PASSADO estando o limiar da porta
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Os dois Poetas sobem ao primeiro compartimento do Purgatório, cuja escarpa é de mármore, no qual estão esculpidos vários espisódios de humildade. Eles os observam e no entanto vêem em sua direção várias almas curvadas sob o peso de grandes pedras. São as almas dos que no mundo foram soberbos.
- PASSADO estando o limiar da porta,
- Das paixões pelo excesso desusada,
- Que reta faz supor a estrada torta,
- Pelo estrondo senti que era cerrada.
- Se atrás volvesse os olhos, qual seria
- A desculpa da falta perpetrada?
- Subíamos por fenda que se abria
- Na rocha, a um lado e ao outro serpeando,
- Qual onda, que ora acerca, ora desvia.
- “Aqui ser destro cumpre, acompanhando” —
- Disse o Mestre — “o caminho árduo, fragoso,
- Que as sinuosas voltas vai formando.” —
- A passo íamos, pois, tão vagaroso,
- Que a lua o crescente reclinado
- Era já no seu leito de repouso,
- Quando aquela estreiteza hemos deixado
- Espaços livres alcançando e abertos,
- Onde o monte pra trás era inclinado;
- Eu inanido e ambos nós incertos
- Da vereda, em planura enfim paramos,
- Mais solitária que áridos desertos.
- Do precipício a borda calculamos
- Distar da oposta, em que o rochedo alteia,
- Comprimento que em homens três achamos.
- Na extensão, que ante mim se patenteia,
- Da direita ou da esquerda igual largura
- Nessa cornija aos olhos se franqueia.
- Não déramos um passo na planura,
- Quando notei que a escarpa sobranceira,
- Que ascender não permite a sua altura,
- Era alvo mármor, tendo a face inteira
- Talhada com primor, que a Policleto
- Tomara e à natureza a dianteira.
- O anjo, que da paz trouxe o decreto,
- Tantos séc’los com lágrimas pedido,
- Que o céu abriu, donde o homem stava exceto,
- Ao vivo ali mostrava-se insculpido,
- No gesto e no meneio tão suave,
- Que em pedra não parece estar fingido.
- Quem não jurara que profere o Ave,
- Pois juntamente figurada estava
- Quem do supremo amor volvera a chave?
- Seu semblante estas vozes expressava
- Ecce ancilla tão propriamente,
- Como na cera imagem, que se grava.
- — “Num ponto só não prendas tanto a mente” —
- Virgílio me falou, tendo-me ao lado,
- Aonde o coração bater se sente.
- Para mais longe olhei: maravilhado
- Após Maria então vi que disposta,
- Da parte, em que era o Mestre colocado,
- Fora outra história em mármore composta.
- Ao sábio adiantei-me: de mais perto
- Aos meus olhos melhor ficara exposta.
- O carro com seus bois na rocha aberto
- E a Arca santa que conduz, mirava:
- Lembra aos profanos o castigo certo.
- Em coros sete o povo ali cantava:
- Do olhar em mim o ouvido dissentia,
- Pois se um dizia sim, outro negava;
- De igual modo na pedra percebia
- Ao ar o fumo se elevar do incenso:
- Da vista o asserto o olfato desmentia.
- Da Arca adiante, com fervor imenso,
- Dançando humilde via-se o salmista,
- Mais e menos que um Rei no zelo intenso.
- Mícol, do régio paço, em frente, a vista
- No Rei fitava, o ato lhe estranhando,
- Que lhe move desgosto e que a contrista.
- Desse lugar depois eu me afastando,
- De perto contemplar fui outra história,
- Que além um pouco, estava branquejando.
- Aqui brilhava a preminente glória
- Desse famoso Imperador romano,
- Por quem Gregório obteve alta vitória.
- Ao natural tirado era Trajano:
- Do freio do corcel mulher tratava;
- Dizia o pranto sua dor, seu dano.
- De cavalheiros tropa se apinhava,
- E nas bandeiras a águia de ouro alçada
- Acima dele aos ventos tremulava.
- A infeliz, dos guerreiros rodeada,
- Parecia dizer: — “Senhor, vingança!
- Morto é meu filho e eu gemo atribulada.”
- E Trajano tornar: — “Toma esperança
- Até que eu volte.” — E a mísera pungida
- Da dor que, em mãe, a tudo se abalança:
- — “Senhor, se não voltares?” — “Deferida
- Serás de herdeiro meu.” — “Bem que outro faça
- Que val’, se a obrigação tens esquecida?” —
- E ele: — “Ânimo esforça na desgraça.
- Meu dever cumprirei sem mais espera,
- Justiça o exige, compaixão me enlaça.” —
- Quem novas cousas nunca vê, fizera
- Visível sobre a pedra esta linguagem:
- Arte não sobe a tão sublime esfera.
- Enquanto me enleava em cada imagem,
- Em que há dado aos extremos da humildade
- De operário a perícia mor vantagem,
- — “Eis almas lentamente em quantidade
- Acercam-se; a mais alta” — disse o Guia —
- “Nos pode encaminhar sua bondade.” —
- A vista, que em portentos se embebia,
- De olhar outros já sôfrega, volvendo,
- Atentei no que o Mestre me advertia.
- Mas, leitor, que esmoreças não pretendo,
- Nem que os bons pensamentos te faleçam,
- Como os pecados pune Deus sabendo.
- Nem os martírios nímios te pareçam;
- Pensa bem no porvir; pois, em chegando,
- O grão Juízo, em caso extremo, cessam.
- E eu disse: — “O que ora a nós vem caminhando
- Não creio sombras ser: o que é portanto?
- Não sei, a percepção turbada estando.” —
- — “Do seu tormento, que te movo espanto
- É condição à terra irem curvados:
- Também a vista duvidou-me um tanto.
- “Olhos fita; imagina levantados
- Os que vêm dessas pedras oprimidos:
- Já vês quanto eles são atormentados.”
- Cristãos soberbos, míseros, perdidos,
- Cegos da alma, que haveis pra trás andado,
- De tanta confiança possuídos,
- Que vermes somos não vos stá provado,
- De que surge a celeste borboleta,
- Que incerta voa ao tribunal sagrado?
- Por que do orgulho assim passais a meta,
- Se sois insetos no embrião somente,
- Vermes de formação inda incompleta?
- A modo de pilar ver-se é freqüente,
- Joelhos, peito unindo, uma figura
- Cornija ou teto a sustentar ingente.
- Da dor mera ficção move tristura
- Em quem olha: senti então notando
- Das almas penitentes a postura.
- Mais umas, outras menos, se dobrando
- Iam, segundo o fardo, que traziam;
- E as que eram mais sofridas, pranteando,
- Não posso mais! — dizer me pareciam.