Mas um já veio, se induzir-me a engano
- Os raivosos, que giram, não quiseram.
- Que importa? Para andar em vão me afano.
- “Se os meus pés transportar-me inda puderam,
- De um sec’lo ao cabo, espaço de uma linha,
- Já postos a caminho se moveram,
- “A fim de o ver na multidão mesquinha
- Do val, que milhas onze em torno amplia,
- Com largura, que de uma se avizinha.
- “Star lhes devo em tão triste companhia:
- Florins cunhei, aos três obedecendo,
- Nos quais quilates três de liga havia”.
- “Quem são” — lhe disse — os dois que ora estou vendo?
- Quais no inverno mãos úmidas fumegam,
- À destra tua próximos jazendo”.
- “Já stavam quando vim: eles se entregam,
- Dês que desci, a quietação completa;
- E creio, assim a eternidade empregam.
- “Uma acusou José, falsária abjeta,
- Outro é Sinon, de Tróia o Grego tredo:
- Lançam por febre essa fumaça infecta”.
- Anojado um do par, que estava quedo,
- Por ver em vozes tais afronta e ofensa,
- À pança o punho lhe vibrou sem medo:
- Soou, qual de zabumba a pele tensa.
- O braço Mestre Adam lhe envia à face
- E assim lhe dá condi’na recompensa.
- “Inda que” — disse — os membros meus enlace
- Moléstia, que me tolhe o movimento,
- Presteza a destra tem, com que rechace”.
- “Foste” — o outro tornava — “mais que lento
- Quando forçado ao fogo caminhavas.
- Só presto eras no ofício fraudulento”.
- “É certo; mas verdade não falavas”
- O hidrópico diz — “quando exigiram
- Em Tróia essa verdade, que ocultavas”.
- “Se os lábios meus perjúrio proferiram,
- Tu falsaste moeda: eu fiz um crime,
- Aos teus nunca em demônio iguais se viram”.
- “Do cavalo a façanha inda te oprime”
- — Responde o que a barriga tinha inchada —
- Sobre o teu nome infâmia o mundo imprime”.
- “Arda em sede tua língua já gretada!”
- Grita o Grego — “Hajas de água saniosa
- O ventre impando, a vista embaraçada!”
- “Escancaras a boca venenosa”
- O moedeiro diz — “por mal somente;
- Se sede eu tenho e a pança volumosa
- “Ardes tu e a cabeça tens fervente.
- Por lamberes o espelho de Narciso
- A um aceno correras de repente”.
- Atento estava aos dois mais do preciso,
- Eis Virgílio me fala: — “Oh! toma tento!
- Quase que eu contra ti me encolerizo!”
- Iroso assim falar neste momento
- O Mestre ouvindo, voltei-me corrido:
- Ainda sinto rubor em pensamento.
- Como quem sonha danos ter sofrido,
- Que em sonho espera que sonhando esteja
- E anela que o que é já não tenha sido,
- A mente, sem dizer, falar deseja.
- Desculpas aspirando à falta sua;
- Stá desculpada e cuida que o não seja.
- “Menos rubor lavara a culpa tua”
- Disse o Mestre — “se houvera mor graveza:
- Fique-te a mente da tristeza nua.
- “E quando queira o acaso que à torpeza
- De iguais debates se ofereça ensejo.
- De que eu steja ao teu lado faz certeza,
- Que é ter querendo ouvi-los, vil desejo”.