RESPLENDECIA o sol já no horizonte
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Estão os Poetas ainda na praia, incertos em relação ao caminho, quando chega uma barca, guiada por um Anjo, da qual saem almas destinadas ao Purgatório. Uma delas, o músico Casella, amigo de Dante, a convite do Poeta, começa a cantar uma sua canção. Os dois Poetas e as almas ficam a ouvir o canto harmonioso. Sobrevém. porém, o severo Catão, que as repreende, e as almas fogem para o monte.
- RESPLENDECIA o sol já no horizonte
- Que tem meridiano, onde iminente
- O zênite fica de Solima ao monte.
- Na parte oposta a noite diligente
- Do Ganges co’as Balanças se elevava,
- Que lhe caem da mão, quando é excedente.
- Já nesse tempo a idade transformava
- A branca e rósea cor da bela Aurora
- Noutra, que a de áureos pomos simulava.
- Do mar ao longo inda éramos nessa hora,
- Como quem, na jornada embevecido,
- Se apressa em mente, os pés, porém, demora:
- Eis, qual sobre manhã, enrubescido,
- Das névoas através, Marte chameja
- No ponente das ondas refletido,
- Uma luz (praza a Deus de novo a veja!)
- Tão veloz pelo mar vi deslizando,
- Que não há vôo de ave, que igual seja.
- Maior mostrou-se e mais fulgente, quando,
- Depois de ter-me ao Guia meu voltado,
- De novo olhei o seu brilho contemplando.
- Nívea forma também, a cada lado,
- Lhe divisei; abaixo aparecia
- De igual cor outro vulto assinalado.
- Té asas discernir permanecia
- O sábio Mestre meu silencioso.
- Mas então, como o nauta conhecia,
- Bradou: “Curva os joelhos respeitoso,
- Junta as mãos: eis de Deus um mensageiro!
- De ora avante hás de ver outros ditoso.
- “Vê que, aos humanos meios sobranceiro,
- Para vir de tão longe velas, remos
- Possui das asas no volver ligeiro.
- “Como ele as alça para o céu já vemos,
- Eternas plumas suas agitando;
- Não mudam como dos mortais sabemos.” —
- Em tanto, mais e mais se apropinquando,
- Mais clara sobressai a ave divina:
- Olhos abaixo à luz me deslumbrando.
- O anjo logo à riba a nave inclina,
- Tão rápida, tão leve, que parece
- Voar somente na amplidão marina.
- Na popa erguido o nauta resplendece:
- Feliz quanto é lhe está na fronte escrito;
- Das almas turba ao mando lhe obedece.
- In exitu Israel de Egypto
- A uma voz cantavam juntamente
- E o mais, que foi no santo salmo dito.
- Sinal da Cruz lhes fez devotamente:
- Todos então à riba se lançaram
- E tornou, como veio, incontinente.
- Em volta remirando, os que ficaram
- Pareciam de espanto apoderados,
- Como quem a estranheza se acercaram.
- O sol frechava os lumes seus dourados,
- Lá do meio do céu tendo expelido
- O Capricórnio a tiros reiterados,
- Quando as almas, que haviam descendido,
- Perguntam-nos: — “Sabeis, para indicar-nos,
- Por onde o monte pode ser subido?”
- Tornou Virgílio: — “Vos apraz julgar-nos
- Do lugar sabedores; mas viandantes,
- Como sois vós, deveis considerar-nos.
- Chegáramos aqui, de vós, pouco antes,
- Por estrada tão árdua e temerosa,
- Que esta subida a par, jogo é de infantes.” —
- Notando aquela turba, curiosa,
- Que eu, pelo respirar, era homem vivo,
- Enfiou ante a vista portentosa.
- E como, a quem da paz ramo expressivo
- Presenta, o povo acerca-se cuidoso
- Em tropel de notícias por motivo:
- O bando assim das almas venturoso
- Em meu rosto atentava alvoroçado,
- Quase esquecido de ir a ser formoso.
- Uma, tendo-se às mais adiantado
- A me abraçar correu com tanto afeito,
- Que fui de impulso igual arrebatado.
- Sombras vãs, verdadeiras só no aspeito!
- Três vezes quis nos braços estreitá-la,
- Só as três vezes estreitei ao peito.
- Ante o espanto, que o gesto me assinala,
- Sorriu-se; e, como já se retirasse,
- Avançando, eu tentei acompanhá-la.
- Suavemente disse que eu parasse,
- Pedi-lhe, com certeza a conhecendo,
- Que um pouco a praticar se demorasse:
- — “Como te amei” — me respondeu — “vivendo
- No mortal corpo, assim eu te amo agora.
- Por que vais? Dize: ao teu desejo atendo.” —
- “Caro Casella” — disse-lhe — “hei de embora
- Tornar, ao fim desta jornada, à vida.
- Por que de vir hás delongado a hora?” —
- “Se a passagem negou-me requerida
- Anjo, que as almas, quando apraz-lhe, guia,
- Ofensa não me fez imerecida;
- “Pois a justo querer obedecia.
- Na barca em paz, três meses há somente,
- A todos dá a entrada apetecida.
- “Eu, que na plaga então era presente,
- Onde no mar o Tibre as águas deita
- Por ele aceito fui benignamente,
- “A essa foz seus vôos endireita;
- Pois sempre ali a grei stá reunida,
- Às penas do Aqueronte não sujeita.” —
- — “Se não é por lei nova proibida
- Memória e usança do amoroso canto,
- Que as mágoas todas me adoçou da vida,
- “Praza-te amigo, confortar um tanto
- Minha alma, que molesta, que amofina
- Star envolta no corpóreo manto.” —
- — “Amor que em minha mente raciocina” —
- Entoou ele então com tal doçura,
- Que o som donoso inda alma me domina.
- Ao Mestre, a mim, a todos a brandura
- Do saudoso cantar tanto elevava,
- Que de ai a mente nossa então não cura.
- Na toada, absorvida, se engolfava,
- Eis de repente o velho venerando:
- — “Que fazeis, descuidosos?” — nos bradava.
- “Pois estais na indolência assim ficando?
- Ide ao monte, a despir essa impureza,
- Que a vista vos está de Deus vedando!” —
- Quais pombos, que dos agros na largueza,
- Em desejado pascigo embebidos,
- Como olvidada a natural braveza,
- Súbito arrancaram, de temor pungidos,
- Se algum mal iminente lhes parece,
- De cuidados maiores possuídos:
- Tal a recente grei o canto esquece,
- E, como homem, que vai sem ter roteiro,
- Corre à costa, que aos olhos se oferece:
- Não foi nosso partir menos ligeiro.